quarta-feira, 30 de junho de 2010

Civilização Cristã Tocêntrica x civilização moderna e pagã antropocêntrica.


Um pequeno artigo para edificação. Esquemático demais, e resumidíssimo, mas útil.

Em Cristo Senhor Nosso,

Luiz de Carvalho.

por J. Michel.


Abordamos neste texto um tema de história, ou mais exatamente, de filosofia da história. Para bem delimitá-lo, é-nos necessário mencionar alguns dados filosóficos, mesmo teológicos, concernentes ao Homem.

A civilização cristã e a civilização moderna têm duas concepções diametralmente opostas do fim último do homem.

“O objetivo de todo homem é ser feliz”, diz Bossuet. Ora, se a felicidade encontra-se em Deus criador e mestre de todas as coisas, é do livre-arbítrio de cada homem escolhê-lO e encontrá-lO... Desde o pecado original, a humanidade está desviada de seu caminho original, o que fá-la ter o fim em si própria. (cf. as diversas civilizações antigas...) Por isso, o Salvador incarnou-Se para novamente mostrar aos homens a via salvífica da verdadeira felicidade. O amor ao próximo, mesmo de seus inimigos, o perdão, em suma, as oito beatitudes que transformam as idéias recebidas até ali. A Igreja perpetua e propaga estas verdades pela face da terra.

Do século I até ao XIII, os povos dilataram em sabedoria e em ciência diante de Deus, gradativamente à aplicação dos princípios evangélicos na sociedade. Claro, houve quando em vez derrocadas e mesmo recuos consideráveis, porém a Lei, a Regra de referência que os homens consultavam desde o fim de sua errância era o Evangelho de Cristo-Rei.

Antes de prosseguir, descrevamos rapidamente em que ponto se encontrava a Civilização Cristã: “À medida que o espírito cristão penetrava as almas e os povos, almas e povos cresceram em luz e bem. Os corações tornavam-se mais puros, os espíritos mais inteligentes. Os inteligentes e os puros introduziam na sociedade uma ordem mais harmoniosa. A ordem mais perfeita ocasionava a paz geral e profunda; a paz e a ordem engendravam a prosperidade, e todas estas coisas davam azo às artes e às ciências, reflexos da claridade e da beleza dos céus.” (Mgs. Delassus) Não é esta a expressão do Evangelho: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo”?

A obra da Idade Média foi reformar a sociedade antiga, fazendo triunfar a idéia que Jesus Cristo oferecia a verdadeira civilização. Para chegar nesse ponto, dedica-se a reformar o coração do homem; logo, veio a reforma da família; depois o conjunto das famílias reforma o estado e a sociedade.

Tal ascensão das nações à perfeição teve seu ápice no século XIII, com São Luís de França e Santa Elisabete da Hungria, São Francisco de Assis, Santo Domingos e Santo Tomás de Aquino. Contudo, no final do século XIII manifesta-se certo recuo, o qual devia levar, após o período tenebroso do século XV (Guerra dos Cem Anos, pestes...) à Renascença, depois à Reforma e à Revolução. Estas etapas progressivas edificaram os diferentes aspectos da civilização moderna.

Esta, para destruir a cristandade, seguirá o caminho exatamente inverso do seguido para sua edificação: primeiramente, os ataques serão contra o Estado, depois contra a família e logo contra o individuo... Satã não é “o macaco de Deus”, que revira toda a simbólica do plano divino? O Templo pagão é a Igreja ao revés, como a civilização moderna é a civilização cristã invertida, transformada, desviada.

Podemos desde já qualificar tal civilização através de palavras como conflito, guerra. Trata-se, de fato, “da conseqüência universal de todos os prazeres, a guerra a lhes assediar, de homem a homem, de classe a classe, de povo a povo.” (Mgr. Delassus). Aqui já vemos o quanto está distante a moral evangélica...

Poderíamos resumir assim:

- civilização cristã = mérito
- civilização moderna (pagã) = prazer

A Renascença

Renascença = Humanismo

“A renascença é a independência da moral defronte à lei de Deus” (Mgr. Delassus)

“A renascença é a dissociação da natureza e da graça, a afirmação da beleza e da bondade da natureza sem a graça” (Marcel Clement)

“A Deus deve ser deixado o cuidado das coisas divinas, ao julgo humano o cuidado pelas coisas humanas...” (Alberti, divulgador da Renascença no século XV)


Algumas pistas para reflexão...

Um escritor do século XIX fala dos princípios da Renascença:

“Numa época de negligência, de afrouxamento quase geral da vida religiosa (séc. XV), do enfraquecimento da autoridade dos papas (Avignon), da invasão do espírito mundano no clero, da decadência da filosofia e da teologia escolástica, da terrível desordem na vida civil e política, encontramos sob os olhos duma geração superexcitada as deploráveis lições da literatura antiga. Sob a influência duma admiração excessiva por esta, alçaram o estandarte do paganismo. Os aderentes desta reforma pretendiam adequar tudo à antiguidade, tanto na moral quanto nas idéias, restabelecendo a preponderância do espírito pagão. Eles consideravam a filosofia antiga e a fé na Igreja dois mundos inteiramente distintos e sem nenhum ponto de contato.”

Desejavam que o homem conquistasse sua felicidade na terra e que a sociedade se organizasse de forma que cada um procurasse satisfizer todos os sentidos.

Deste modo, o homem modifica sua concepção de finalidade. “A um homem decaído e resgatado, a Renascença opõe o homem nem decaído nem resgatado, elevando-se a alturas admiráveis somente pelas forças de sua razão e livre-arbítrio.” (M. Bériot)

Eis que estamos muito longe da concepção cristã que afirma que o coração é para amar a Deus, o espírito para conhecê-lO e o corpo para servi-lO...

Os êxitos humanos que foram as novas invenções (imprensa, pólvora, telescópio...), a descoberta do Novo Mundo, a (re)descoberta das antigas obras exaltaram o orgulho do homem, e fê-lo afirmar que somente a Razão pode governá-lo.

As devastações da Renascença manifestaram-se, em primeiro lugar, na ordem estética e intelectual. A arte, a literatura e a ciência retiraram-se pouco a pouco do serviço da alma, para servir o corpo e suas paixões.

A revolução moral estava em marcha, a qual iria deslanchar na revolução religiosa: a Reforma.



A Reforma

Definições:

“A Reforma é a independência da razão defronte à revelação” (Mgr. Delassus)

“A Reforma é o divórcio da razão humana e da razão divina, o livre exame do individuo investindo-se contra a graça misericordiosa do magistério exercido pelo vigário de Cristo” (Marcel Clément)


Algumas pistas para reflexão...

Convém bem distinguir duas coisas na Reforma:

- as novas idéias religiosas, que desejavam “reformar a Igreja e fazê-la reencontrar sua pureza original” (Lutero)
- o fenômeno da tomada do poder político nalguns paises europeus pelos protestantes...

As idéias humanistas, aplicadas no domínio da religião, vão cair no livre-arbítrio. Por que, com efeito, o homem submeter-se-ia aos dados da Revelação o que pertence ao domínio religioso, se afirma que Deus não possui qualquer autoridade no que não toca à Fé? Cada homem é capaz, através da própria razão, de definir o que verdadeiramente está sob domínio da Fé: eis o livre-arbítrio, impostado por Lutero, Calvino... Não há mais espaço à interpretação da Palavra Divina por nenhuma autoridade.

Após a etapa da laicização da sociedade, que é a Renascença, os “reformadores” passam à “laicização” da religião, lha negando tudo o que possui de Divino...

Ademais, a “religião” protestante “assegurava uma maior liberdade para a conduta privada”. Prometendo o Paraíso a todo homem, mesmo ao mais criminoso, sob a única condição dum ato de fé interior (somente possível aos predestinados), a Reforma assegurava-se um certo sucesso defronte aos indivíduos já moralmente corrompidos pela Renascença...

“Empreguem vosso poder para me ampararem e fazer triunfar minha revolta contra a Igreja, e eu vos livrarei de toda autoridade religiosa” dizia Lutero aos príncipes protestantes. Compreendemos então a rapidez e a eficácia da Reforma na Alemanha, na Inglaterra e na Escandinávia. Foi por pouco que a França resistiu vitoriosamente a tais assaltos após cinqüenta anos de guerras; isso só foi possível graças ao enraizamento profundo dos princípios cristãos na filha mais velha da Igreja.

Mas “o regime de Genebra”, tipo e vitrine da democracia laica, (onde o rei reina e não governa, pois o povo é soberano...) já continha as premissas da Revolução Francesa, e os ideais desta alastraram-se perniciosamente, no correr dos anos...


A Revolução

Definições:

“A revolução tem por meta formar um novo homem, destruindo a constituição cristã da França” (Constituição de 1792)

“A revolução é inspirada pelo próprio Satã; seu objetivo é destruir duma vez por todas o edifício do cristianismo, e de reconstruir sobre suas ruínas a ordem social do paganismo” (Pio IX)



Pistas para reflexão..

Em poucos meses a revolução fez tabula rasa do governo, das leis e das instituições da França.

Ela destruiu sucessivamente todas as ordens que vinculava a França à sua tradição cristã multissecular. Ela pôs o clero em estado de miséria, depois suprimiu o rei e a nobreza, enfim, destruiu as corporações de oficio. Então a República foi proclamada... era a revolução política.

Lancemos um véu pudico sobre todos os horrores que acompanharam estas sucessivas destruições, das quais cada um conhece um tanto; digamos somente que correu muito sangue...

Após estas destruições, seria necessário reconstruir:

Os revolucionários deram como fundamento da nova sociedade o princípio do “homem bom por natureza” (Rousseau). Aos auspícios deste princípio foi alçada a trilogia maçônica Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

- Liberdade: para todos e para tudo, porque no homem só há bons instintos...
- Igualdade: porque todos são igualmente bons, possuem direitos iguais em tudo...
- Fraternidade: rompendo toda barreira entre indivíduos, famílias ou nações, para permitir ao gênero humano amplexar-se numa república universal...

A religião católica foi substituída pelo culto da Natureza. Ela tinha um deus: o Ser Supremo, e uma deusa, a Razão; possuía um dogma: a liberdade, a volúpia, a lei e a nação.

Assim, “o homem pôde retornar à pureza e à simplicidade da Natureza.” (Talleyrand)

A realeza foi substituída pela democracia revolucionária, para perpetuar as reformas. Tudo o que poderia lembrar o tempo antigo foi proscrito (até do calendário)...

Os resultados foram assustadores. O homem retrocedeu ao estado de animal, e ao fim de dez anos, a França retornara aos tempos mais bárbaros de sua história. Realismo cristão e utopismo revolucionário...

Então mui oportunamente surge Napoleão, que salva a revolução de sua própria ruína contendo-a. Restabelece a Igreja de França através da concordata, mas não restabelece a civilização cristã... As instituições revolucionárias perduraram. E no decorrer do tempo, a revolução continuou e continua sempre a solapar o Reino de Cristo para instaurar doravante sempre o de Satã.

Nosso século é apenas a continuação do precedente, fundado sobre as mesmas idéias, que progrediram sem parar. As raízes de nosso mal são profundas...


Conclusão

A Renascença deslocou a felicidade de lugar, e modificou suas condições: era em nosso mundo e não mais no outro, era pelo prazer e não mais pelo mérito.

A Reforma descarta a autoridade religiosa que dizia: “Vós vos enganais, a felicidade está no céu”. Sozinha, a Bíblia bastava para asseverar a Verdade...

A Revolução negou que Deus falara aos homens, e afoga em sangue aqueles que continuavam a afirmar a verdade. Logo, instituiu o culto da Natureza.

Todas estas transformações profundas da civilização, todos estes ataques contra a Igreja do Cristo não se fizeram sem resistência. Muitas almas resistiram e resistem sempre apegadas ao ideal cristão da civilização cristã do Cristo-Rei. Daí que vêm os inumeráveis conflitos de idéias desde há quase cinco séculos...


“Toda civilização que não se origina da palavra de Deus é falsa,
Toda civilização que não cumpre a palavra de Deus é breve,
Toda civilização que não é penetrada do espírito de Deus é fria e vazia.”

Lamartine


“E as portas do inferno não prevalecerão sobre Ela...”

Mt 16, 18

http://www.istoecatolico.com.br/index.php/Artigos/Diversos/Renascenca-reforma-e-revolucao-ou-a-historia-da-luta-entre-a-Igreja-e-o-Templo.html
Bibliografia

- La conjuration antichrétienne Mgr. H. Delassus Ed DDB
- Histoire de France J. Banville
- Histoire partiale, histoire vraie J. Guiraud Ed. Beauchesne (4 vol.)
- Pour en finir avec le moyen-âge R. Pernoud
- Connaissance élémentaire du protestantisme, AFS
- La révolution française P. GaxotteL´Eglise face à la révolution J. Crétineau-Joly Ed. C.R.F

Aparições do Demo na Maçonaria.


Três incidentes que em seu tempo foram dados a conhecer amplamente, pelos jornais. O último foi referido pelo “Blackwood Magazine” e reproduzido pela “Pall Mall Gazette”, sob o título “Uma aparição autêntica de Satan”. Eis o texto.
Do livro de Mons. León Meurin S.J., arcebispo de Port-Louis, Filosofia da Maçonaria:

O quadro apresentado pela autoridade maçônica se mostra em completo acordo com a forma como Satanás se revelou em numerosas ocasiões aos olhos dos homens. Não é este o lugar para tratar de tão importante questão; bastar-nos-á desdobrar em benefício daqueles que não os conheçam, três incidentes que em seu tempo foram dados a conhecer amplamente, pelos jornais. O último foi referido pelo “Blackwood Magazine” e reproduzido pela “Pall Mall Gazette”, sob o título “Uma aparição autêntica de Satan”. Eis o texto.


“Sob o título de ‘Aut Diabolus aut Nihil, história verídica de uma alucinação’, conta o ‘Blackwood’ como alguns espiritistas de Paris invocaram o diabo em uma reunião. O autor do relato o qualifica de ‘história verídica de uma entrevista com o diabo’, que teve lugar em Paris há alguns anos. Relato autêntico em todos os seus extremos, coisa essa fácil de comprovar, dirigindo-se às diversas pessoas que tomaram parte nos fatos em questão.”


“E acrescenta: ‘Não podemos dar a nossos leitores a chave do mistério, porque não acreditamos em nenhuma das doutrinas espiritistas; mas o certo é que chegou a dar-se uma aparição autêntica, nas circunstâncias que se indicam. Este é o fato; e deixamos para mais profundos psicólogos o cuidado de dar a tal mistério um mistério uma explicação satisfatória.”


“Os principais personagens cujos nomes são conhecidos eram um príncipe russo, Pomerantseff, e um sacerdote francês o Abbé Girod, que zombava de todas as teorias de aparições. Numa ceia, havida em casa do duque de Frontignan, a conversação veio a recair no espiritismo, e o duque afirmou ter visto o ‘Espírito do Amor’. O abade, céptico, acabava de pronunciar um grande sermão onde demonstrava a existência de um demônio individual; e zombava do duque, quando o príncipe afirmou que a declaração do duque não para ser vista como piada nem para assombrar os ouvintes já que ele mesmo, o príncipe, conhecia o diabo por o ter visto. ‘Vos digo, insistiu, que vi o deus do mal, o príncipe da desolação, e o que é mais, posso conseguir que outros o vejam; inclusive o Sr. Mesmo, senhor abade’”.



“Este recusou a princípio levando o caso em brincadeira, mas depois atormentado pela insistência, aceitou.”


“Foram tomadas as providências pertinentes. Naquela mesma noite o Abbé Girod, segundo o combinado, deveria encontrar-se às nove horas e meia em presença do príncipe das trevas. E tudo isto acontecia em Paris a ‘cidade – luz’, capital do mundo civilizado!...”


“Às nove e meia em ponto Pomerantseff chegou ao ponto marcado. Estava em traje de noite, mas sem qualquer espécie de adorno. Apresentava uma palidez mortal. Entraram no coche e o cocheiro, que sem dúvida havia sido instruído anteriormente acerca do lugar de seu destino, afrouxou imediatamente a rédea aos cavalos. Pomerantseff baixou os cortinados e tirando do bolso um lenço de seda, enrolou-o até reduzi-lo a uma fita estreita.”

“-Agora tenho que vendar os olhos, meu caro – disse tranqüilamente.”
“-Diacho! – exclamou o abade que malgrado seu estava ficando nervoso -. Isso me é desgradável. Sempre gosto de ver para onde vou.”
“O coche prosseguia seu caminho.”
“-Falta muito para chegarmos? – perguntou o abade.”
“-Já estamos perto – respondeu o príncipe com uma voz que pareceu ao abade sepulcral.”
“Ao cabo de meia hora pouco mais ou menos de corrida, Pomerantseff disse em voz alta:”
“-Já chegamos!”


“O coche virou e o abade escutou o chocar-se de cascos ferrados contra o empedrado de um pátio. Depois o veículo se deteve. Pomerantseff abriu por si mesmo a portinhola e ajudou o abade que continuava com os olhos tapados a descer.”


“-Há cinco degraus – disse -, tenha cuidado.”
“Atravessaram um pátio, subiram uma escada, cruzaram um vestíbulo e Pomerantseff abriu uma porta que voltou a fechar com chave. Segyiram andando. Voltou a abrir outra porta, voltou a fecha-la igualmente com chave, e o abade ouvou o correr de uma grossa cortina. Pomerantseff pegou o braço do abade, o fez dar alguns passos e lhe disse baixinho:”
“-Fique onde está e não faça nenhum barulho. Confio em sua palavra de que não tirará a venda dos olhos até que ouça vozes.”


“O abade permaneceu silencioso, de braços cruzados. Ouviu Pomerantseff que se retirava, e depois repentinamente cessou todo o barulho. O infeliz sacerdote percebeu que o local onde se encontrava não estava escuro, pois embora nada pudesse ver cria estar rodeado por uma claridade forte: sentia como que uma carícia de luz em suas mãos e faces.”

“Subitamente um ruído agudo o fez sentir um calafrio por todo o seu ser; era como o arrastar de uma cadeira pesada sobre o chão encerado. E antes que pudesse refazer-se desta primeira sensação de terror, escutou a voz de vários homens, que pareciam submersos num profundo êxtase. Estas vozes diziam:”


“-Pai e criador de todo o pecado e de todo o crime: príncipe e rei de toda angústia e de todo desespero, vem a nós!”


“O abade, a essa altura bastante assustado, arrancou o lenço que lhe cobria os olhos. Se encontrou num grande salão, mobiliado ao estilo antigo, com tabiques de carvalho. A peça estava iluminada por inumeráveis círios, colocados em candelabros. Esta luz é naturalmente suave parecia cruel em razão de sua intensidade.”


“Tudo isto ele apreciou instantaneamente, pois logo que pôde enxergar sua atenção se concentrou no grupo de homens.”


“Eram doze – Pomerantseff também se encontra entre eles – e suas idades, segundo o sacerdote podia julgar, oscilavam entre os vinte e cinco e os cinqüenta e cinco anos. Todos eles pareciam encontrar-se num mundo melhor naquele momento. Estavam de joelhos sobre o solo, as mãos unidas. Seus rostos, iluminados por um êxtase infernal, estavam metade contraídos como se sofressem e metade sorridente como se experimentassem um gozo triunfal.”


“Instintivamente o abade procurou com os olhos a Pomerantseff. Era o último da esquerda e enquanto com a mão deste lado apertava a direita de seu vizinho, com a outra acariciava o piso encerado, como se tentasse anima-lo a algo (*). Sua figura parecia menos agitada que as dos outros, embora se achasse possuído de mortal lividez e os tons violáceos de sua boca e bochechas, anunciassem uma dolorosa emoção.”

“Todos a uma entoavam uma espécie de litania extática."

(Nota da Confraria: Omitida aqui para não inspirar ninguém a fazer o mesmo.)

“O abade sentiu seu coração apertado por uma angústia glacial diante da visão daqueles seres humanos, transfigurados pelo esforço mental, prosternados. O ar, carregado de eletricidade, parecia povoado por inumeráveis sons.”


“A temperatura baixou repentina e intensamente, e o sacerdote percebeu a presença de um recém chegado ao aposento. Afastando os olhos do grupo de homens ajoelhados, que não pareciam dar a mínima atenção a ele, Girod passeou pelo ambiente seu olhar até que encontrou o recém chegado, que completava o número de ‘treze’ dos reunidos (excetuando naturalmente que a rigor não fazia parte da reunião), que parecia ter chegado pelos ares e se materializado diante de seus olhos.”


“Era um homem jovem, não aparentando muito mais que vinte anos, imberbe como um adolescente. Seus longos cabelos louros caiam sobre seus ombros, como os de uma garota. Estava também vestido para recepção. Suas faces tinham um matiz rosado, como animadas pela embriagues ou prazer, mas seu olhar era de uma ‘tristeza’ infinita, de um ‘desespero’ indizível. Os doze homens, sem dúvida alguma conscientes de sua presença, submergiram numa ainda mais profunda adoração. Às invocações sucederam-se as orações e louvores. O abade se sentiu progressivamente possuído de um terror mortal. Seus olhos não podiam desviar-se do ‘décimo terceiro’, que se mantinha de pé tranqüilamente, com um vago sorriso errando por seus lábios; sorriso este que parecia tornar ainda mais profundo o desespero refletido em seus olhos azuis.”

“Girod se sentiu surpreendido pela beleza daquela figura, por sua tristeza e depois, pelo vigor intelectual que a carcterizava. A expressão não era propriamente de maldade, embora fosse fria; os lábios e a fronte denotavam orgulho e altivez, mas a perfeita simetria e proporções do rosto denotavam flexibilidade e força de vontade. Todo o restante só fazia ressaltar a tristeza do seu olhar.”



“Seus olhos se fixaram nos do abade, e Girod sentiu a influência sutil que penetrou nele por todos os seus poros. O terrível Décimo Terceiro só olhava para o sacerdote, enquanto os doze homens se entregavam a uma ‘oração’ cada vez mais selvagem, blasfema e cruel.”


“O abade não conseguia pensar em outra coisa que não fosse a figura que se erguia diante dele, e na tristeza que o envolvia. Não conseguiu formular uma oração embora pensasse nisso. Sera talvez porque o magnetizava o desespero que se refletia naqueles olhos azuis? Sera o desespero ou a morte? Mas a sensação era violenta e apaixonada, sem ter nada em comum com a serenidade da morte.”


“A influência dos olhos azuis, fixos sobre o abade, se fazia cada vez mais forte e o pobre sacerdote se sentia como que inundado de uma voluptuosidade terrível. Era como um êxtase de dor, que se convertia em prazer, o êxtase de alguém a quem se tivesse negado toda a esperança e que por isso mesmo, pudesse contemplar com ironia o autor de toda a esperança. Girod teve a impressão de que a qualquer momento iria sorrir diante do que experimentava, de que não iria sentir nenhum desfalescimento e um nome familiar – um nome que havia ouvido ser pronunciado várias vezes pelos doze homens, sem se aperceber disso – ressoou em seus ouvidos: ‘Cristo’.”

“Onde o havia ouvido? Não saberia dize-lo. Sabia que era o nome de um homem jovem, mas não se recordava de nada mais. Ainda ouviu outra vez o nome de Cristo. Havia também outro nome como o de Cristo, que lhe deu uma impressão de profunda paz, e ao mesmo tempo, de grande sofrimento. E não somente de paz, mas de alegria. Uma vez mais foi pronunciado o nome de Cristo; Ah! A outra palavra era ‘Cruz’; agora o recordava: uma coisa longa, com outra amis curta atravessada...”



“A visão se eclipsou. Os doze adoradores se calaram e ficaram estendidos no chão, uns junto aos outros, como entorpecidos e presas de esgotamento. Ao cabo de alguns minutos se levantaram, trêmulos e titubeantes contemplaram por alguns momentos o abade, que se sentia igualmente extenuado.”


“Pomerantseff, com extraordinária presença de espírito, se dirigiu para o sacerdote, o empurrou para a porta por onde haviam entrado e depois de a ter fechado com chave para não serem seguidos pelos demais, se assentaram por alguns momentos na antecâmara.”


“Esta retirada repentina terminou de esgota-los, física e mentalmente. O príncipe, que só parecia conservar o uso dos sentidos com um esforço mecânico, voltou a colocar cuidadosamente a venda sobre os olhos do abade, que havia conservado por todo o tempo o pedaço de tecido na mão crispada. Só quando já estavam fora, se deram conta de que haviam esquecido os chapéus.”


“-Agora não importa – murmurou Pomerantseff – seria perigoso voltar lá.”
“E empurrando o abade para dentro da carruagem que os havia esperado gritou ao cocheiro:”
“-A galope!”
“Não trocaram uma palavra durante o caminho. Chegando ao ponto de partida, e Pomerantseff tirou a venda dos olhos de seu amigo. O abade não soube dizer jamais como conseguiu chegar a sua moradia.”
“No dia seguinte teve febre alta e delirou”.
Até aqui o relato reproduzido do “Blackwood Magazine”.

Ao que tudo parece indicar o “Décimo Terceiro” personagem, tão belo, tão inteligente, tão firme e orgulhoso, e ao mesmo tempo tão cheio de desespero, era o mesmo que as lojas conhecem sob o nome de “Hiram” e que a Revelação Divina nomeia como Satanás, Lúcifer, o Arcanjo Decaído da Luz.


A outra aparição teve igualmente lugar em França. O Reverendíssimo Padre Alexandre Vincent Jandel, mestre geral da Ordem dos Pregadores, pregava em Lyon, antes de ser nomeado pelo Papa Pio IX para tão elevado posto. Sentiu-se um dia presa do desejo de mostrar aos fiéis a virtude do sinal da cruz; e pregou longamente sobre o tema. Ao sair da catedral aproximou-se dele um homem que lhe disse:


“-O Senhor crê deveras no que acabou de dizer?”
“-Se não acreditasse nisso não o ensinaria aos demais – respondeu o reverendo -. A virtude do sinal da cruz é reconhecida por toda a Igreja.”
“-Deveras? –Murmurou seu interlocutor com ar de assombro -. E o Sr. Crê nisto? Pois bem. Escute o que vou lhe dizer: eu sou maçom e não acredito, mas fiquei profundamente surpreso com o que o Sr. Acaba de ensinar aos que ouviam. E vou propor-lhe que ponha à prova a eficácia deste sinal. Todas as noites nós nos reunimos na rua tal, número tal, e o próprio demônio convém em presidir nossas oficinas. Venha o senhor numa noite comigo. Ficaremos na porta da sala, e o Sr. fará o sinal da cruz sobre a assembléia. Assim eu poderei verificar se o que disse é verdadeiro.”

“-Tenho uma fé absoluta na virtude do sinal da cruz – respondeu o Pe. Jandel – mas não posso aceitar sua proposta sem ter meditado serenamente sobre ela. Dê-me três dias para refletir.”
“-Quando o Sr. Quiser provar sua fé estarei a suas ordens – respondeu o maçom -. E deu o nome e endereço completos ao dominicano.”


O Pe. Jandel se entrevistou imediatamente com o Mons. De Bonald e lhe perguntou se deveria aceitar o desafio em nome da Cruz. O arcebispo convocou vários teólogos e discutiu com eles durante bastante tempo os prós e os contras desta decisão. Todos concluíram de acordo em que o Pe. Jandel deveria aceitar.


“Ide, filho meu – disse Monsenhor De Bonald ao reverendo Jandel, abençoando-o -. E que o Senhor vá convosco.”


Quarenta e oito horas restavam ao padre Jandel para a prova, e as passou orando, mortificando-se e recomendando-se às orações de seus amigos. Ao cair da tarde do dia designado, estava batendo à porta do maçom. Este o esperava. Nada podia revelar no Padre um religioso. Estava vestido com um traje secular; só trazia, oculta entre suas roupas, uma grande cruz.


Saíram e em pouco tempo chegaram a seu destino: uma vasta sala luxuosamente mobiliada. Detiveram-se à porta. Pouco a pouco a habitação se foi enchendo de gente; todos os assentos iam ser ocupados, quando apareceu o demônio, em forma humana. Então Pe. Jandel, tirando do peito a cruz que levava oculta, a ergueu com as duas mãos formando sobre a concorrência o sinal da cruz.


Um raio que tivesse caído dentro do aposento não teria sido mais inesperado, mais súbito, mais cegante. As velas se apagaram, os assentos se voltaram uns sobre os outros, os presentes fugiram. O maçom conduziu o padre e quando já estavam longe, sem ter percebido de que modo escaparam às trevas e à confusão, o maçom se deixou cair de joelhos diante do dominicano.


“-Creio! – lhe disse, creio! Rogue por mim! Converta-me! Escute-me em confissão!”


Tal é o fato, conforme foi referido em vários órgãos da imprensa religiosa.

E ainda podemos oferecer um outro exemplo.

“Um oficial francês, jovem, recém afiliado à maçonaria, ia pronunciar seus últimos juramentos e receber a última iniciação numa trans-loja. Os irmãos se haviam reunido para a lúgubre cerimônia quando, de improviso, apareceu entre eles um demônio sob forma humana, em que pese as portas e janelas estarem cuidadosamente fechadas.”

“Diante desta visão o oficial se sobressaltou e pensou: ‘Visto que o diabo existe, então também existe Deus!’ O pensamento da justiça divina se apresentou ao mesmo tempo diante de seu espírito aterrado e ele não se atreveu a ir mais além; a misericórdia infinita de Deus o esperou até este momento e a graça tocou seu coração.”

“Após sua conversão, deixou o Exército e entrou no noviciado de uma Ordem religiosa. Ordenado sacerdote consagrou longos anos aos trabalhos das missões estrangeiras. Voltou à França e foi superior de uma comunidade durante algum tempo. Ao tempo em que foi escrito isto ainda vivia, e o fato a que se refere este relato foi narrado por ele mesmo ao Padre Jourdan de la Pasardiére, Superior dos Oratorianos de São Phelippe Néri.”

Não queremos multiplicar as histórias deste gênero. Não seria senão uma continuação da história da magia negra que se repete em todos os séculos, embora suas formas sejam distintas conforme os tempos.

A maçonaria é herdeira direta das antigas superstições diabólicas, assim como da demonologia do antigo paganismo.

Neste sentido, compreendemos as palavras do Presidente ao iniciante do último grau, o trinta e três: “Antes de revelar-te o ‘segredo supremo’ que faz ‘nossa força’ e torna eterna a maçonaria (pois Satanás não morre jamais) hei de rogar-te, irmão, que nunca te afastes dos princípios essenciais sobre os quais descansa toda a organização maçônica. O primeiro princípio é que ‘o poder vem de baixo.’”(P. Rosen: “Satanás”, pág. 278)

Jesus Cristo ensina o contrário ao dizer a Pilatos: “De nada te serviria teu poder sobre mim, se não te fosse dado do alto.” http://www.istoecatolico.com.br/

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Nossa Senhora: privilégios reais.


Extraído da Revista Catolicismo
Um dos temas que mais atrai a ira dos protestantes é a devoção devida a Nossa Senhora. Incompreensões e calúnias de todo gênero circulam a esse propósito.

Discutindo com protestantes, acabei constatando que, na raiz dessa posição, está sempre presente o orgulho. E este vício manifesta-se num ponto fundamental: o igualitarismo. Para uma pessoa orgulhosa, tudo aquilo que o outro possui, e ele não, é considerado um rebaixamento. Segundo tal mentalidade, para se evitar isso dever-se-iam suprimir todas as desigualdades. Aceitar-se-ia, quando muito, Deus como único ser diferente, mas nada de santos e criaturas privilegiadas.

Essa é uma mentalidade anti-católica. Para uma pessoa de mentalidade católica, o fato de outro possuir algo que ela não tem não representa uma afronta, não constitui uma agressão. Mas, pelo contrário, sentimo-nos felizes reconhecendo e amando a hierarquia estabelecida por Deus.

Arquitetonia da criação

Isto dito, compreende-se que um católico, quanto mais conheça privilégios de Nossa Senhora, sinta-se especialmente comprazido. E realmente Deus Nosso Senhor A cumulou com uma série de privilégios altíssimos. O que é perfeitamente arquitetônico no plano da criação.

O primeiro privilégio, do qual decorrem muitos outros, é a Imaculada Conceição, mediante a qual Nossa Senhora foi preservada do pecado original. Convinha que a Mãe de Deus fosse isenta de qualquer mancha de pecado.

Desse privilégio decorre a ausência da inclinação para praticar o mal. A Mãe de Deus não experimentava nenhuma das más inclinações que podem levar ao pecado, e, graças à sua fidelidade, não cometeu jamais a mínima imperfeição.

Igualmente — e este é o terceiro privilégio — Nossa Senhora teve um parto miraculoso e sem dor. Quando Adão e Eva pecaram, Deus disse a Eva: “Darás à luz com dor os filhos” (Gen 3,16). Sendo Nossa Senhora isenta do pecado original, compreende-se que o parto d´Ela não pagasse tributo à dor. O que é explicável, pois não convinha que a vinda do Salvador — alegria do Universo — ocorresse em meio à dor, mas sim numa atmosfera de júbilo.

Um quarto privilégio foi sua santa morte. A morte é fruto do pecado original. Disse Deus a Adão: “Tu és pó e em pó te hás de tornar” (Gen 3,19). Como a Virgem Santíssima foi concebida sem pecado original, não havia razão para Ela morrer. Poderia ir diretamente para o Céu, sem passar pela morte. Entretanto, Nossa Senhora desejou não ficar isenta dessa provação, pela qual até seu Divino Filho tinha passado. Por isso faleceu, mas de morte tão suave que, na linguagem católica, fala-se em Dormição da Beatíssima Virgem Maria. Sua morte não foi causada por doença ou velhice. Dominava-a tal amor de Deus, que Ela morreu mais propriamente devido a esse amor.

Um quinto privilégio: Seu corpo não se corrompeu no túmulo. A perda da vida acarreta a destruição da matéria, mas no caso d´Ela a morte não teve poder sobre a matéria. Nada se alterou, nada se perdeu. Por isso sua morte é comparada ao sono, à Dormição.

Obra-prima da criação

Um sexto privilégio é a plenitude das graças recebidas. Deus é grandioso, generoso, porquanto cria sem nenhuma necessidade de criar, fazendo-o porque assim o quer. E, ao criar, Deus decidiu que ao menos uma mera criatura recebesse tudo o que é possível a um ente criado receber. Assim, recebeu Ela já no primeiro instante de seu ser todas as graças possíveis.

Então manifesta-se um sétimo privilégio. Em tese, seria possível Ela a receber e rejeitar. Mas Nossa Senhora foi inteiramente fiel à graça, que A preservou de toda imperfeição.

Um oitavo privilégio foi a maternidade divina. Deus é a Sabedoria, e tudo o que faz decorre de uma razão altíssima. Qual seria o sentido de existir uma criatura a mais perfeita possível, isenta do pecado original e cheia de graça, e não lhe tocar uma vocação superior? Seria como uma obra de arte que não fosse exposta ao público e permanecesse fechada num cofre. Nossa Senhora é a obra-prima da criação, sendo lógico, portanto, que recebesse uma vocação proporcional à sua especialíssima situação. E que vocação pode haver mais alta do que a de ser Mãe de Deus?

Maternidade e virgindade

Tratemos de um nono privilégio. Deus quis que sua Mãe fosse Virgem. Por quê? Não é regra comum da vida que maternidade e virgindade sejam incompatíveis? A virgindade não é apenas algo físico, mas corresponde também a um estado de alma. Quis Deus que as mães votem um amor especial, do ponto de vista natural, pelos seres que geraram. Mas para Nossa Senhora Ele almejava mais. Ela devia ser dotada de todo o amor possível de Mãe, mas concomitantemente, de todo desapego das coisas do mundo que a virgindade produz nas almas. E Nossa Senhora, a mais perfeita das mães, devia ter alma de Virgem, a fim de fazer o mais perfeito sacrifício possível e praticar o supremo desapego: entregar seu próprio Filho para ser imolado, com vistas a redimir nossos pecados.

Um décimo privilégio de Nossa Senhora: sua Assunção aos céus, em corpo e alma. Compreende-se igualmente que, segundo o plano divino, um ser tão perfeito deveria receber um prêmio perfeito. Em contraste com os outros seres mortais, Ela está no Céu em corpo e alma.

Dispensadora das graças

Tendo-a chamado a Si, de forma tão privilegiada, compreende-se que Deus A tenha coroado como Rainha do Céu e da Terra. Este é o décimo-primeiro privilégio.

Finalmente, o décimo-segundo: a onipotência que Jesus Cristo lhe concedeu, estabelecendo-a como dispensadora de todas as graças. Tal privilégio, altíssimo sem dúvida alguma, é também um extraordinário prêmio para todos nós. Afinal, quem se beneficia dele? Nossa Senhora recebe todas as graças para as distribuir aos outros. Ela é a dispensadora, Aquela que entrega.

Voltamos ao início do artigo. Poderia alguém, com espírito de fé, lamentar tais privilégios? Posso eu sentir-me diminuído pelo fato de ser Ela a dispensadora de todas as graças? Como não ficar jubiloso ao saber que tão perfeita Mãe dispõe do poder de espargir entre seus filhos as graças divinas? Peçamos então o poderoso auxílio d’Ela. E rezemos pela conversão daqueles a quem o orgulho cega, não querendo entender a beleza de uma Mãe tão cheia de privilégios, que a todos eleva.

terça-feira, 22 de junho de 2010

A devoção reparadora dos cinco primeiros sábados do mês


A devoção reparadora dos cinco primeiros sábados do mês

Padre Fabrice Delestre

Preâmbulo http://www.capela.org.br/Artigos/convidados/delestre1.htm

Os dois pedidos de 13 de julho de 1917.

A 13 de junho de 1917, a Santíssima Virgem disse à Lúcia: “Jesus quer estabelecer no mundo a devoção do meu Imaculado Coração”. Depois os três pastorzinhos viram Nossa Senhora tendo em sua mão direita um coração cercado de espinhos. Compreenderam que era o Coração Imaculado de Maria, ultrajado pelos pecados da humanidade, que pedia reparação.

No dia 13 de julho, a rainha do céu repetiu as mesmas palavras e as esclareceu fazendo dois pedidos concretos e precisos: “Se fizerem o que vou vos dizer, muitas almas serão salvas e haverá paz. [...] Voltarei para pedir a consagração da Rússia ao meu Coração Imaculado e a devoção reparadora dos primeiros sábados (do mês).”

De fato, Nossa Senhora realizou perfeitamente sua promessa:

- Ela veio pedir expressamente a consagração da Rússia à irmã Lúcia, em Tuy, na Espanha, em 13 de junho de 1929:

É chegado o momento em que Deus pede para o Santo Padre fazer, em união com todos os bispos do mundo, a consagração da Rússia a meu Imaculado Coração, prometendo salvá-la por este meio. São tantas as almas que a Justiça de Deus condena pelos pecados contra mim cometidos, que venho pedir reparação: sacrifica-te por esta intenção e ora.

- Quanto à devoção reparadora dos primeiros sábados do mês, Nossa Senhora veio explicar à Lúcia, no dia 10 de dezembro de 1925, em Pontevedra na Espanha, onde a vidente era jovem postulante à vida religiosa, nas irmãs dorotéias. Em dezembro de 1927, irmã Lúcia, por ordem de seu confessor, escreveu um relatório dessa aparição, mas por humildade, escreveu este texto na terceira pessoa:

Dia 10 de dezembro de 1925, apareceu-lhe a Santíssima Virgem e, ao lado, suspenso em uma nuvem luminosa, um Menino. A Santíssima Virgem pondo-lhe no ombro a mão, mostrou-lhe ao mesmo tempo um coração que tinha na outra mão, cercado de espinhos. Ao mesmo tempo disse o Menino: “Tem pena do Coração de tua Santíssima Mãe que está coberto de espinhos, que os homens ingratos a todos os momentos Lhe cravam, sem haver quem faça um ato de reparação para os tirar”. Em seguida, disse a Santíssima Virgem: Olha, minha filha, o Meu Coração cercado de espinhos, que os homens ingratos a todos os momentos Me cravam com blasfêmias e ingratidões. Tu, ao menos, vê de Me consolar, e dize que todos aqueles que durante cinco meses, no primeiro sábado, se confessarem, recebendo a Sagrada Comunhão, rezarem um Terço, e Me fizerem quinze minutos de companhia, meditando nos quinze mistérios do Rosário, com o fim de me desagravar, Eu prometo assistir-lhes, na hora da morte com todas as graças necessárias para a salvação dessas almas.”

Notemos que se o ato de consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria depende diretamente da boa vontade da autoridade hierárquica da Igreja (papa e bispos), a devoção reparadora dos primeiros sábados do mês foi pedida a todos os católicos. Desta prática depende a salvação de muitas almas e mesmo a paz do mundo. Daí a importância de todo aquele que é batizado, saber exatamente em que ela consiste.

Mas antes, vejamos como a divina Providência preparou as almas para receber esta devoção.

Premissas de uma devoção

Nossa Senhora, quando pediu à irmã Lúcia, em 10 de dezembro de 1925, em Pontevedra, a prática da devoção reparadora dos cinco primeiros sábados do mês, não estava inovando: este pedido celeste aparece como o apogeu de um movimento de piedade nascido muito tempo antes e encorajado pela Santa Sé desde de 1889.

Sábado, dia consagrado especialmente à Santíssima Virgem

Esta tradição imemorável data, com toda certeza, dos primeiros séculos da Igreja: a presença da Missa de Nossa Senhora nos Sábados,[1] no missal romano de São Pio V, de 1570, mostra a antigüidade desta prática que consiste em honrar especialmente a Santa Mãe de Deus nesse dia da semana, depois de ter consagrado o dia da sexta feira para comemorar a paixão de Nosso Senhor e os sofrimentos de seu Sagrado Coração.

Foi apoiando-se nesta piedosa tradição que os membros das Confrarias do Rosário habituaram-se a consagrar especialmente à Nossa Senhora, quinze sábados consecutivos de cada ano litúrgico: durante esses quinze sábados, eles se aproximavam dos sacramentos e cumpriam exercícios de piedade particulares em honra dos quinze mistérios do santo rosário. Em 1889, o papa Leão XIII concedeu a todos os fiéis uma indulgência plenária a ser ganha durante um desses quinze sábados.

O primeiro sábado do mês

Foi com o grande papa São Pio X que a devoção dos primeiros sábados do mês foi aprovada e encorajada por Roma.. Em 10 de julho de 1905, ele indulgenciou pela primeira vez esta devoção:

“Todos os fiéis que, no primeiro sábado ou primeiro domingo de doze meses consecutivos, consagrarem algum tempo com a oração vocal ou mental em honra da Virgem Imaculada em sua Conceição ganham, cada um desses dias, uma indulgência plenária. – Condições: confissão, comunhão e oração nas intenções do soberano pontífice”.

A devoção reparadora dos primeiros sábados do mês.

Em 13 de junho de 1912, São Pio X concedia novas indulgências à devoção dos primeiros sábados do mês, insistindo muito na intenção reparadora com a qual esta devoção devia ser praticada:

“A fim de promover a devoção dos fiéis para a gloriosa e imaculada Mãe de Deus, e para favorecer o piedoso desejo de reparação dos fiéis (et ad fovendum pium reparationis desiderium) diante das blasfêmias execráveis proferidas contra o seu augusto nome e as celestes prerrogativas desta mesma bem-aventurada Virgem, Pio X, papa pela divina Providência, dignou-se conceder uma indulgência plenária, aplicável às almas dos defuntos, no primeiro sábado de cada mês, por todos aqueles que, nesse dia, se confessarem, comungarem, cumprirem exercícios particulares de devoção em honra da bem-aventurada Virgem Maria, em espírito de reparação como indicado acima (in spiritu reparationis, ut supra) e rezarem nas intenções do soberano pontífice.[2]

Notemos a providencial coincidência das datas: 13 de junho de 1912, são cinco anos, dia por dia antes da segunda aparição de Nossa Senhora em Fátima, durante a qual os três pastorinhos testemunharam a primeira grande manifestação do Imaculado Coração de Maria vendo-o “cercado de espinhos que pareciam enterrados nele”. “Compreendemos, escreveu Lúcia sobre isto em 1941, na sua quarta Memória, que era o Imaculado Coração de Maria ultrajado pelos pecados da humanidade que queria reparação”.

Os termos empregados por São Pio X anunciam quase exatamente os termos do pedido de Nossa Senhora em Pontevedra, em 1925: nos dois casos, é sublinhada a extrêma importância da intenção reparadora, única capaz de afastar e apaziguar a cólera de Deus.

Em Fátima e em Pontevedra, Nossa Senhora não é, pois, inovadora: ela veio dar a ratificação do Céu e um novo impulso a um movimento de piedade mariano enraizado na mais pura tradição católica, para encorajar a todos nós, a participarmos dele.

A intenção reparadora, chave desta devoção.

Respondamos, primeiramente, a uma objeção que muitas vezes escutamos da parte de pessoas pouco esclarecidas no domínio da fé. Essas pessoas contestam esta devoção afirmando que ela se opõe à perseverança na vida cristã: com efeito, dizem, bastaria praticar uma só vez na vida a devoção reparadora para ter assegurado sua salvação eterna; depois, as almas poderiam fazer o que quisessem, deixar a prática religiosa e cair nos piores pecados, pois estariam de qualquer maneira salvos para a eternidade! É fácil refutar esta objeção: uma alma que cumprir a devoção reparadora com tal espírito não obteria a graça da perseverança final, ligada por Nossa Senhora a esta prática, já que ela não a faria com reta intenção (condição indispensável a todos nossos atos religiosos e de devoção, para receber as bênçãos e graças de Deus) nem com o cuidado de reparar e consolar o Coração de Maria! Tal prática equivaleria, ao contrário, em abusar gravemente da misericórdia de Deus, utilizando a promessa da salvação eterna feita por Nossa Senhora para legitimar todos os pecados que fossem cometidos em seguida; isto é o pecado de presunção de sua salvação que é um dos sete pecados contra o Espírito Santo!

Reparar pelos pecadores.

As almas que querem praticar a devoção dos primeiros sábados do mês conforme a vontade do Céu, devem fazê-la na intenção geral de reparar e consolar Nossa Senhora, em substituição dos pobres pecadores que ultrajam e blasfemam contra ela: trata-se, por caridade fraterna, de “implorar o perdão e a misericórdia em favor das almas que blasfemam contra Nossa Senhora porque, a essas almas, a misericórdia divina não perdoa sem reparação”.[3] Foi isso que afirmou Nosso Senhor a Lúcia em 29 de maio de 1930, depois de ter revelado as cinco espécies de ofensas e de blasfêmias que se trata de reparar (infra):

“Eis, minha filha, porque motivo o Imaculado Coração de Maria me inspirou para pedir esta pequena reparação e em consideração a ela, comover minha misericórdia para perdoar às almas que tiveram a infelicidade de ofendê-lo. Quanto a ti, procure sem cessar, por tuas orações e teus sacrifícios, comover minha misericórdia em relação às pobres almas.”

Esta intenção reparadora, movida pela caridade fraterna, deveria nos dar um grande zelo para cumprir a devoção dos primeiros sábados não apenas cinco vezes em nossa vida, para assegurar a salvação pessoal, mas cada primeiro sábado, a fim de permitir a salvação eterna do maior número possível de pecadores. Porque aí está um dos grandes objetivos da devoção reparadora ao Imaculado Coração de Maria: “salvar almas, muitas almas, todas as almas”. [4]

Ora, o conjunto de acontecimentos sobrenaturais de Fátima, Pontevedra e Tuy nos mostra claramente e repetidas vezes, que são muitas as almas condenadas à eternidade:

- A 13 de julho de 1917, os três pastorinhos têm a visão do inferno, que está longe de ser um lugar vazio:

Nossa Senhora mostrou-nos um grande mar de fogo [...]. Mergulhado nesse fogo, os demônios e as almas [...] almas flutuavam no incêndio, levadas pelas chamas, que delas mesmas saíam, com nuvens de fumo caindo para todos os lados, semelhante ao cair das fagulhas nos grandes incêndios, sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e de desespero que horroriza e fazia estremecer de pavor. [5]

- A 19 de agosto de 1917, no fim da aparição, Nossa Senhora diz aos três videntes:

Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios pelos pecadores; que vão muitas almas para o inferno por não haver quem se sacrifique e peça por elas. [6]

- A 13 de junho de 1929, na aparição de Tuy, Nossa Senhora concluiu a teofania trinitária com a qual Lúcia foi gratificada, por essas terríveis e surpreendentes palavras:

São tantas as almas que a Justiça de Deus condena por pecados contra mim cometidos que venho pedir reparação. Sacrifica-te por esta intenção e reza.

Irmã Lúcia sempre afirmou que o número de almas danadas era muito grande. Ela conclui assim sua carta para um jovem, tentado a abandonar o seminário: “Não se surpreenda se falo tanto do inferno. Esta é uma verdade que é necessária lembrar muito nos tempos presentes, porque é esquecida: é um turbilhão de almas que caem no inferno. Então, o senhor não acha que são bem empregados todos os sacrifícios que é preciso fazer para não ir para lá e para impedir que muitos outros caiam lá?”. [7] E ao Padre Lombardi que, em outubro de 1953, a interrogou sobre o inferno, ela respondeu: “Padre, numerosos são aqueles que são condenados.[...] Padre, muitos, muitos se perderão.”

Obter a conversão de um pecador

É também louvável e frutífero praticar esta devoção para obter a conversão desse ou daquele grande pecador de nossas relações. A carta da irmã Lúcia ao bispo titular de Gurza, de 27 de maio de 1943, já citada, esclarece muito bem sobre o poder e eficácia sobrenatural da devoção aos Santíssimos Corações de Jesus e Maria:

“Os Santíssimos corações de Jesus e Maria amam e desejam este culto [para com o Coração de Maria] porque dele se servem para atrair todas as almas a eles e isto é tudo o que desejam: salvar as almas, muitas almas, todas as almas”. Nosso Senhor me dizia, há alguns dias: “Desejo ardentemente a propagação do culto e da devoção ao Coração de Maria porque este Coração é o ímã que atrai as almas para mim, a fornalha que irradia na terra os raios de minha luz e de meu amor, fonte inesgotável de onde brota na terra a água viva de minha misericórdia”.

Pondo toda sua confiança no Imaculado Coração de Maria, muitos católicos portugueses praticaram a devoção reparadora dos cinco primeiros sábados em favor de um próximo, grande pecador e bem afastado da vida cristã. Entre outros, este belo testemunho de uma senhora de Guimarães (norte de Portugal), publicado no boletim de agosto de 2001 da Cruzada Eucarística das crianças de Portugal: esta mulher conta que ela tinha um irmão repatriado de Moçambique, que era um revoltado e um blasfemador. Tinha abandonado a esposa legítima para viver com outra mulher, da qual tinha dois filhos. Para obter do Imaculado Coração de Maria a sua conversão, sua irmã fez por ele e em seu lugar, a devoção dos cinco primeiros sábados do mês:

“No começo de agosto de 1981, meu irmão estava muito mal. Quando lhe perguntaram se queria ver um padre, proferiu blasfêmias contra os padres. Como a doença se agravava, deu entrada em um hospital de Braga. Os outros doentes diziam que ele não tinha um momento de repouso, nem de dia, nem de noite e que não deixava ninguém em paz. Para grande estupefação de todos, em 18 de agosto de 1981, pediu várias vezes um padre. Dois padres vieram administrar os últimos sacramentos. Imediatamente depois que eles saíram inclinou a cabeça para o lado e morreu. Sem dúvida, foi o Coração Imaculado de Maria que salvou meu pobre irmão, que fora tão pecador. Não queria olhar para ele depois de morto, temendo ver seu rosto deformado como o tinha durante sua doença. Mas não pude resistir e me aproximei durante a missa, que teve lugar na capela do hospital. Ele não parecia o mesmo homem! Estava tão bonito, sorridente. Parecia que sua amargura se transformara em alegria”.

O que é preciso fazer

Uma alma cristã que deseje realizar perfeitamente a devoção reparadora dos primeiros sábados do mês deve fazer, durante cinco primeiros sábados consecutivos, na intenção geral de reparar seus próprios pecados e os de toda a humanidade, junto ao Coração Imaculado de Maria, quatro atos diferentes de piedade:

1 - A confissão, que pode ser antecipada, até mesmo mais de oito dias, se for impossível ou muito difícil se confessar no primeiro sábado. O mais importante é ter a intenção, se confessando, de reparar o Coração Imaculado de Maria. (É preciso também, naturalmente, estar em estado de graça no primeiro sábado do mês a fim de fazer uma boa e frutífera comunhão.) A intenção reparadora deve ser dita ao confessor? Irmã Lúcia nunca mencionou se é preciso dizer alguma coisa ao padre. Uma formulação interior, puramente mental, é suficiente. Nosso Senhor até mesmo acrescentou que aqueles que esquecessem de formular a intenção reparadora “poderão formulá-la na confissão seguinte, aproveitando a primeira ocasião que tiverem para se confessar.” [8]

2 – Recitação do terço: Nossa Senhora, em Fátima, insistiu muito na recitação quotidiana do terço. Foi esse o único pedido que ela repetiu para as crianças em todas as seis aparições, de 13 de maio a 13 de outubro de 1917: nesse dia revelou aos pastorinhos sua identidade: “Sou Nossa Senhora do Rosário”. Não é, pois, de espantar que a recitação do rosário seja encontrada na devoção reparadora dos primeiros sábados . Além disso, como não existe oração vocal mais mariana do que o terço, convém que este seja integrado a essa devoção já que se trata de reparar as ofensas feitas à Nossa Senhora e a seu Coração Imaculado.

3 – Os 15 minutos de meditação sobre os 15 mistérios do rosário: Trata-se de “fazer companhia a Nossa Senhora durante15 minutos, meditando sobre os 15 mistérios do rosário, em espírito de reparação”. Isto não quer dizer que se deva meditar todo primeiro sábado sobre os 15 mistérios em sua totalidade, passando um minuto em cada mistério. Ao contrário, cada alma está livre para organizar seu quarto de hora de meditação como entender, desde que o objeto da meditação seja os mistérios do rosário. Algumas almas preferirão meditar o mesmo mistério durante vários primeiros sábados, outras um mistério diferente cada primeiro sábado, outras ainda três mistérios cada primeiro sábado (cinco minutos por mistério), etc. Sendo as almas diferentes umas das outras, é normal que tenham gostos e necessidades espirituais diferentes; é por isso que a Igreja sempre teve o cuidado de deixar aos fiéis uma grande amplidão para cada um organizar sua vida espiritual.

4 – A comunhão, que é o ato essencial da devoção reparadora. Para compreender bem toda sua importância, convém colocá-la em paralelo com a comunhão das nove primeiras sextas-feiras do mês, pedidas pelo Sagrado Coração em Paray-le-Monial e com a comunhão milagrosa dos três pastorinhos de Fátima, no outono de 1916: o Anjo da Guarda de Portugal deu então a esta comunhão um espírito eminentemente reparador, repetindo seis vezes com as crianças (três vezes antes da comunhão e três vezes depois) as palavras que são chamadas a segunda oração do Anjo:

“Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, eu vos adoro profundamente e vos ofereço o preciosíssimo Corpo, Sangue Alma e Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os sacrários da terra, em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que ele mesmo é ofendido; e pelos méritos infinitos de seu Sacratíssimo Coração e do Imaculado Coração de Maria, peço-vos a conversão dos pobres pecadores.”

No contexto da atual crise da Igreja é certo que esta intenção reparadora toma uma nova dimensão: quantas irreverências, sacrilégios são causadas pela reforma litúrgica de Paulo VI: não apenas pela comunhão dada na mão, como também distribuída a todos os assistentes sem nunca lembrar a necessidade do estado de graça; pela supressão das marcas de adoração ao Santíssimo Sacramento, etc. Hoje, a comunhão dos primeiros sábados deve ser feita para reparar todas essas profanações.

Um último ponto importante: a prática da devoção reparadora em seu conjunto “será aceita no domingo que segue o primeiro sábado, quando meus padres, por motivos justos, o permitirem às almas.” [9] É pois, aos padres, e não à consciência individual de cada um, que Jesus confia o cuidado de conceder esta facilidade suplementar, tão misericordiosa. Por essa concessão, talvez Nosso Senhor fizesse alusão a estes tempos em que estamos, onde não é sempre fácil aos fiéis assistir à verdadeira missa no sábado. Em todo caso, esta disposição torna mais fácil a prática da comunhão reparadora para os católicos fiéis de hoje.

Disposições requeridas

É muito simples praticar a devoção reparadora dos primeiros sábados do mês. Está ao alcance de toda alma que põe um mínimo de generosidade na base de sua vida cristã, ainda mais que o Céu deu uma grande amplidão para a confissão e a comunhão. Infelizmente, muitas vezes, a ignorância, a moleza espiritual e a negligência se conjugam para afastar as almas, mesmo as mais fiéis, desta prática que, no entanto, é tão salutar, já que Nossa Senhora a ligou à perseverança final e à salvação eterna: “Prometo assisti-las na hora da morte com todas as graças necessárias à sua salvação.” [10]

A desproporção entre a pequena devoção pedida (os primeiros sábados de cinco meses consecutivos, uma só vez na vida!) e a graça prometida (a salvação eterna de sua alma) ilustra de maneira estrondosa o grande poder de intercessão concedido à Virgem Maria para a salvação de nossas almas: Nossa Senhora é verdadeiramente, em virtude de sua maternidade divina, nossa advogada e nossa medianeira junto ao coração de Deus. Padre Alonso, claretiano espanhol que foi o grande especialista de Fátima até sua morte em 1982, escreveu sobre este assunto:

“A grande promessa [da salvação eterna] não é nada mais do que uma nova manifestação deste amor de complacência da Santíssima Trindade para com a Virgem Maria. Para aquele que compreende isto é fácil admitir que a humildes práticas estejam ligadas maravilhosas promessas. Ele se entrega então filialmente à elas com um coração simples e confiante na Virgem Maria.” [11]

Em algumas linhas o Padre Alonso nos desvenda algumas boas disposições necessárias para fazer bem esta devoção:

- uma grande simplicidade e humildade de coração;

- uma devoção marial inteiramente filial e cheia de confiança.

O Menino Jesus, aparecendo à irmã Lúcia em 15 de fevereiro de 1926, nos dá a terceira disposição necessária:

- um fervor profundo.

Com efeito, nesse dia, irmã Lúcia dirigiu estas palavras ao Menino Jesus:

“Mas meu confessor dizia em sua carta que esta devoção não fazia falta ao mundo porque já havia muitas almas que vos recebia todo primeiro sábado, em honra de Nossa Senhora e dos quinze mistérios do rosário”.

O Menino Jesus lhe respondeu:

“É verdade, minha filha, que muitas almas começam, mas poucas vão até o fim; e aquelas que perseveram, não fazem para receber as graças que estão prometidas. As almas que fazem os cinco primeiros sábados com fervor e com o fim de reparar o Coração de tua Mãe do Céu me agradam mais do que aquelas que fazem quinze, sem ardor e indiferentes”.

Para falar agora da quarta disposição requerida para esta prática é preciso lembrar que o Céu nos pede cinco primeiros sábados de cinco meses consecutivos, e não nove, doze ou quinze. Porque este número? Lúcia perguntou a Nosso Senhor durante uma Hora Santa, em 29 de maio de 1930, em Tuy, e lhe foi respondido:

“Minha filha, o motivo é simples. Há cinco espécies de ofensas e de blasfêmias proferidas contra o Coração Imaculado de Maria:

1 – as blasfêmias contra a imaculada conceição da Virgem Maria;

2 – as blasfêmias contra sua virgindade;

3 – as blasfêmias contra sua maternidade divina, recusando ao mesmo tempo reconhecê-la como mãe dos homens;

4 – as blasfêmias daqueles que procuram publicamente por no coração das crianças a indiferença ou o desprezo, ou mesmo o ódio em relação a esta Mãe imaculada;

5 – as ofensas dos que a ultrajem diretamente nas suas santas imagens.

Ai está, minha filha, o motivo pelo qual o Coração Imaculado de Maria me inspirou para pedir esta pequena reparação”.

Como, hoje em dia, não pensar nos ataques à dignidade, aos privilégios, às honras devidas à Virgem Maria, perpetradas pelos próprios homens da Igreja? Lembremos o que se passou no concilio Vaticano II, onde, longe de definir a mediação universal e a corredenção de Nossa Senhora, como muitos pediam, os bispos progressistas conseguiram fazer rejeitar o esquema sobre a Virgem Maria para pô-lo como simples anexo no esquema sobre a Igreja e isto para agradar aos protestantes; triste concílio, onde nem mesmo um só texto cita o terço como devoção a ser encorajado junto aos fiéis. Seguiu-se uma diminuição considerável do culto mariano em toda a Igreja. A impiedade da nova religião para com Nossa Senhora é certamente para ser incluída na intenção reparadora daqueles que praticam a devoção dos primeiros sábados.

Notemos que as três primeiras espécies de blasfêmias que se trata de reparar vão contra três dogmas de fé definidos. Pode-se então acrescentar uma quarta disposição às três já citadas:

- convém fazer esta devoção reparadora com espírito de fé e para pedir a Nossa Senhora a insigne graça de conservar a verdadeira fé católica em nossas almas, até a hora da nossa morte, no meio da apostasia geral do mundo que nos cerca, nutrido por utopias malsãs, de revoltas e de impiedade.



Tomemos a peito reparar a honra de Nossa Senhora, tão ultrajada pela ingratidão dos homens e para isso utilizemos a devoção que ela mesmo veio nos indicar, pedindo-lhe com insistência e perseverança as boas disposições de alma para bem praticá-la.

Revista Le Sel de la Terre, nº 53

Nota: Nas nossas capelas, a missa do 1º Sábado do mês é celebrada:

- 7:30 da manhã, na Capela São Miguel - Rio de Janeiro

- 18:30 na Capela Nossa Senhora da Conceição - Niterói



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[1] De Beata Maria Virgine in sabbato.

[2] - AAS, t. 4, 1912, p 623.

[3] Carta de irmã Lúcia de 31 de março de 1929.

[4] Carta de irmã Lúcia em 27 de maio de 1943 ao bispo titular de Gurza

[5] Terceira Memória de irmã Lúcia, 31 de agosto de 1941

[6] Quarta memória, 8 de dezembro de 1941.

[7] Citado por A. M. MARTINS, Cartas da Irmã Lúcia, Porto. 1979, p.122.

[8] - Aparição de Nosso Senhor a irmã Lúcia em 15 de fevereiro de 1926

[9] - Aparição de Nosso Senhora a irmã Lúcia , na noite de 29 para 30 de maio de 1930.

[10] - De Nossa Senhora à irmã Lúcia em 10 de dezembro de 1925.

[11] - Padre Joaquim Maria ALONSO, La gran promesa Del corazon de Maria en Potevedra, Madri, Centro Mariano, 1977, p.45.

sábado, 19 de junho de 2010

A Missa.


A Missa não é somente a Comunhão

A Missa

Faltam luzes acerca da missa, a não raro a educação sobre esse mistério de amor é incompleta. Compreender o mistério de fé do altar é mercê altíssima. Que regozijo, ainda que em penumbra!

Deve-se basear a piedade na doutrina; caso contrário, é piedade sentimental, piedade de poeta. Não são as flores o essencial, mas o altar. Quando não há altar, onde pondes as flores? Se não há um fundo de doutrina, sobre que apoiareis a piedade?...

Veni, Sancte Spiritus. Venha o Paráclito com suas luzes! Glória ao Pai, pelos incomparáveis dons que nos dera! Glória ao Filho, pelo mistério da Sexta-Feira Santa! Glória ao Paráclito, que nos ensinara a erigir o altar para imolar o Cordeiro sem mancha à glória da Trindade. Per Christum Dominum nostrum, pontífice, mediador e hóstia.



Dois milagres na Missa

Conforme o plano de Deus, deve a Santa Missa realizar sempre dois milagres1:

1º a transubstanciação do pão e do vinho;
2º a transubstanciação do padre celebrante e dos fiéis na virtude da comunhão.

O primeiro milagre nunca deixa de acontecer, ainda que o padre não seja um santo; mas o segundo milhares de vezes deixa de se realizar. Entregando-se a nós sob a forma de pão e vinho, Nosso Senhor quer consumir-nos, deixando-se consumir por nós. Consumi-lo é fácil, mas nos deixar devorar à nós supõe condições que o Cristo nem sempre encontra. Quer ele fazer-nos a mim e a vós vários Jesus, mas não lho permitimos.

Contava um padre sobre os reveses de sua paróquia, onde todavia entronizara o Sagrado Coração. “Pois bem! és tu um santo? E não por isso dizes a missa todos os dias! Se a missa não conseguiu santificar-te, poderia a entronização fazer milagres?”

Pode a missa fazer em nós maravilhas, SE a vivermos. A missa deve estar sempre em primeiro plano. Em vossa vocação, tendes um como sacerdócio real para concelebrar2 a missa. Se viverdes a missa, sereis o que deveis ser.

Eis algo que aconteceu: o pequeno Luís estava rezando bem concentrado, chegando mesmo a prolongar-se na oração. Pergunta-lhe a tia: “Queres te chamar São Luís Gonzaga, ou um anjo, ou... – Não! Peço a Jesus me tornar um Jesus; peço-lhe me devorar como ele se deixa devorar!”

Não tinha mais que oito anos, esta criança. E que resposta!


A Santa Virgem e a Missa

Estudemos os três mistérios maiores da Santa Virgem, relacionados ao mistério da missa:


- Primeira cena: A anunciação... a encarnação... “Incarnatus est”.

Este é o milagre que se deve reproduzir na missa a cada manhã. A Virgem sentiu e compreendeu isto: Fiat!... Fiat, e ei-lo ali! vivo da mesma vida de Maria e como Maria.

Fiat! Ei-lo dentro de nós, vida de nossa vida, alma de nossa alma, coração de nosso coração. Dada a encarnação, vão dizer ele e Maria ao Pai: “Venha a nós o vosso reino! Bendito seja vosso nome! Seja feita a vossa vontade!”

Santos somos na virtude do cálice. Ele está em mim e eu nele. Rogai a Maria a explicação da relação entre o mistério do altar e a encarnação.


- Segunda cena: Natal e a apresentação no templo.

“Pai, Pai, diz Maria, este é vosso filho e o meu. Ele é vosso e também meu. Eu o possuo. Dou-vos para a glória vossa.” É o que se há de fazer no altar, uando ele está aí em vosso coração. Dizei ao Pai: “Posso-vos glirificar, sou grande, sou rico: a hóstia de meu coração é vosso Filho.”

Gesto singular o de Maria em Jerusalém no mistério da Apresentação! Repeti tal gesto a cada missa. Sois ricos de uma riqueza que sequer os anjos possuem. O anjo não pode celebrar; eu padre celebro; vós concelebram com o padre; participemos intimamente do sacrifício, então.


- Terceira cena: Sexta-Feira Santa

Maria aos pés da Cruz diz ao Pai: “Ele é meu e vosso; eu vô-lo ofereço. Em meio a soluços, canto vossa glória. Com minhas lágrimas e meu sangue, aceitai o Cordeiro que tira os pecados do mundo, aceitai o cálice.”

Vós, pobres criaturinhas, fazei como Maria, digam: “Sou coberto do manto real, aceitai o Cordeiro sem mancha. Sou a religiosa consagrada, Pai, queremos ele e eu glorificar-vos.”

De tão belo que é o mistério, não o compreenderíamos sem o Paráclito. Vinde, Espírito Santo, aumentai-me a fé para que veja eu o que não vejo, i. é, que veja, ainda que pouco, o que é ser padre como Maria em Jerusalém e no Calvário. Se o Espírito Santo dá-nos luz, veremos sem ver, seremos esclarecidos nas trevas da fé.

O que falta é a fé

Uma pobre criancinha camponesa, que só tinha umas poucas letras, recebeu um privilégio especial. Quando assistia a missa, ela via o que se passava no altar, via o que João e Madalena viram na Sexta-Feira Santa. Em sua cândida simplicidade, cria que todos viam o mesmo; assim, não tinha por isso qualquer vaidade.

Não dizeis: “Se fosse assim comigo!”, pois temos mais que isso: a fé. Os olhos desta criancinha pode-la-ia enganar; a fé não nos enganará: o que nos falta é a fé, e não os olhos. Teresinha jamais tivera tais visões, mas talvez visse mais. Há de se rasgar o véu com a fé e a oração. Veni, Sancte Spiritu... para abrasar-nos a fé.

Contar-vos-ei o que conto aos padres sobre esse tema. Observaram já o quadro que está aqui3; vou contar-vos algo que é a lembra perfeitamente esse quadro, mas sem ter que ver com ele. Estava celebrando a missa em uma capela comunitária, acho que uma missa fúnebre. Havia na primeira fila um “demônio” que não deveria estar ali; ele tinha a blasfêmia a figura e no gesto, com um sorriso de desdém. Grande fora a surpresa quando, chegado o momento da consagração, cai o demônio de joelhos; debate-se... ofega...: “Ah! Ah! Oh! Oh!”. Perguntavam se era “um ataque de loucura”. Terminada a missa, aquele homem interroga: “Onde está o padre que estava no altar?” Vieram dizer-me e, em poucos minutos, lá estava eu...

- Senhor, disse ele.
- Não se diz “Senhor”, e sim “padre”.
- Está bem! Padre, que fizestes no altar? É isso mesmo, que fazieis no altar?
- Celebrava a santa missa!?
- Que é a santa missa?
- Não sois católico?
- Não.
- Vossa mãezinha era católica?
- Sim.
- Bem, quando éreis criança ela vos disse que o Filho de Deus foi pregado na cruz em favor da humanidade, por mim e vós?
- Sim, ela mo dissera umas cem vezes.
- Pois bem, sabeis o que é o Calvário?
- Sim.
- Então, a missa é a mesma coisa.
- Mas, atentai que uns dez ou quinze minutos depois que chegastes, vós disaparecestes e no lugar, que beleza!... uma figura, oh! não sei como dizer... mexia os lábios, enquando o sangue caia no cálice... Oh! que maravilha! Durou uns dez minutos, depois a figura sumira e vós, vós retornastes.

Eis o que se deve enxergar a cada manhã em lugar do padre. Tomará a Santa Virgem vos ensine a orar, vos ensine a orara como ela orava na Sexta-Feira Santa, na comunhão dos sofrimentos e dores das divinas chagas. Imaginai a missa que teria celebrado Francisco de Assis, se fora padre! Infelizmente a missa é mais das vezes rotina para o padre e os fiéis.

Sabeis vós qual o grande culpado disso? Ele. Sim vós nos amastes em demasia, Jesus; vós nos destes em demasia. Se vós nos houvera dito para celebrar a missa uma vez por ano, oh! no entanto... há missa todos os dias! sim, destes-nos em demasia! Não desprezamo-la, claro, mas uma missa a mais ou a menos não nos perturba nem um pouco; antes, um milagre. Como se a missa não fosse ela um milagre. A missa é o maior e mais assombroso dos milagres! Quanto temo-la em conta? qual deferência tendes vós por ela?


Por que vi, não cri

Um figurão de Oxford, bom, honesto, mas incréu, casara-se com uma católica, mulher santa. Pouco a pouco ela lhe fala das verdades na religião. Conduziu-o a Roma junto aos jesuítas. Após dois anos de estudos e leituras, acreditou ela ele estar assaz instruído. Por ocasião de uma jornada eucarística, ela lhe pede para acompanhá-la, e ele aceita. Das quatro da manhã até às dez da noite, vão de igreja a igreja. Na volta, diz a mulher:

- Agora que viste, és ou não católico?
- As teorias do livro são muito bonitas, respondeu ele, mas a prática já não é tanto. Dizem que o Cristo está lá e o tratam daquela maneira?... Não acredito; por que vi, não acredito.

Certo dia, parei em uma igreja para rezar. Começava a missa. Escutei um como rumor de orações em voz alta. Que será?... Uma novena a Santo Antônio, depois a São Judas Tadeu, mais uma ainda a Santa Teresa: três santos que roubaram o lugar de Deus! como se a Virgem Santa e os demais santos não estivessem ali também para a missa. Fazei novenas pelas ruas, digo-vos; aqui é a missa, e para missa estão aqui. Se Teresinha e outros santos viessem para assistir a missa, que missa assistiriam!

Tenho entre as mãos um corporal vermelho sangue... que aconteceu? Uma menina mui decente se casou com um judeu que não fazia caso de religião. Eis que um dia, à mesa, falavam de Jesus Cristo presente na hóstia.

- Crês nisto de que ele está lá? disse o judeu.
- Sim, ele está lá!
- Não é forma de dizer?
- Não, ele está lá mesmo.

Então veio-lhe uma idéia para constatar se isso era verdade. Certa noite saiu e foi atè a sacristia, e disse ao sacristão: “Sou um cavalheiro, um advogado; queres me emprestar por esta noite as chaves da sacristia e do tabernáculo?” Ele as conseguiu. Às duas horas da manhã, entra na sacristia, penetra no santuário, abre o tabernáculo, estende o corporal sobre o altar, põe o cibório sobre o corporal... Estava tremendo, e respeitosamente pega uma hóstia e a observa: Era ou não verdade que o Cristo estava ali? Pega o canivete e, mais receoso ainda, parte a hóstia... Jorrou sangue... que cobriu o corporal, o altar, suas mãos. Ficou com medo, tocou os sinos a rebate. Correria, e que surpresa!

O padre é mais nobre que o anjo, o anjo não pode chamar o Cristo de meu irmão; nunca um anjo celebrou missa. Pertence o padre à família do Cristo.


Viver a Missa

Deve-se viver a missa, da missa e para a missa.

Qualquer devoção é insuficiente se a missa não for o centro de nossa vida; a missa é o altar, o resto apenas florezinhas que pomos aqui ou ali. Costumava dizer o cardeal Mercier: “Dêem-me um bom padre que viva a missa, e ei-lo um santo”. Pois bem! Daí-me uma religiosa que compreenda o cálice e a grandeza da missa; não morrerá ela boa e excelente, mas santa por canonizar. Se não se compreende o mistério do altar, se não se sabe o que o padre faz ali, limitamo-nos a nos distrair com rosários e novenas.

A única homenagem à Santíssima Trindade digna dela é a missa: Adoração, louvor, glória, amor, per Dominum nostrum Christum. Vossa missão se inicia na missa: as crianças, os pobres, os doentes viverão de vossa missa. Não começa a missão de uma religiosa no hospital ou na escola, mas no altar. A missa é a grande missão para a salvação das almas. A religiosa que sabe viver a missa é mais eloqüente que todos os predicadores. Não podeis seguir vossos filhos por todo canto, para conservá-los cristãos; mas o sangue deste Abel, que é Jesus, pode o que não podeis. Deveriam ser o cálice e a missa o dínamo das religiosas educadoras e hospitaleiras.

Meu pai era protestante, converteu-se por causa de minha mãe: ela nunca faltara à missa, apesar do muito trabalho que tinha. É preciso criar este ambiente de fé. Aqui no Canadá não existe as multidões que vemos nos outros países indo para a missa. O cálice é o maior arma do apostolado.

Durante a outra guerra [1914-1918] uma granada atingiu e feriu gravemente um diácono religioso. Recuperou-se bem aos poucos. Três anos depois, doente e sem forças, mal podendo falar ou andar, pede à sua mãe para levá-lo a Roma, para que o Papa lhe concedesse o ser padre. Disse o Santo Padre:

- Que tendes vós de especial?... Não podeis pregar nem ensinar o catecismo?
- Não, Santo Padre, mas meu cálice e meus ferimentos podem salvar as almas!
- Não podeis ir em missão, nem conferir os sacramentos?
- Santo Padre, meu Pai, por favor, pela salvação das almas.
- Sois inválido; qual a diferença entre um padre inválido ou diácono inválido?
- Oh! Santo Padre, meu querido Pai, eu imploro! por meu cálice e meus ferimentos! com o sangue dos ferimentos dentro do cálice, salvarei mais almas!

O Papa mandou um médico, um bispo jesuíta, examiná-lo para saber se esse homem ferido podia celebrar válida e decentemente uma missa, e lhe foi dada a permissão. Que apostolado! Quem me dera tivesseis o mesmo vigor apostólico! Vossos sofrimentos, penas, agonias, responsabilidades – tudo enfim no cálice para a salvação das almas. Venha a nós o vosso reino! Venha a nós o vosso reino! Santificação pessoal, santificação comunitária.

O centro do mundo é o altar; o centro do altar, o cálice; no cálice, vosso coração. A missa é a oração perfeita, é sólida, é pão saudável, e não chocolate; quando a dizemos, dizemos tudo. Tende obsessão pela missa. Se sairdes daqui cem, dez vez mais penetrados do sentido da missa, tereis feito excelente

- VII –

A Missa não é somente a Comunhão4

O reinado do Coração de Jesus supõe a claríssima noção da eucaristia e da missa. Para que venha o reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo, devemos saber o que é a missa. Existe um avanço: primeiro, usamos o missal, contudo ainda não é o bastante. Vejam bem: comecei por vos falar do santo sacrifício: missa e comunhão, e não apenas o sacramento; sacrifício e sacramento, duas coisas que não são iguais, mas se completam.

A missa é a fonte e, de tal fonte, emanam três grandes torrentes:

1º a comunhão;
2º o tabernáculo com a presença real;
3º o ostensório.
Não há torrente, se não há fonte.

Mais das vezes temos a missa como a chave que vai abrir o tabernáculo. A comunhão antes da missa5 é uma falta teológica. Vai-se à igreja para comungar e não pela missa – erro. A eucaristia é a comunhão, claro, mas a missa não é apenas a ocasião de comungar. Antes da comunhão, há o drama do Calvário, que se desenrola no altar; há a oferenda, a consagração. É o pano de fundo do sacrifício, que não é apreciado. Não existe missa sem comunhão, nem que seja apenas a do padre; mas tampouco há comunhão sem missa: são duas coisas que se completam6.


Que é a missa?

Antes de ir ao Pai, Nosso Sehor disse: Consummatum est. É a omunhão que consome, termina, coroa o sacrifício. A missa termina na comunhão – o que se segue é um pequeno acréscimo da Igreja. Quando comungais antes da missa, começais pelo final, o que é contradição. A comunhão é que é o perfeccionamento e coroação do sacrifício. Sempre pode haver exceções, mas sempre exceções.

A missa cantada junto aos anjos é o que se chama de grande prece. Conheço um jovem advogado, bom católico, que todas as manhãs, às seis e meia, comunga. Mal suspeita o que seja a missa. Comunga, depois se esconde atrás do pilar para que a missa não o distraia de sua pequena prece, pois a grande prece, repito, é a missa. Cantam os anjos, mas não quero acompanhá-los... já tenho meu flautim!... É ridículo!

Que é o sacrifício da missa? É o gesto do Cristo Deus que se entrega a seu Pai, ao Calvário e ao altar: “Pai, eis me aqui para a glória vossa; Pai, Pai, aceitai-me... eis aqui.”

Que é a comunhão? É o Cristo a nos convidar: “Meus filhinhos, meus filhinhos, está posto o banquete; agora, consumi-me e deixai-vos consumir; vinde, vinde, experimentai.” É o querido pai, o bom Deus, a nos chamar. Eis o sacramento.

Antes de nós, o Pai. O bom Deus é o primeiro: eis o sacrifício, a missa. Depois, nós, e eis a comunhão. Tudo isso para que capteis a diferença.

A missa é o Cristo da Sexta-Feira Santa, é o Deus que louva e adora conosco.

O Homem-Deus é o que expia conosco e por nós: “Pai, contemplai-me as chagas, o sangue; rogo-vos por eles, pago por eles.”

O Cristo-Deus é o que peticiona: “Pai, meu Pai, meu Deus, meus filhinhos não sabem o que dizem, não sabem dizer obrigado; mas eu vos digo: daí-lhes tudo que lhes é necessário, luz, força, graças, virtudes; são uns pobres maltrapilhos, cumulai-os.”

É tudo isto o drama do Calvário, e tudo antes da comunhão, da comunhão que perfecciona o sacrifício: adoração perfeita do Cristo covosco, expiação perfeita do Cristo covosco, ação de graças perfeita do Cristo convosco, pertição perfeita do Cristo convosco.


A Continuação do Calvário

Não se pode falar do trato divino com palavras humanas, mas com nomes perfeitos, dentro do possível. Diz-se que a missa é a renovação do sacrifício da cruz; não lhe é um acréscimo, é a mesma coisa. Substituamos renovação por prolongamento. Logo, a missa é o prolongamento do sacrifício do Calvário ao longo dos séculos – é a missa do Calvário que se prolonga, desde o Calvário até hoje de manhã.

Suponhamos que temos recebido uma benção radiodifundida do papa. Pio XII está no Vaticano, seus dois secretários estão ao seu lado. Cá estamos nós na capela. Anuncia-se: “O papa vai abençoar-nos”. De joelhos, bem entendido: “Abençôo o pe. Matéo e os que se encontram no retiro etc.” Escutamos, dizia eu, como escutavam os dois secretários a seu lado; era o prolongamento de suas palavras por todo o mundo, mas por acaso era uma renovação? A missa é a radio oficial da Igreja: só existe uma, que se prolonga ao longo dos séculos e que nos mostra o que João e Madalena testemunharam aos pés do Calvário.

Uma missa de vinte séculos!... Podem ser a radio o papa, o bispo ou o padre. Se tivesseis fé! Se a tivesseis, veríeis ao Cristo. A missa é o Calvário, mas com uma variante: no Calvário, a vítima é dolorosa; no altar, a vítima é gloriosa pois, neste momento, suas pisaduras são de glória. O altar católico é oTabor, mas coberto de uma nuvem vermelha de sangue; o altar católico também é o Calvário, Calvário glorificado dos esplendores do Tabor. Em linguagem simbólica e mística, dizem os poetas que a missa é o Natal – é mais ou menos assim: nasce a Criança um pouco menor que em Belém; Maria lhe oferece aos homens. Glória... Para outros, a missa é a Quinta-Feira Santa. Eis ali o Cordeiro... Vinde, vinde, vamos comer a Páscoa. Pois bem! São tudo consolações para o coração. Amanhã, tereis uma missa melhor que a de hoje.

Por que dizer: Se eu estivesse junto com Madalena e São João?... Vós estais com eles todas as manhãs. Não há dois Calvários, nem dois sacrifícios.


A Missa e os Milagres

Somos sequiosos por milagres, como crianças por chocolate; não obstante, estamos bem próximos ao milagre dos milagres. Que são todos os milagres, se comparados à missa? Perde-se a missa por causa de relíquias! O grande milagre, maior que as relíquias, é a missa.

Estava a preparar um retiro em meu quarto. Entra um padre: “O bispo me enviou com um tesouro para mostrar-vos”. Era um cibório relicário, contendo uma hóstia inteira, intacta com sangue. Mandaram analisar o sangue: “perfeito sangue humano”, disse o famacêutico. Se fora católico, teria de acrescentar: “perfeito sangue divino”. Que aconteceu? O bispo enviou-o para perto de seu amigo doente; consagrau por ele, mas do final da missa, morreu o doente, esquecendo de comungar daquela hóstia. Permaneceu um mês no cibório relicário. Quando o abriu, encontrou-o ensangüentado, e a hóstia em perfeita brancura. Grande milagre? Não, pequeno, bem pequeno. Prestem atenção!

Existe uma hierarquia de valores... Sejam mais religiosas que mulheres... Só a missa é um milagre de primeira ordem, de primeira classe. É o único milagre. Nem a ressureção de Lázaro, nem outros milagres que se lhe comparem. São milagres de segunda classe as conversões: a conversão de São Paulo, a de Santo Agostinho. Os demais milagres são de terceira classe: este que acabei de referir é algo belo, mas é um pequeno milagre. Tais milagres não são nada, se comparados ao da missa. Apressamo-nos a ver os pequenos milagres, mas não nos ocupamos do único que há: a missa. É como se eu dissesse: “A santa vai falar-vos”, e vós respondesseis: “Estou ocupada em vigiar a criança que está brincando perto de mim”. Ou ainda, que preferísseis contemplar uma folha ou flor em vez do sol. Ausentam-se em umas dez ou vinte missas para visitar Tereza Neumann7... que ausência de doutrina! São verdadeiros todos os fatos ocorridos em sua vida, mas a Igreja não se pronunciou. Os milagres de Paray-le-Monial e de Lourdes são pequenos milagres,se comparados aos milagres contidos naquele do Calvário: eis aí a pura doutrina. Há religiosas que preferem a pequena música das devoções às preces da missa... seu acordeãozinho ao órgão. Não apreciam a missa, a única devoção verdadeira.

A missa tem de provocar um incêndio que deve queimar até a morte.

Na missa, existem três celebrantes, o Cristo-Pontífice, o Cristo-Padre, e vós. Sempre somos em três8.

Por que se necessita de um acólito na missa? Não é para entregar as galhetas ou responder as preces, mas para representar o terceiro celebrante, que sois vós ou a comunidade. Por que das cruzes traçadas sobre o cálice? Per ipsum et cum ipsum. Nele, meu Deus, meu Juiz; por ele, meu Deus e Salvador; com ele, meu Deus e meu Rei, meu bem-amado Esposo. Quem canta assim? A Igreja e eu, junto com ele, para a glória da Trindade. Esta é a razão de ser da encarnação, da redenção, dos sacramentos. Oh! Como queria que vós lêsseis, estudásseis,, meditásseis o cânon da missa! O cânon é um mosaico de preces antigas. O que vem antes e depois do cânon é a moldura.

Vivei a missa! Quando tiverdes dois ou três minutos, dizei a missa que chamo a de “São João”. Compõe-se ela de três preces principais que resumem a missa: oferenda, consagração, comunhão. Copiai do missal a missa da Trindade, ou do Santíssimo Sacramento, ou da Santa Virgem, segundo vossa devoção; levai-a convosco e, nos momentos livres, “celebrai a missa”, em união com as missas que àquele momento se celebram, pois que, tanto ao meio-dia quanto à meia-noite, estamos sempre entre dois altares. Deste modo aprende-se a viver a missa o dia inteiro.

Leio a missa o dia todo: meu anjo da guarda é o acólito da missa, quero morrer celebrando a missa.

A missa é a única homenagem, o único louvor. Atentem bem para o que chamo de “vício” da missa. Os santos devem se aborrecer quando se abandona a missa para lhes orar; chega a ser ridículo como nos falta doutrina! Devoção aos santos, sim; mas não em lugar da missa. Recitem vinte rosários antes, e cinqüenta depois, mas não durante a missa.

Parece que se esqueram um pouco da festa da Santíssima Trindade; é comum não solenizá-la tanto quanto a de São José ou outros; não há paramentos especiais, nem música. Mas a Igreja não se esqueceu: a festa da Santíssima Trindade é a missa. E o único chantre é Jesus. Nem a Santa Virgem, nem os anjos, nem os santos podem entoá-la dignamente. É o coração do rei que canta ao altar. Glória, louva o céu; Glória, entoa o purgatório; Glória, canta a Igreja – todas festas da Santíssima Trindade. Que mais belo que isto?... Nada, nada e nada9.

Não há criatura que possa dignamente entoar à Trindade, nem Maria. Só, o Pontífice Supremo entoa dignamente o hino de glória à Trindade. Por meio dele, tornamo-nos chantres maravilhosos, dignos da Trindade. Começemos, já aqui embaixo, a cantar: “Gloria! Hosanna!”, porque será curta a eternidade.

Por ele, com ele e nele, toda a glória, honra e louvor.


*
* *


Anexo:
O Cálice da Salvação10

[...] Agora falemos acerca da missão salvífica do cálice, calix salutaris, oferecido para a redenção de muitos. Ah! Resgataram nossas almas por um preço muito alto! Custamos ao Pai a torrente de sangue vertida da Cruz, cujá efusão secou as veias do Salvador, “Redemisti nos Deo in sanguine tuo11”.

De fato, a principal missão salvífica na Igreja não está na palavra, nem na admirabilíssima atividade de um Francisco Xavier, de modo algum! Supõe tal atividade apostólica o sangue redentor.

A santa missa compreende ambos: o drama do Cenáculo e a divina tragédia do Calvário, a imolação mística da Quinta-Feira Santa, e a cruenta da Sexta-Feira Santa!

Não é uma lição igualmente sólida que reconfortante para a mulditão das belas almas que deploram e esperam a conversão de um ente amado? Pois, infelizmente, abundam os pródigos e os publicanos, mesmo nas famílias cristãs.

Que angústia nobre e santa a da esposa cristã, da mãe exemplar, da filha piedosa, que vivem em casa com o cadáver moral do marido, do filho, do pai, afastados de Deus, e que trabalham, faturam e gozam a vida à beira do inferno! Avança a morte e espreita , podendo surpreendê-los como um ladrão, sem estarem quites com suas contas a pagar – Deus os livre e guarde!

Quanto sofrem dessa angústia as almas santas, as religiosas fervorosas e sobretudo, os padres zelosos, sentido-se responsáveis pelas almas em grande perigo! Que fazer neste caso? Que segredo de misericórdia obteria tais ressurreições morais, bem mais difíceis que a de Lázaro? Pois que a conversão de uma alma ingrata e endurecida é prodígio em tudo extraordinário, diferente de reanimar um cadáver. Como obter tal prodígio?

Com a onipotência misericordiosa do santo sacrifício! Uma só missa tem mais peso na balança da justiça e da misericórdia que todas as boas obras de todos os santos!

A seu exemplo, façamos boas obras, penitências, esmolas, orações. Mas para que fecundem as obras até ao milagre, vertamo-las como uma gota d’água no precioso sangue do cálice!

Falamos amiúde de almas “de impossível conversão”.. Converter almas que se nos deparam inconvertíveis! Que milagre imenso há de se dar para um infeliz pecador, afastado dos sacramentos e com anos de vida escandalosa nas costas, chore de arrependimento! Todavia, ei-lo branqueado no tanque de uma confissão admirável em sinceridade. Contemplemos a piedade com que vai receber Deus na primeira comunhão, depois de estar ausente da morada de Deus por quarenta anos ou mais!... O “impossível” já o não é mais! Resplendeu o milagre!

São comuns tais vitórias, todas sempre conquistadas pelo clamor da vítima do altar. O Pai não pode recusar a glória e a vitória ao Filho bem-amado, que deu o último suspiro implorando o perdão, oferecendo o paraíso com misericórdia infinita.

Mas o Céu sempre exige que se pague o preço da justiça. Refulge o milagre quando se satisfaz com plenitude a justiça. É aí que a misericórdia despedaça os túmulos e comanda o cântico dos mortos ressucitados.

Não faltam devoções, mas a rainha delas todas, o santo sacrifício da missa, mais das vezes nos falta. Por isso não ocorrem as grandes conversões. Quero causar espécie entre os bons católicos, acerca deste ponto tão importante.

Junto à rainha das dores, como João e Madalena aos pés da cruz, oremos e deploremos diante do calvário do altar, façamos violência à divina vítima em favor dos queridos pródigos de nossos lares... Usurpemos pela onipotência da missa tais milagres.

Por este meio, usual após a Sexta-Feira Santa, que se fende o rochedo dos maiores pecadores. Esta é a minha mais profunda convicção: um lar é resgatado quando há ali, de fato, uma alma fervorosa, inflamada pela santa missa, salvando assim do inferno os que estão em perigo. Esta alma é apostólica, pois que carrega o cálice da salvação no coração, e seu coração vive dentro do cálice.

Desta forma foi minha mãe a feliz responsável diante de Deus, o intrumento da salvação de meu pai e de meu irmão mais velho. E também de minha vocação. Mais que nunca, falo de uma experiência excelente. Ponho minhas mãos sobre o Evangelho e sobre o altar em testemunho da verdade! Garanto-vos de que se fordes fiéis e dóceis em seguir este conselho, dar-me-eis graças um dia, mas na companhia daqueles que convertestes e salvastes através do apostolado da missa!

Sim, escutai-me de bom grado, confrades de sacerdócio! Lede-me com atenção, predicadores e missionários [...]. Afirmando isto, nada faço senão uma mera glosa da prece da Igreja na oferenda do sacrifício:

Aceitai, meu Pai, esta Hóstia imaculada e pela qual imploramos vossa clemência... para nossa salvação e a do mundo inteiro!

(Sel de la Terre nº55. Tradução: Permanência)

1. A missa não cumpre um milagre em senso estrito, pois o fato extraordinário que se dá não é sensível (mas não se pode tê-lo com valor de signo). Pode-se contudo qualificá-lo de milagre em senso lato, pois ultrapassa em muito a potência da natureza. Eis o que aqui e mais adiante significa “milagre” para o padre Matéo em seu discurso.
2. Vai perceber-se que o padre Matéo não fala de um sacerdócio em senso estrito, mas de uma sorte de sacerdócio, uma simples imagem, uma jeito de falar. Ver sobre o tema o “Catéchisme de la crise dans l’Église” do Sr. padre GAUDRON, no presente número de Sel de la terre.
3. Trata-se de um célebre quadro representando a aparição do Cristo crucificado durante a elevação da hóstia.
4. O padre Matéo desenvolveu esta idéia a 17 de dezembro de 1948, por ocasião do qüinquagésimo aniversário de sua ordenação sacerdotal, em um estudo intitulado “Le saint sacrifice de la messe, hymne de gloire, le seul digne de la Sainte Trinité”. Citaremos algumas passagens em notas e no anexo.
5. Era ainda costume nas paróquias distribuir a comunhão aos fiéis antes do começo da missa, e não após a comunhão do padre.
6. Escreveu o pe. Matéo em 1948: “Infelizmente, são legião os que vêem para missa apenas para comungar, e não para tomar parte do sacrifício, nem para glorificar a Santíssima Trindade... Para quantas almas piedosas a divina eucaristia reduz-se ao pão consagrado distribuído à santa mesa! Para tais pessoas a santa missa é uma bela cerimôna litúrgica durante a qual, conforme o costume, se pode comungar. A missa não se lhes depara como o supremo sacrifício, verdadeiro eixo da Igreja, mas somente a chave d’ouro que abre o tabernáculo quando, em devoção privada, quer-se receber Jesus-Hóstia... É desta forma que, durante a missa inteira, recitam novenas e rosários, inconscientes ou quase do drama divino que se desdobra no altar [...] Como estava certo o teólogo que escreveu: “O que não aprecia a santa missa, nunca será verdadeiramente uma alma eucarística; não apreciará a santa comunhão, ainda que a receba todos os dias”. De fato, a ignorância e a rotina combinadas desempenham nesta caso um papel nefasto. Tornam o Santo Sacramento uma devoção insípida e sem substância, como leite desnatado!”.
7. Tereza Newmann (1898-1962), estigmatizada católica. Celebrizou-se por ser milagrosamente curada, após um acidente que a deixou cega e paralítica; desde então não mais tomava alimentos ou líqüidos, mas sustentava-se apenas da Santa Eucaristia. Outros fenômenos lhe estavam associados, verbi gratia, os supracitados estigmas, o dom de línguas, curas milagrosas. [N. da P.]
8. Em 1948, escreveu o pe. Matéo: “Quem opera a santa missa? São três as pessoas, mas cuja operação possui virtudes litúrgicas bem diferentes. 1. Antes do mais, o pontífice adorável, o Cristo Jesus, o grande sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque (He 5, 10). Ele é, ao mesmo tempo, o oficiante divino e a sacrossanta oblação sacramental. 2. Em seguida, por ele, com ele e nele, há outro Cristo que é o padre, ministro oficial, adrede consagrado para oferecer o santo sacrifício. Sacerdotium propter sacrificium, o sacerdócio foi criado para o oferecimento do sacrifício. Ao executar no altar a maxima actio, está investido do sacerdócio e do poder do Cristo, em virtude das palavras pronunciadas pelo Salvador na Última Ceia: “Façam isto em memória de mim” (Lc 22, 19) 3. E enfim, por uma sorte de concomitância espiritual, os fiéis oferecem o sacrifício com o padre, mas em medida restrita e discreta, e somente na oferta e comunhão da vítima. Também, porque a missa é essencialmente um culto social e público, a Igreja exige sempre a presença no altar de um representante do povo, que é acólito da missa ou criança do coro. Este, em sua função oficial, no papel de “lugar-tenente” do povo, deve apresentar ao celebrante o vinho e a água. E sempre na sua qualidade de “deputado”, enceta com o padre o diálogo que, nos primeiros séculos da Igreja, fora a forma litúrgica estabelecida para a celebração do santo sacrifício.”
9. “Por uma amável e longa experiência, posso afirmar que nunca me deparei com um verdadeiro devoto da Augusta Trindade que lá não tenha chegado pelo caminho real do mediador da missa. Sim, o conhecimento e o amor do Pai e da Trindade nascem e se desenvolvem nas expansões do altar. Um dia, tal devoção se difundirá nos cânticos dos anjos: Sanctus, Sanctus, Sanctus. Deus Sabaoth! (Pe. Matéo, em 1948, ibid.)
10. Trecho de um estudo, redigido por ocasião do jubileu sacerdotal do pe. Matéo, em 1948. [N. da. P.]
11. Ap 5, 9. Resgataste-nos para Deus, ao preço de teu sangue.

A lição do Calvário.


A grande lição do Calvário
Fortis est ut mors dilectio: o que mais impressiona no amor de Jesus, quer por seu Pai, quer por nossas almas, é a união maravilhosa e muito íntima da mais profunda ternura e da força a mais heróica no sofrimento e na morte: Fortiter et suaviter.

Estas duas qualidades do amor estão, muitas vezes, separadas em nós e no entanto só podem viver intimamente unidas. A ternura sem a força torna-se langorosa e piegas, a força sem nenhuma suavidade, transforma-se em rudeza e amargura1.

Ninguém pode exprimir o que foi a ternura de amor filial de Jesus por seu Pai; se ele amava ternamente a Virgem Maria, quanto mais ainda seu Pai, a quem rendia perpétua ação de graças e adoração! Esta ternura sobrenatural se derramava e se derrama continuamente sobre as almas, não apenas as de um certo país ou tempo ou sobre um grupo restrito de alguns amigos, mas sobre todas as almas de todas as gerações para lhes dar a vida eterna.

Este amor de Cristo tão terno é também mais forte que a morte, mais forte que o pecado e que o espírito do mal. Foi ele que levou Nosso Senhor a se oferecer como vítima para pagar em nosso lugar, para nos salvar, dando a Deus uma reparação infinita que lhe agrada mais do que todo o desgosto causado pelos pecados: Cor Jesu, fornax ardens caritatis -- eis todas as ternuras e todas as energias do amor admiravelmente fundidas. O Coração de Jesus é assim o mais puro espelho da Misericórdia e da Justiça, as duas grandes virtudes do amor incriado de Deus.

Os membros do corpo místico de Cristo devem cada vez mais participar de sua vida para se tornarem semelhantes a Ele. A santa humanidade do Salvador nos comunica progressivamente as graças que mereceu por nós na Cruz, influxo da cabeça do corpo místico sobre seus membros. Por este influxo Nosso Senhor quer nos assimilar, cada vez mais, pelo batismo, absolvição, comunhão freqüente, cruzes ou purificações necessárias a nosso avanço, até a extrema-unção e a nossa entrada no céu. Na vida de muitos santos vê-se essa assimilação progressiva no modo pelo qual neles são reproduzidos os mistérios da infância de Jesus, sua vida oculta, depois sua vida apostólica e por fim sua vida dolorosa2.

Ora, uma das grandes marcas do espírito de Jesus em uma alma, é a reprodução nesta alma dos dois efeitos que derivam em Nosso Senhor da plenitude da graça.

Primeiro, a paz, a tranqüilidade da ordenação cada vez melhor de todos os sentimentos, de todos os quereres subordinados ao amor de Deus e das almas em Deus, amor que cresce continuamente pela influência atual de Cristo.

Em seguida, a aceitação da cruz, para seguir o Mestre, como ele disse; aceitação com paciência, do contrário a pena aumenta sem fruto; reconhecimento, pois está aí uma graça escondida, vê-se melhor quando o fardo é levado sobrenaturalmente; com amor, pois a cruz é Jesus crucificado, que vem a nós para reproduzir em nós seus próprios traços. Este amor dá o abandono e a paz. Aí se encontra a verdadeira soberania, a contemplação divina3.

O austero Luiz de Chardon diz com profundidade a este respeito, comentando São Paulo: "Depois de termos admirado a violenta e insaciável inclinação do espírito de Jesus para a Cruz compreenderemos melhor como Ele a distribui pelas almas que lhe pertencem pelos vínculos da graça... Entendemos igualmente porque quanto maior é a elevação da alma em união com o espírito de Jesus tanto maior será sua obrigação quanto ao sofrimento... Também seria uma desordem da graça e das máximas do santo amor, se membros alimentados por confeitos estivessem ligados a uma cabeça transpassada de espinhos...

"Os membros são santificados pela mesma graça, que está em Jesus como em sua fonte universal. Ora, esta graça de Cabeça é comunicada a Jesus para a finalidade de sua missão, para que ele pague pelos pecados dos membros à justiça rigorosa de Deus. Por conseguinte, ele contrai a obrigação amorosa de sofrer provocando em seu espírito uma inclinação violenta que o transporta continuamente para a Cruz. É indispensável que esta graça incline do mesmo modo, com o mesmo rigor as almas predestinadas, a fim de que o corpo místico não pareça um todo monstruoso na ordem da graça, onde o espírito de Jesus seria contrário a si mesmo, sendo um nos membros e outro na Cabeça...

"Assim, porque a graça decorre da alma de Jesus como de sua fonte original onde ela produz um impulso dirigido para o fim pelo qual Jesus se fez homem, é uma necessidade que a graça cause esta mesma disposição naqueles que recebem a dignidade de nela participarem"4.

Este é um efeito da graça cristã como tal. A graça, por sua essência, é uma participação da natureza divina, mas, pelo fato de que nos é transmitida pelo Cristo, tem uma modalidade especial que nos configura a Ele como demonstra Santo Tomás quando pergunta se a graça sacramental, em particular a graça batismal, como tal, acrescenta alguma coisa à graça das virtudes e dos dons como a que possuía Adão antes do pecado (III, q. 62, a. 2).

Luiz de Chardon acrescenta e une assim a doutrina de um Tauler ou de um São João da Cruz à de Santo Tomás: "E porque esta espécie de graça não pode ficar ociosa em uma alma... é ávida para crescer e como só pode ter um crescimento considerável com a ajuda das cruzes... na nudez da graça, da qual suspendeu os efeitos sensíveis, Deus não abandona a alma à sua própria fraqueza. Nisto há o propósito de fazer a alma se conhecer e se desprender de si mesma... aderindo somente a Deus... A união será mais estreita e mais íntima quanto maior a separação de tudo mais.

"Daí que o mesmo amor é ao mesmo tempo princípio de vida e princípio de morte...; unindo e separando... afastando e causando adesões... A santidade de Deus comunicada a suas criaturas produz uma privação geral de tudo o que é incompatível com sua pureza imaculada5.

"Gloriosa morte... Rica de uma fecundidade divina... Morte entretanto mais cruel do que aquela que é o dever comum da natureza... pois só deixa tristes desolações nas almas! No entanto as almas bem instruídas sobre as propriedades do Amor sagrado e do fim que a santidade de Deus pretende com todas estas provações, não quereriam trocar nem por um instante seu rigoroso martírio pelas delícias embriagadoras do Paraíso, nem a cruel espera de sua morte pela feliz vida da glória"6.

É fácil ver a aplicação deste princípio na vida de Maria7. Como diz o historiador que repara o esquecimento em que caiu a obra de Chardon: "Talvez, a atividade separante, simplificante, despojadora da graça nunca tenha sido analizada com maior penetração"8.

Relendo atentamente o belo capítulo da Imitação de Cristo (1. II, cap. XI): "Do pequeno número dos que amam a Cruz de Jesus", vê-se que a marca do espírito de Cristo é a paz e o abandono no sofrimento, no acabrunhamento da Paixão, que se reproduz em diversos graus nas almas para as purificar e para fazê-las trabalhar na salvação do próximo em Nosso Senhor, com Ele e por Ele, com os meios dos quais Ele mesmo se serviu. Jesus está assim, num certo sentido, em agonia até o fim do mundo, no seu corpo místico até que este corpo místico seja plenamente purificado e glorificado, até que se realize perfeitamente a palavra do Mestre: "Venci o mundo", pela vitória definitiva sobre o pecado, sobre o demônio e sobre a morte.

Deste ponto de vista sobrenatural da fé, quando se contempla, digamos, com o olhar de Deus o que nos diz a santa liturgia, vê-se o quanto ela ultrapassa infinitamente os mais sublimes elans da poesia humana.

"Salve Crux sancta, salve mundi gloria,
Vera spes nostra, vera ferens gaudia,
Signum salutis, salus in periculis,
Vitale lignum vitam ferens omnium.

"Crux fidelis, inter omnes arbor una nobilis: nula silva talem profert fronde, flore, germine: dulce lignum, dulces clavos, dulce pondus sustinuit.

O magnum pietatis opus! Mors mortua tunc est, in ligno quanto mortua Vita fuit.

Nos autem gloriari oportet in Cruce Domini nostri Jesu Christi. Crux benedicta, nitet Dominus qua carne pependit, atque cuore suo vulnera nostra lavit".

* * *

Quando vossa alma dobrar-se sob o peso, apoiai-vos sobre vosso crucifixo.

* * *

Concluamos com São Luiz Maria Grignion de Montfort (L' Amour de la Divine Sagesse, 2a. P., cap. V):

"A Sabedoria Eterna fez da Cruz seu tesouro e em sua Encarnação esposou-a com amor inefável; durante toda sua vida, que não foi mais do que uma cruz contínua, carregou-a, pediu-a com indizível alegria... Pregada finalmente e como que colada à cruz, com alegria morreu abraçada à sua querida Cruz como num leito de honra e triunfo... E não pensem que depois de sua morte, para melhor triunfar, a Sabedoria Encarnada tenha se arrancado, tenha rejeitado a Cruz... Não querendo que honra de adoração, mesmo relativa, seja prestada a criaturas, por mais altas que sejam, como sua santíssima Mãe, reservou esta honra para sua querida Cruz e somente a ela é devida. A Sabedoria Encarnada, no grande dia do Juízo Final, acabará como o culto das relíquias dos santos, mesmo as dos mais respeitáveis; mas quanto às relíquias da Cruz, enviará os primeiros serafins e querubins pelo mundo para ajuntar os pedaços da verdadeira cruz que, por sua amorosa onipotência, serão tão bem reunidos que não farão mais que uma só e a mesma Cruz em que morreu, transportada assim pelos anjos... Precedida pela Cruz, colocada sobre uma nuvem de brilho inigualável, a Sabedoria eterna julgará o mundo com a Cruz e pela Cruz. Qual será então a alegria dos amigos da Cruz... Esperando esse dia... a divina Sabedoria quer que a Cruz seja o sinal, o caráter, a arma de todos os seus eleitos... Tendo encerrado tantos tesouros, tantas graças de vida na Cruz só dá a conhecer esses tesouros aos mais escolhidos... Como é preciso ser humilde, pequeno, mortificado, interior e menosprezado pelo mundo para conhecer o mistério da cruz! A quem carrega e suporta essa cruz, a Sabedoria Eterna dará um peso eterno de glória no céu".

(De "L' Amour de Dieu et la Croix de Jesus", Ed. du Cerf. 1o. vol., cap. VI, pág. 255. Tradução de Anna Luiza Fleichman)
1. Ver sobre isto L. Chardon, La Croix de Jesus, 3o. entretenimento, cap. VIII, onde o autor mostra como Deus quer a ternura de suas criaturas para uni-las a sua força, e como Ele transforma esta ternura em força divina. "Ele quer que o amor intensivo caminhe na alma perfeita de par com o amor apreciativo e que a ternura dos sentimentos esteja de acordo com a preferência do julgamento".
2. Ver encíclica de Pio XI, junho de 1928, Miserentissimus Redemptor, sobre a reparação devida a Deus por todos os homens.
3. La Croix de Jesus, 1a. edição, pg. 119-121. Nova edição (Lethielleux) T. I, pg. 14, 29, 43, 136; T. II, pg. 376, 450.
4. Cf. São Luix Grignion de Montfort, L' Amour de la Divine Sagesse II P., cap. VI: "Meios de se obter a sabedoria divina: 1.) desejo ardente; 2.) prece contínua; 3.) mortificação universal; 4.) terna e verdadeira devoção à Santíssima Virgem."
5. La Croix de Jesus, ibid., pg. 125-128.
6. Ibid., pg. 146-147.
7. L. Chardon, ibid., no primeiro de seus três "entretenimentos", mostra o que foi o "amor separante", princípio de Cruz, na alma de Maria e dos apóstolos: são dez capítulos de grande profundidade sobre o martírio interior da Santa Virgem. No terceiro de seus "entretenimentos" ele descreve admiravelmente, à luz do mesmo princípio, os grandes ápices da vida interior de Abraão, de Elias, de Jacob, de Benjamin, da Esposa dos Cânticos, de Marta e de Madalena. Páginas admiráveis onde a teologia mística doutrinal aparece como o coroamento normal da teologia toda, tal como a conceberam Santo Agostinho, Santo Tomás e todos os grandes mestres. O capítulo sobre Elías (3o. entretenimento, cap. 25) é digno de nota: "Moisés dizia: "Apagai-me do livro da vida"; São Paulo pedia para ser anátema por causa de seus irmãos! Mas estes desejos não tinham outro efeito senão testemunhar o grande amor destas almas por seus irmãos... Não é este o caso de Elias. Há cerca de três mil anos que Elias está privado da visão de Deus, e estará privado até o fim do mundo, para satisfazer desejos que participam da imensidade divina... Elias está reservado... para lutar contra o Anticristo".
8. Bremond, Histoire Litt. du Sentiment Religieux en France, t. VIII, pg. 43. Não sei se Chardon leu São João da Cruz, em todo caso ele está imbuído de Tauler de quem expõe a doutrina.

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