terça-feira, 24 de outubro de 2017

Geraldo Sem-Pavor: um cruzado para nossos dias.

Se há uma coisa que os católicos de hoje perderam, a exemplo dos reis espanhóis descritos abaixo, foi o senso de prioridades e qualquer noção estratégica. 

Parece que somos obrigados a sermos tolos diante de inimigos espertíssimos...ao contrário do que a parábola do bom administrador diz.

Mas, vamos lá!

Um exemplo de estrategista: o patrono das Lutas contra os muçulmanos, o gênio estratégico, o El-Cid português, o nada politicamente correto...Geraldo Sem-Pavor!

Quem foi Geraldo Sem-Pavor? 

​Geraldo, ou Giraldo Sem-Pavor, foi um ​«nobre cavaleiro que serviu D. Afonso Henriques, mas de quem se afastou para se eximir a um castigo severo por actos condenáveis que praticara, indo, por isso, refugiar-se, com o bando de salteadores que formou e capitaneava, em território sob domínio islamita». Os seus homens eram: «moçárabes e moradores de Santarém». Os anos e anos de continuados combates nas zonas de fronteira incerta, produziram naturalmente homens desenfreados, mais habituados a subsistir de rapinas, do que de trabalho. Os bosques dos territórios disputados por cristãos e muçulmanos deviam estar repletos de «bandos de salteadores, provavelmente compostos de indivíduos de uma e outra crença, (...) guerreando indiscriminadamente cristãos e muçulmanos». Assolar campos e aldeias, rapinar e conquistar castelos para el-rei podia ser um modo de vida.

Em 1158, Afonso Henriques, a custo, toma Alcácer e, em 1159, Évora e Beja (esta apenas saqueada e aquela perdida em 1161), aproveitando uma momentânea fraqueza almóada e ignorando o tratado de Sahagún desse ano. Em Sahagún, os reis irmãos de Leão e Castela decidem qual é o espaço de cada um na conquista do território muçulmano: até Sevilha, seria para o rei de Leão; de Sevilha para lá, para o rei de Castela.

Em 1165, Geraldo toma Trujillo, bem para lá da zona de Badajoz.

Ainda em 1165, tomou Évora, cidade muito importante e que Afonso Henriques tinha perdido quatro anos antes. «Decidiu empreender uma proeza que o acreditasse no conceito do monarca português para todo o sempre. Para isso planeou conquistar aos Mouros a opulenta cidade de Évora, empresa bem difícil e árdua(fê-lo escalando os muros da cidade e abrindo os portões aos cristãos - e a cidade amanheceu sob o domínio dos mesmos)​.

Foi um feito extraordinário, especialmente para um bando de homens não ligados a um exército estruturado. O coração de Afonso Henriques abriu-se. Se alguma animosidade tinha para com Geraldo, como conta a lenda, aqui lhe perdoou. Fê-lo alcaide de Évora, que foi povoada por cristãos e nunca mais voltou a mãos muçulmanas.

Em fins de 1165 ou início de 1166, tomou Cáceres e depois, imparavelmente, Montanchez, Serpa, Juromenha, Alconchel e ainda «Mourão, Arronches, Crato, Marvão, Alvito e Barrancos». Em 1167 terá tomado Elvas e Monsaraz e em data incerta: Santa-Cruz e Monfrag, na província de Cáceres.

A estratégia de conquista desenvolvia um plano de surpresa, atacando cidades longe duma linha lógica de progressão: de Trujillo, saltou para Évora, depois para Cáceres e seguiu em ziguezague inesperado, a que se juntava o processo do ataque: «avançava sem ser apercebido na noite chuvosa, escura, tenebrosa e, (insensível) ao vento e à neve, ia contra as cidades (inimigas). Para isso levava escadas de madeira de grande comprimento, de modo que com elas subisse acima das muralhas da cidade que ele procurava surpreender; e, quando a vigia muçulmana dormia, encostava as escadas à muralha e era o primeiro a subir ao castelo e, empolgando a vigia, dizia-lhe: “Grita, corno tens por costume de noite, que não há novidade”. E então os seus homens de armas subiam acima dos muros da cidade, davam na sua língua um grito imenso e execrando, penetravam na cidade, matavam quantos moradores encontravam, despojavam-nos e levavam todos os cativos e presas que estavam nela».

Olhando para um mapa das conquistas de Geraldo, percebemos que um dos objectivos que ele tinha, era isolar Badajoz, a forte capital da taifa com o mesmo nome, cortando-lhe os abastecimentos e os apoios vizinhos. Mas Geraldo não estava apenas a apoquentar os muçulmanos; as suas conquistas penetravam profundamente no espaço de conquista definido no tratado de Sahagún e eram um perigo fortíssimo de isolar o rei de Leão.

Então, em 1168 «Fernando Rodriguez de Castro, cunhado do rei leonês», dirigiu-se a Marrocos onde passou cinco meses junto do Califa. «Por fim conseguiu uma subvenção mensal e firmou um pacto ofensivo-defensivo, o qual logo foi confirmado por Fernando II. Este comprometeu-se, assim, a que quando tomasse conhecimento de uma expedição de cristãos dirigindo-se a terra muçulmana, saísse a repeli-los sem perda de tempo. Talvez pedisse também o rei leonês o auxílio de tropas muçulmanas». 

(Observações minhas: vejam que absurdo movido por ganância, deslealdade e estupidez!)

Em Maio de 1169, Geraldo atacou Badajoz e tomou a cerca, mas a guarnição refugiou-se na alcáçova. Então Geraldo pediu ajuda a Afonso Henriques para sitiar a alcáçova. O perigo era grande para Leão (!!!) e para os muçulmanos (!!!). A notícia chegou célere a todos. Fernando II enviou uma expedição, que chegou a tempo de evitar a conquista da cidade pelos Portugueses.  Estes ficaram entre dois fogos: os Almóadas na alcáçova e os Leoneses a cercarem a cidade. 

(Observação minha: esse rei foi um dos imbecis que atrasaram a expulsão islâmica da Espanha, como se vê. Se fossem mais unidos pela fé cristã do que desunidos pela ganância, pela vaidade, pelo desejo da vanglória e pela deslealdade, já teriam expulsado os muçulmanos nos tempos do Geraldo Sem-Pavor. Alguma semelhança com os católicos de hoje, sempre atrás dos próprios interesses e vontades próprias ao invés de se unirem contra o inimigo comum? E, pior, aliando-se aos inimigos? Fique isso como lição!)

Os Portugueses tentaram escapar a esta situação melindrosa, fugindo precipitadamente, mas um pormenor deitou tudo a perder: «E aconteceu que o cabo do ferrolho não ficara bem colhido ao abrir das portas, e o cavalo, assim como ia correndo, topou nele com a ilharga de guisa, (e D. Afonso Henriques) se feriu muito: e quebrou a perna a el-rei (...). Nisto, o cavalo que ia ferido, não podendo mais suster-se, caiu com el-rei sobre a mesma perna, e acabou-lha de quebrar de todo, de maneira que os seus não puderam mais alevantá-lo nem pô-lo a cavalo».

Capturado com Geraldo pelos Leoneses, esteve Afonso Henriques dois meses prisioneiro do rei de Leão, seu genro, numa situação de extrema fragilidade política, mas este, cavalheirescamente apenas terá exigido: «Restitui-me o que me tiraste e guarda o teu reino». Assim, Afonso Henriques teve que devolver os condados galegos de Límia e Toronho e todas as terras da Extremadura espanhola, da margem esquerda do Guadiana. Ficava assim desfeita a atracção da Galiza (Galícia) e, respeitando esse pacto, só restava a Afonso Henriques avançar para Sul, através de território muçulmano, se quisesse aumentar o seu reino.

Também Geraldo, capturado, teve que devolver a Fernando II as terras «da conquista de Leão» e a Fernando Rodriguez de Castro, as terras «castelhanas» de Montanchez, Trujillo, Santa-Cruz e Monfrag. 


Afirma a tradição que o espírito aventureiro deste nobre o levou a Ceuta, no Norte d'África, em missão de espionagem a serviço secreto de D. Afonso Henriques, que lhe havia recomendado a tomada daquela praça. Quando a verdadeira finalidade da operação foi descoberta, Geraldo morreu à mãos dos almóadas.

Fontes:

ASALA, Ibn Sahib. História dos Almóadas in LOPES, David. «O Cid português: Geraldo Sempavor», Revista Portuguesa de História, Tomo 1, Coimbra, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Instituto de Estudos Históricos Dr. António de Vasconcelos, 1940.
GONZÁLEZ GONZÁLEZ, Júlio. História General de España y América, 29 Tomos, Tomo IV, La España de Los Cinco Reinos (1085-1369), 2.ª edición, Madrid, Ediciones RIALP,S. A., 1990.
HERCULANO, Alexandre. História de Portugal, I, in AMARAL, Diogo Freitas do. D. Afonso Henriques – Biografia, Amadora, Bertrand, 9.ª edição, 2000.
SERRÃO, Joel (dir.). Dicionário de História de Portugal, 6 vols., vol. II, Porto, Iniciativas Editoriais, reed., 1979.
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sexta-feira, 22 de setembro de 2017

"Ó, meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno..." em latim.

A oração "O, meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno, levai as almas todas para o céu e socorrei principalmente as almas mais necessitadas de Vossa misericórdia" possui várias possibilidades em latim.

Vejamos:

1:
Domine Iesu, dimitte nobis debita nostra, salva nos ab igne inferiori, perduc in caelum omnes animas, praesertim eas quae misericordiae tuae maxime indigent.

2:
O mi Jesu, dimitte nobis debita nostra, libera nos ab igne inferni, conduc in caelum omnes animas, praesertim illas quae maxime indigent misericordia tua.

3:
O mi Iesu, indulge peccata nostra, conserva nos ab igne inferni, duc omnes ad cæli gloriam, præcipue tua misericordia indigentes. 

Os trechos podem ser misturados entre colunas e linhas.

Domine Jesu
dimitte nobis debita nostra
salva nos ab igne inferiori
perduc in caelum omnes animas
praesertim eas quae misericordiae tuae maxime indigent
O mi Jesu
indulge peccata nostra
libera nos ab igne inferni
conduc in caelum omnes animas
praesertim illas quae maxime indigent misericordia tua


conserva nos ab igne inferni
duc omnes ad cæli gloriam
præcipue tua misericordia indigentes
Domine Jesu
dimitte nobis debita nostra
salva nos ab igne inferiori
perduc in caelum omnes animas
praesertim eas quae misericordiae tuae maxime indigent
O mi Jesu
indulge peccata nostra
libera nos ab igne inferni
conduc in caelum omnes animas
praesertim illas quae maxime indigent misericordia tua


conserva nos ab igne inferni
duc omnes ad cæli gloriam
præcipue tua misericordia indigentes
Domine Jesu
dimitte nobis debita nostra
salva nos ab igne inferiori
perduc in caelum omnes animas
praesertim eas quae misericordiae tuae maxime indigent
O mi Jesu
indulge peccata nostra
libera nos ab igne inferni
conduc in caelum omnes animas
praesertim illas quae maxime indigent misericordia tua


conserva nos ab igne inferni
duc omnes ad cæli gloriam
præcipue tua misericordia indigentes
Domine Jesu
dimitte nobis debita nostra
salva nos ab igne inferiori
perduc in caelum omnes animas
praesertim eas quae misericordiae tuae maxime indigent
O mi Jesu
indulge peccata nostra
libera nos ab igne inferni
conduc in caelum omnes animas
praesertim illas quae maxime indigent misericordia tua


conserva nos ab igne inferni
duc omnes ad cæli gloriam
præcipue tua misericordia indigentes



quarta-feira, 9 de agosto de 2017

O SENTIDO DO SOFRIMENTO, POR ADOLPHE TANQUEREY.

O SENTIDO DO SOFRIMENTO, POR ADOLPHE TANQUEREY.

O sofrimento é um fato

O sofrimento é, neste mundo, um fato universal. São Paulo o afirma, e compara as dores humanas às de uma mãe ao dar à luz: “Pois sabemos que, até o presente, a criação inteira geme e sofre em dores de parto.” (Rm 8,22).
A experiência nos mostra que toda criatura sofre ao longo de sua existência terrena. Já no berço, a criança se serve do choro para queixar-se de seus pequenos incômodos. Quando cresce, tem suas tristezas e contrariedades, cuja intensidade é por vezes manifestada pelas lágrimas.
Mais tarde, vêm as crises da adolescência, com seus ar­dentes desejos, suas paixões, suas tentações, seu desejo de amar e ser amado, suas ilusões, suas decepções e mágoas.
Ao fundar uma família, o homem desfruta, sem dúvida, das alegrias puras e doces do lar; mas sua felicidade é frequentemente perturbada pelas responsabilidades, pelas preocupações, pelo trabalho duro, a luta pela vida, as doenças, os revezes da fortuna ou o luto.
À medida que sua vida prossegue, invadem-no as preocupações, as decepções, as angústias do coração, e ele começa a compreender que esta terra de exílio onde estamos apenas de passagem é realmente um vale de lágrimas. E depois, a velhice, com seu acréscimo de dores e misérias, com o enfraquecimento gradual de nossas energias e a proximidade da morte que se faz sentir, permite-nos compreender ainda melhor que a felicidade neste mundo não nos pertence, que não temos aqui morada permanente, e que nossas esperanças, para que possam realizar-se, devem convergir para uma vida melhor: a vida eterna.
Não são apenas os indivíduos que sofrem, mas também as famílias, com seus lutos e suas divisões, e as nações, com todos os horrores das guerras internas e externas e com as encarniçadas lutas de classes.

Por que existe o sofrimento?
Do ponto de vista natural, pode-se dizer que o sofrimento decorre da própria natureza do homem. Todo ser dotado de sensibilidade está sujeito à dor, assim como à alegria. Quando os objetos ou as pessoas estão em harmonia com sua sensibilidade, ele experimenta prazer; quando, ao contrário, ferem essa sensibilidade, ele sofre. É possível, portanto, sofrer sem culpa própria.
Mas a fé nos ensina que o sofrimento entrou no mundo por causa do pecado. Por um ato de bondade infinita e essencialmente gratuita, Deus havia preservado o homem da dor. Criado em um lugar de delícias, ele devia, se fosse fiel a Deus, passar desse paraíso terrestre diretamente ao céu, para nele gozar, por toda a eternidade, de uma felicidade sem sombras.
O pecado de Adão, transmitido a seus descendentes, veio transtornar esse belo plano. Com o pecado, a dor e a morte entraram no mundo, não somente como uma consequência natural da sensibilidade, mas também como um castigo pelo pecado.
Era justo: pois, tendo o homem pecado por um amor desordenado ao prazer, para satisfazer seu orgulho e sua sensualidade, era bom que ele sofresse para expiar sua falta, e para sentir-se mais inclinado a evitar toda transgressão, vendo que há uma justiça imanente e que o culpado é punido por seu pecado. Assim, o sofrimento, que parece ser um mal, torna-se um bem na ordem moral, uma reparação e um preventivo contra novas transgressões.
Essa ideia se torna mais clara com o grande mistério da Redenção. Para reparar a ofensa infinita cometida contra Deus por nossos primeiros pais e por sua posteridade, o Filho de Deus consente em fazer-se homem, em tornar-se o representante da humanidade culpada, em assumir sobre si o peso de nossas iniquidades, em expiá-las por trinta e três anos de sofrimentos e, sobretudo, pela imolação do Calvário. Assim, o sofrimento é reabilitado, enobrecido e divinizado. Já não é mais somente um castigo, mas um ato de obediência aceito voluntária e generosamente por amor, um ato que, na pessoa de Jesus Cristo, tem um valor infinito. Por ele, Jesus glorifica a Deus muito mais do que o pecado o havia ofendido, e coloca o homem, sob vários pontos de vista, em um estado superior ao de Adão inocente.
Esse ato tem para nós, portanto, as mais felizes consequências. Associando nossos sofrimentos aos seus, Nosso Senhor lhes confere um valor incomensurável. Eles se tornam, não mais um castigo, mas uma reparação: nós havíamos pecado por desobediência e por egoísmo; ao sofrer com Jesus e por suas intenções, reparamos nossa falta por um ato de obediência e de amor. Mas, além disso, utilizamos o sofrimento para progredir na santidade: cada dor pacientemente suportada por amor a Jesus aproxima-nos de Deus e aumenta nosso amor por Ele. E aumenta, ao mesmo tempo, a glória que nos caberá no céu: como afirma São Paulo, nossas tribulações são breves e fáceis de suportar, em comparação com a glória imensa e eterna que receberemos em recompensa! Por isso o Apóstolo se alegra em suas enfermidades e se gloria em suas tribulações, feliz por uni-las às do Cristo Jesus e completar assim sua paixão, para o maior bem da Igreja e das almas.
Milhões de Santos, caminhando nas pegadas do Mestre, sofreram e sofrem com alegria; dentre eles, muitos se oferecem como vítimas, seja à Justiça divina para expiar suas faltas e as dos outros, seja ao Amor, para serem consumidos pela divina caridade, para viver e morrer como mártires e assim ter uma parte maior na eterna visão e no eterno amor.

Como Jesus diviniza o sofrimento

Como, porém, nós temos um horror instintivo ao sofrimento, Jesus, nosso Salvador, vem sofrer em nós e por nós para enobrecer e divinizar o sofrimento. Ele o diviniza primeiramente em sua própria pessoa, no sentido estrito; no sentido amplo, ele o diviniza em seus membros, porque vem sofrer neles e, assim, comunica às suas dores um valor incomparável que os faz participar, em certa medida, nos méritos dos seus próprios sofrimentos.
Em primeiro lugar, Jesus diviniza o sofrimento em sua própria pessoa. Em virtude da união hipostática, que une em uma única e mesma pessoa a natureza divina e a natureza humana, o Verbo Encarnado comunica a todas as suas ações um valor infinito. A dignidade das ações depende, com efeito, da dignidade da pessoa; e, como em Jesus há somente uma pessoa, a pessoa do Verbo, tudo o que ele opera e tudo o que ele sofre participa da infinita dignidade dessa pessoa. Quando ele sofre, em seu corpo ou em sua alma, o Verbo torna suas todas essas dores, eleva-as à altura da sua dignidade, diviniza-as. É por isso que as dores de Cristo têm, aos olhos de Deus, um valor infinito, e que a menor delas bastaria para reparar a infinita ofensa que o pecado infligiu à majestade divina.
Mas Jesus também quer divinizar, em certa medida, os sofrimentos de seu corpo místico, de Maria, sua mãe, e dos homens, seus irmãos.
Tendo associado Maria, sua santíssima Mãe, à obra redentora, como já explicamos5, ele a associou, por isso mesmo, à sua imolação: não somente viveu, mas agiu e sofreu em Maria. Para dar a essa imolação um valor maior, ele faz suas as dores de sua Mãe, une-as às suas próprias dores e oferece tudo ao seu Pai pela salvação da humanidade. Dessa forma ele eleva, enobrece, e, por assim dizer, diviniza os sofrimentos de Maria, unindo-os aos seus. Associa sua Mãe à sua obra redentora, dá-lhe a honra e o consolo de trabalhar com ele, de uma forma secundária, sem dúvida, mas ainda assim muito real e muito eficaz para a mais divina de todas as obras, a da santificação das almas.
Essa honra, ele a quis conferir também a todos os cristãos, embora em menor grau. Segundo São Paulo, todos nós somos chamados, como membros de Cristo, a completar em nós mesmos a Paixão do Salvador Jesus (Cl 1, 24), e, em consequência, a sua obra redentora. É claro que essa Paixão é, em si mesma, não apenas completa, mas abundante e superabundante. Mas, sendo Jesus a cabeça de um corpo místico do qual nós somos os membros, a Paixão desse Cristo místico se completa a cada dia pela de seus membros, nos quais ele vem sofrer, e somente estará terminada quando o último dos eleitos tiver sofrido a sua parte das dores do Cristo.
Ora, vindo sofrer em nós, o divino Redentor faz suas as nossas dores, enobrece-as e as diviniza em certa medida, fazendo-nos assim participar, como Maria, em sua obra redentora, ainda que em menor grau. Cabe a nós colaborar generosamente com ele, aceitando com amor as cruzes que Ele houver por bem enviar-nos, não somente para nossa própria santificação, mas também para a de nossos irmãos. A dor adquire assim um sentido, e nos tornamos então, verdadeiramente, colaboradores do divino Salvador na obra de salvação das almas. Tendo parti­cipado de seus sofrimentos na terra, participaremos um dia de sua glória, e assim a obra de nossa divinização estará completa. 

FONTE: http://www.cultor.com.br/2017/01/o-sentido-do-sofrimento.html

sexta-feira, 14 de julho de 2017

O Pai-Nosso e os Vícios Capitais.

O pai nosso e os vícios capitais

Orlando Fedeli

Hugo de São Victor, famoso mestre medieval, deixou-nos esplêndidos comentários e sermões, além de sua famosa obra 'Didascalion'.

Um de seus muitos opúsculos trata dos Cinco Septenários que haveria no tesouro da Igreja: os sete pedidos do Pai Nosso; os sete vícios capitais; os sete dons do Espírito Santo; as sete virtudes e, por fim, as sete bem-aventuranças.

Poeticamente – esse excelente autor medieval sempre fala com poesia –, ele nos explica que os sete vícios capitais são comparáveis aos sete rios de Babilônia, que espalham todo o mal, gota a gota, por toda a terra, pois deles defluem todos os pecados. Por isso, lembra ele, a Escritura nos diz :

'Junto aos rios de Babilônia nós nos assentamos e choramos lembrando-nos de ti, ó Sion'(Sl CXXXVI,1).

Hugo de São Victor coloca os vícios capitais em uma certa ordem lógica, a fim de relacioná-los com os sete pedidos do Pai Nosso. Assim ele ordena os vícios capitais: soberba, inveja, ira, preguiça ou tristeza, avareza, gula e luxúria.

O primeiro vício capital, causa primeira de todos os nossos males espirituais, é a soberba. Por esse vício atribuímos a nós mesmos, ao nosso próprio ser, a causa do bem existente em nós. Pela soberba deixamos de reconhecer a Deus como fonte de todo o bem. Ao fazer isso, o homem deixa de amar o Bem em si mesmo, para amar o bem enquanto existe nele próprio, porque existe nele. Dessa forma, o homem rompe a sua união com a fonte do bem. Condenando a maldade do orgulho, exclama o mestre:

'Ó peste de orgulho, que fazes tu aí? Por que persuadir o riacho a se separar de sua fonte? Por que persuadir o raio de luz a romper sua ligação com o Sol? Por que, senão para que o riacho, cessando de ser alimentado pela fonte, seque, e que o raio de luz, cortada sua união com o Sol, se converta em treva? Por que, senão para que assim ambos, no mesmo instante em que cessam de receber o que ainda não têm, percam imediatamente aquilo mesmo que já têm?'

E assim é que o homem soberbo, arvorando-se como causa do bem que Deus lhe deu graciosamente, atribui-se uma honra que só cabe a seu Criador. O soberbo rouba a glória de Deus, e fazendo isso desencadeia sobre si todos os males. A soberba, portanto, nos despoja do próprio Deus.

Por isso, a primeira petição do Pai Nosso suplica que Deus nos conceda a graça de reconhecê-Lo sempre como a fonte de todo o bem: 'Pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome'. Isto é, que Deus seja glorificado como causa de todo bem existente em nós e em todas as suas criaturas.

O riacho deve ser grato à fonte que o alimenta. O raio de luz deve reconhecer o Sol como causa de seu brilho. Só assim continuarão a correr e a iluminar.

Na primeira petição da oração que nos foi ensinada pela própria Sabedoria encarnada, rogamos que Deus nos conceda a compreensão e o reconhecimento de Sua excelência e transcendência, e que assim, por meio do dom do temor de Deus Altíssimo, sejamos humildes e curemos a enfermidade de nosso orgulho.

O orgulho é em nós uma doença grave que gera sempre outros males e enfermidades. Ele nos faz amar o bem que Deus nos concedeu como se fosse nosso, produzido, em nós, por nós mesmos. É o orgulho que faz o riacho julgar-se fonte, e o raio de luz julgar-se o Sol.

Quando o homem se deixa dominar pela soberba, ele passa a amar o bem que recebeu não porque é bem, mas só porque é seu. E, quando vê o mesmo bem existindo em outro homem, não o ama enquanto bem, mas o detesta porque está em outro. Ele quereria que aquele bem não existisse no outro, porque julga que aquele bem só deveria existir nele mesmo, falsa fonte do bem. Vendo o bem, que julgava ser seu, em outro homem, o orgulhoso fica então triste e amargo.

Tal tristeza amarga se chama inveja, e é a segunda doença que acomete o homem, o segundo vício capital.

A soberba gera sempre a inveja do bem que Deus concedeu a outrem. Desse modo, ela nos separa e despoja de nossos irmãos, assim como a soberba nos despojara e separara de Deus, nosso Criador. E isso é bem justo, porque assim como o soberbo se regalara desregradamente com a doçura de possuir o bem, agora ele se amargura ao ver o bem no outro.

Quanto mais o homem soberbo se vangloria de seu bem, mais ele se atormenta com o bem nos outros. A inveja rói o soberbo e amarga a sua vida.

Se o homem soberbo amasse corretamente o bem que lhe foi dado em grau limitado, ele amaria sem limite a fonte de todo o bem, que o possui infinitamente. Amando então o Bem em si mesmo, ele amaria o bem que visse em qualquer outro homem e se alegraria com a virtude alheia, porque amaria Deus no outro.

Foi para combater este segundo vício capital que o Divino mestre nos ensinou a pedir, em segundo lugar no Pai Nosso, 'Venha a nós o vosso reino'.

Porque o Reino de Deus é a salvação dos homens; porque Deus reina num homem quando este lhe está unido pela fé e pela caridade, a fim de que, na eternidade, esteja para sempre unido a Deus pela visão beatífica.

Quando pedimos a Deus que Ele reine em todas as almas, Ele nos concede o dom da piedade, que nos torna benignos, desejando também para os outros o bem que desejamos para nós mesmos.

A inveja, por sua vez, gera em nós uma nova doença. Tal como a soberba nos persuadira de que somos a causa do bem que temos, e a inveja nos causa a tristeza de ver o bem nos outros, em seguida a inveja nos leva a considerar que Deus é injusto ao dar o bem - que pretendíamos fosse apenas nosso - a nosso irmão.

Consideramos então que o Criador reparte mal seus bens, e que nos fez injustiça. Por isso, caímos em cólera contra Ele. A ira é então a filha da inveja. Ela nos leva a revoltar-nos contra Deus, enquanto justo distribuidor dos bens.

A soberba despoja o homem de Deus. A inveja o separa e despoja dos demais homens. A cólera o despoja de si mesmo, fazendo-o perder o controle e o domínio do próprio ser. Porque o colérico tem raiva de Deus, que acusa de repartir injustamente seus bens, e se enraivece contra si mesmo, porque vê que não possui todo o bem e percebe seus defeitos e limitações.

A cólera leva então o homem a ter raiva de Deus, dos outros e, enfim, de si mesmo. Com raiva de si mesmo, o homem, doente pelo vício da cólera, começa a detestar até o bem que tem em si.

Por todas estas razões é que Nosso Senhor colocou como terceira petição do Pai Nosso 'Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu'.

É a conformação com a vontade de Deus que nos permite vencer o vício da cólera. Quando pedimos sinceramente a Deus, no Pai Nosso, que nos conformemos com a sua Santíssima Vontade, Ele nos concede então o dom da Ciência, através do qual somos instruídos e compreendemos que os males que nos advém são decorrências da justiça e de um castigo misericordioso de nossos pecados. Compreendemos que devemos aceitá-los com paciência e não com revolta. E compreendemos ainda que os bens alheios são fruto da generosa misericórdia e justiça de Deus, a qual visa sempre a sua maior glória e também o nosso maior bem.

O colérico, pelo contrário, não tendo o dom da Ciência, não reconhece que mereceu o castigo que sofre, e se revolta. Pelo contrário, quem tem o dom da Ciência tudo suporta e é consolado.

Caindo nesta terceira enfermidade, a da cólera, o homem já não possui então, em si, nenhum motivo de alegria nem de consolação. Como não quis tirar do bem alheio a alegria, o invejoso caiu na tristeza e no auto-suplício da cólera, que o flagela depois que foi despojado de Deus, do próximo e de si mesmo.

Não encontrando mais em si nem alegria nem consolação, o homem colérico cai na tristeza. Esse era o nome que os medievais davam à preguiça, porque o vício capital da preguiça leva a ter tristeza com o bem que recebeu de Deus, visto que esses bens nos trazem obrigações.

Os vícios capitais anteriores, como vimos, fazem o homem perder todo o amor ao bem que Deus lhe deu. Agora, dominado pela cólera, ele já não tem alegria nem no próprio bem, e este bem ainda lhe exige cumprimento de deveres, porque a quem muito foi dado, muito será pedido. Desconsolado e triste, o homem soberbo, invejoso e colérico lamenta as obrigações que trazem os bens que Deus lhe havia dado, e tem pouca vontade de trabalhar na vinha de Cristo. É da cólera que nasce a preguiça ou tristeza. O colérico preferiria que Deus não lhe desse bem algum, para não ter mais obrigações. A tristeza ou preguiça ata o homem na coluna da inércia e o fustiga de tristeza.

Ora, o que nos dá força para trabalhar com alegria e incansavelmente na vinha do Senhor é o pão de cada dia. Por isso, para combater a falta de generosidade no serviço de Deus, Jesus nos faz pedir no Pai Nosso 'O pão nosso de cada dia nos dai hoje'.

Isto é, que Deus nos conceda a graça e a força necessários para cumprir nosso deveres de cada dia. Que Deus nos dê suas graças e força para cumprirmos os deveres que elas nos acarretam. E esta força de atuar é que traz ao homem a alegria do dever cumprido.

Com 'o pão nosso de cada dia', o que pedimos, então, é o dom da Fortaleza, o qual nos dá força e paciência para enfrentar as dificuldades, trabalhos e cruzes de nossa vida de cada dia. É o dom da Fortaleza que produz em nossa alma a fome e a sede de justiça de que necessitamos para ir ao céu.

Na quarta petição pedimos, portanto, a fome de justiça e o pão que a sacia.

E que rio de maldade vai ser gerado pela preguiça ou tristeza?

Da tristeza nascerá a vontade de buscar consolação nos bens exteriores, porque aquele que não encontra bem ou alegria dentro de si procurará consolação fora de si.

Da preguiça virá portanto a avareza, a cobiça desmesurada de bens materiais. Quem não tem fome e sede de justiça terá fome e sede de ouro, e fará da fortuna a sua justiça. E à ausência de consolação e de alegria interiores se somará a inquietude pela aquisição e pela conservação dos bens materiais, que só trazem falta de paz, inquietação, apreensão de males e perturbação de espírito.

A sede de bens materiais somente cresce com a posse deles, e jamais o homem estará saciado pela riqueza. A riqueza é uma água que faz crescer sempre mais a sede por ela.

Para combater essa miséria e essa quinta doença - tão baixa - da alma, Cristo nos mandou que pedíssemos, em quinto lugar: 'Perdoai as nossas dívidas, assim como nós perdoamos os nossos devedores' .

Pois é bem justo que quem não é avarento no que lhe é devido não seja também inquietado pelo que deve. O misericordioso com os seus devedores alcançará misericórdia para si. E quando pedimos a Deus o perdão de nossas dívidas, no mesmo grau em que estamos dispostos a perdoar o que se nos deve, o que pedimos e recebemos é o dom do Conselho.

Por esse dom do Espírito Santo sabemos e temos força para exercer de bom coração a misericórdia para com quem nos ofende, e do modo mais conveniente, e na hora oportuna, para lhes fazer bem em troca do mal que nos deram.

Do rio vicioso da avareza, caso ele não seja vencido em nós pela ação da graça, nascerá um rio mais lamacento ainda, que é o rio da gula. E é lógico que buscando os bens inferiores, o homem seduzido pelas riquezas - nelas não encontrando verdadeira consolação, mas só ainda maior inquietação - procure então num bem inferior, que está nele mesmo, aquilo que os bens inferiores externos não lhe puderam dar.

Ele busca então o prazer dos sentidos, e em primeiro lugar o prazer do comer, visto que todo homem, precisando alimentar-se, necessariamente tem que ser tentado pela gula.

Esse vício seduz o homem e o reduz a um nível inferior ao dos animais. Aquele homem, pois, que quis se igualar a Deus colocando-se orgulhosamente como causa do próprio bem, cai agora abaixo dos animais, que só comem o que lhes é necessário.

Para combater este sexto e tão baixo mal, na oração dominical, Cristo nos ensina a pedir : 'Não nos deixeis cair em tentação'.

Note-se que não se pede para não ter a tentação da gula. Visto que é necessário que o homem coma, todo homem estará exposto à tentação do comer desregradamente. A gula explora o apetite natural de subsistência, levando-nos ao excesso. A pretexto de necessidade, a gula nos induz a comer irracionalmente.

Por isso, para combatê-la, pedimos a Deus, na sexta petição do Pai Nosso, que nos conceda o dom da Inteligência. Porque é o apetite da palavra de Deus que contém o homem na justa medida do apetite do pão material, pois 'nem só de pão vive o homem'. Mas só entende isso quem tem o espírito de Inteligência, que faz compreender a superioridade dos bens espirituais sobre os materiais, fazendo o homem vencer a gula pelo jejum e abstinência, e a avareza acumuladora pela confiança na Providência.

É o espírito de Inteligência que clarifica a visão interior do homem pelo conhecimento da palavra de Deus, que age como um colírio no olho da sabedoria.

Seduzido pelo rio lamacento da gula, o homem pecador é arrastado ao pântano final, onde fica atolado, sujo e preso: a luxúria escravizadora.

Quando o homem se entrega ao prazer da gula, a sua alma se torna débil e já não consegue dominar o ardor das paixões carnais. Caindo na luxúria, ele fica escravizado, porque nenhuma paixão tem maior poder de domínio sobre o homem do que a impureza. Escravo dos amores impuros, o homem jaz na servidão do demônio, da qual dificilmente se liberta, a não ser pela oração e penitência.

Este é o sétimo e fétido rio dos vícios de Babilônia, do qual, no Pai Nosso, se pede apropriadamente no Pai Nosso a libertação: 'Livrai-nos do mal'

É bem natural que o homem escravizado suspire e implore por sua liberdade. E a sétima petição do Pai Nosso nos implora de Deus Altíssimo o dom da Sabedoria, que torna realmente o homem livre .

Ora, a palavra sabedoria tem a mesma raiz de sabor. Movida pela graça e sentindo o gosto da Sabedoria, a alma se liberta da escravidão dos prazeres materiais e pode, enfim, alçar vôo para contemplar a Deus.

Portanto, é a doçura interior e espiritual que dá ao homem a força de vencer a volúpia mentirosa dos sentidos.

Só então, na posse da Sabedoria e libertada dos vícios, terá a alma a paz de Cristo, que não é a deste mundo.

FONTE: 
http://modestiasaojose.blogspot.com.br/2017/04/o-pai-nosso-e-os-vicios-capitais.html


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