terça-feira, 8 de março de 2011

Penitência: mortificação e cilício são possíveis hoje em dia.


Mortificação como penitência.

A mortificação é vista pela teologia cristã, e principalmente a católica, como uma forma de ascetismo, um meio de ajudar as pessoas a levar vidas virtuosas e santas. É uma antiga prática cristã que consiste em realizar um sacrifício mental ou físico por amor a Deus com o objetivo de se unir à paixão e à cruz de Jesus Cristo e, portanto, como meio de participação na Redenção.

Adolphe Tanquerey define a mortificação como sendo "a luta contra as más inclinações para submetê-las à vontade e esta a Deus." Esta prática pertence ao patrimônio espiritual da Igreja: Francisco de Assis, São Bento, Tomás Moro, Paulo VI, Madre Teresa de Calcutá, irmã Lúcia de Fátima são alguns dentre os muitos monges, religiosos e leigos que a praticaram e ainda praticam com sentido cristão.

O fundamento dogmático do oferecimento como vítima de expiação pela salvação das almas ou por qualquer outro motivo sobrenatural (p. ex.: reparar a glória de Deus ultrajada, liberar almas do purgatório ou atrair a misericórdia divina sobre uma alma determinada, etc.) está na solidariedade sobrenatural, estabelecida por Deus entre todos os membros do Corpo místico de Cristo, atuais ou em potência.[1]

Finalidade

• Reparação.

A mortificação tem utilidade, não só como penitência, mas para nos purificar das faltas passadas - como reparação: "Completo em mim o que falta à paixão de Cristo", diz São Paulo (Col. I,24) e "Aquele que quiser vir após mim, negue-se a si mesmo e tome a sua cruz e siga-me (Mt. 16,24). Em I Corintios 9,27, Paulo diz: "Antes subjugo o meu corpo, e o reduzo à servidão, para que, pregando aos outros, eu mesmo não venha de alguma maneira a ficar reprovado" [1].

• Santificação.

Tem também como finalidade ajudar-nos a nos prevenir contra as faltas do tempo presente e futuro, diminuindo o apêgo ao prazer, que é uma fonte das faltas pessoais. São João da Cruz sobre isto escreveu: Jamais, se queres chegar a possuir a Cristo, o busque sem a cruz.[2]

De acordo com os téologos católicos os principais benefícios que a "dor cristã" proporciona são: expiação dos próprios pecados, submete a carne ao espírito, desprende a pessoa das coisas da Terra, purifica e embeleza a alma, alcança tudo de Deus, faz da pessoa verdadeiro apóstolo e nos torna semelhantes a Jesus e à Virgem Maria.

Prática

Segundo os teólogos e religiosos cristãos, inclusive para aqueles que não crêem em Deus, é possível perceber certos aspectos compreensíveis da mortificação voluntária, como a solidariedade no sofrimento, o domínio do corpo, a conveniência de uma livre rebelião à tirania do prazer.

É comum algumas pessoas, por motivos diversos, se submeterem a certos esforços e sacrifícios com fins não religiosos ou mesmo por simples vaidade. Atletas se privam voluntariamente de certos prazeres e comodidades por algum tempo e se submetem a esforços não usuais com a finalidade de atingirem metas desportivas e os pais não raro estimulam os filhos a adquirirem autodisciplina e um pouco de rijeza de caráter privando-os temporariamente de alguns prazeres ou gostos lícitos.

Algumas dietas, com objetivos exclusivamente estéticos, seja na sua duração seja na quantidade de alimento a se abster, superam de longe e em muito os jejuns de fiéis e religiosos cristãos, mesmo dos que vivem em conventos ou clausura rigorosa. A mortificação cristã, naturalmente, deve ser vivida com sentido comum e moderação.

• Distingue-se entre mortificação ativa e passiva.

A mortificação ativa é buscada diretamente, como é o caso, por exemplo, do jejum comum em muitas religiões. A Igreja Católica, por exemplo recomenda pequenos sacrifícios durante o tempo denominado quaresma, e o jejum e a abstinência de carne na Sexta-feira da Paixão e na Quarta-feira de Cinzas.

A mortificação passiva é a aceitação voluntária de sacrifícios que vêm dados pela própria vida, como doenças, dificuldades, etc. Com a aceitação desses sacrifícios se pode dar uma dimensão maior a eles.

• A mortificação pode ser interior ou corporal.

A interior se refere ao sacrifício no âmbito da inteligência e da vontade. A corporal se refere ao sacrifício dos sentidos.

Pode cingir-se à renúncia de algum alimento que se tenha preferência ou simplesmente esperar alguns instantes para beber água quando se tem sede. Podem ser também pequenos atos que melhorem o cumprimento dos próprios deveres profissionais ou que tornem mais agradável a convivência com outras pessoas: Sorrir quando se está cansado, terminar uma tarefa no horário previsto, ter presente na cabeça problemas ou necessidades daquelas pessoas que nos são caras e não só os próprios, etc.
Muitas vezes, para um cristão comum, será um sacrifício similar, ou ainda mais fácil, do que aqueles sacrifícios que realizam outras pessoas para perder peso, (dietas, operações) melhorar a forma física (musculação, ginásticas) ou outros legítimos cuidados com o próprio corpo. A mortificação corporal deve ser vivida com bom senso e moderação e não se a deve praticar sem a orientação de um prudente diretor espiritual, ensina a Igreja Católica.

Autores espirituais

Antonio Royo Marin O. P., na sua obra Teología de la perfection cristiana (pg. 338), diz sobre a prática da mortificação voluntária:

A aceitação resignada das cruzes que Deus nos envia é já um grau muito estimável de amor à Cruz, mas supõe certa "passividade" por parte da alma que as recebe. Mais perfeito ainda é tomar a iniciativa, e, apesar da repugnância que a natureza experimenta, sair-lhe ao passo à dor praticando voluntariamente a mortificação cristã em todas as suas formas.(…)

Ao diretor espiritual corresponde vigiar os passos da alma, não impondo-lhe jamais sacrifícios superiores às suas forças atuais, mas guardando-se muitíssimo de cortar suas ânsias de imolação, obrigando-a a arrastar-se como um sapo em vez de deixá-la voar como as águias. (…) O cilício, as disciplinas, as "cadenillas", os jejuns e abstinências, a escassez de sono e outras austeridades deste estilo foram praticadas por todos os santos, em maior ou menor escala; segundo suas forças e disposições atuais, têm que praticá-las todas as almas que aspirem seriamente à santidade. Não há outro caminho para chegar a ela que aquele que nos deixou traçado Jesus Cristo com suas pegadas ensaguentadas até o Calvário.

São João da Cruz concede ao "amor ao sofrimento" uma importância excepcional no processo da própria santificação, na sua obra Subida do Monte Carmelo, aconselha poeticamente:

Procure sempre inclinar-se:
não ao mais fácil, mas ao mais difícil;
não ao mais saboroso, mas ao mais desabrido;
não ao mais gostoso, mas antes ao que dá menos gosto;
não ao que é descanso, mas ao trabalhoso;
não ao que é consolo, se não antes ao desconsolo;
não ao mais, mas sim ao menos;
não ao mais alto e precioso, mas ao mais baixo e desprezível;
não ao que é querer algo, mas a não querer nada;
não andar buscando o melhor das coisas temporais, mas o pior, e desejar entrar em toda desnudez e vazio e pobreza por Cristo
de tudo quanto há no mundo.[3]

Uma tese de 1999 da Universidade Angelicum de Roma, intitulada A Espiritualidade de Madre Teresa de Calcutá e sua influência transformadora no apostolado das Missionárias da Caridade para os mais Pobres dos Pobres, transcreve um comentário de Madre Teresa sobre o uso da "disciplina": Se estou doente, me açoito cinco vezes. Preciso fazê-lo para compartilhar da paixão de Cristo e do sofrimento de nossos pobres. Quando vemos as pessoas sofrendo, a imagem de Cristo surge naturalmente diante de nós. O mesmo trabalho mostra que Madre Teresa pedia às irmãs que usassem o cilício e a disciplina.[4]

Referências
1. ↑ Marin, Antonio Royo, O.P. obra cit.
2. ↑ Carta ao P. João de Santa Ana (n. 23 na 2a. ed. da B.A.C., p.1322)
3. ↑ Subida. I,13,6.
4. ↑ Allen, John L. "Opus Dei: os mitos e a realidade". Tradução de Regina Lyra. Rio de Janeiro: Elsevier, 2006; ISBN 85-352-1812-2
Bibliografia
• BAKER, Holy Wisdom, ed, SWEENY (London, 1905).
• CHABOT, La mortification chretienne et la vie in Science et Religion, series (Paris, 1903).
• LE GAUDIER, De perfectione vitae spiritualis (Paris, 1856);
• MARIN, Antonio Royo, O.P. Teología de la perfection cristiana. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 2001. ISBN 84-7914-128-X
• MATURIN, Self-knowledge and Self-discipline (London, 1905);
• PAZ, Alvarez de. De mortifications virium animae in Opera, t. III (Paris, 1875), 1. II.
• RODRIGUEZ, Christian and Religious Perfection.
• SCARAMELLI, Directorium Asceticum (London, 1897).
• TANQUEREY, Adolphe. Compêndio de Teologia Ascética e Mística. Madri: Ediciones Palabra, 1990.

Cilício

Cilício era uma túnica, cinto ou cordão de crina, que se trazia sobre a pele para mortificação ou penitência.

O termo vem do latim cilicinus que quer dizer feito de pêlo de cabra, ou cilicium que quer dizer tecido áspero ou grosseiro de pelo de cabra ou vestido de gente pobre. Hoje é conhecido como forma de mortificação voluntária ao lado do jejum e abstinência dentre outras formas.

Origem

Modernamente tem sido substituído por instrumentos mais discretos que produzem efeito corporal similar. Muitos santos usaram o cílício como forma de penitência, mortificação ou sacrifício voluntário.

São João Batista vestiu-se com pele de cabra enquanto se afastou no deserto e jejuava. Santa Rosa de Lima, discretamente, usava espinhos por debaixo de uma coroa de rosas que portava com habitualidade. Thomas More, por debaixo da camisa de seda com que comparecia à corte de Henrique VIII, usava habitualmente uma outra de tecido grotesco, a título de cilício, como forma de sacrifício voluntário. O Papa Paulo VI, Madre Teresa de Calcutá e a irmã Lúcia de Fátima praticaram a mortificação corporal dentre muitos outros religiosos e leigos.

Meio de mortificação ou penitência

Nos primeiros anos do cristianismo a utilização de tecidos grosseiros, como meio de mortificação física e para ajudar a resistir às tentações da carne se tornou muito comum. Não somente os ascetas e aqueles que aspiravam uma vida de perfeição cristã, mas mesmo entre os leigos ordinários que viviam no meio do mundo dele se serviam como de um antídoto discreto contra a ostentação exterior e o conforto nas suas vidas.

São Jerónimo menciona o uso do cilício entre oficiais mundanos, assim como Santo Atanásio, João Damasceno e Teodorico e muitos outros testemunham o seu uso no seu tempo. Na mesma época, Cassiano de Ímola reprovou o seu uso, afirmando que satisfazia à vaidade de quem se mortificava e que atrapalhava a aplicação ao trabalho manual. Na Regra de São Bento de Nursia não se menciona o uso do cilício mas a S. Benedictus illustratus, sive Disquisitionsum monasticarum libri XII, quibus S.P. Benedicti Regula et religiosorum rituum antiquitates varie dilucidantur de Benedict van Häften, escrita no século XVII, sustenta que era freqüente o seu uso na etapa inicial da ordem.

Idade Média.

Na época de Agostinho de Hipona, os batizados adultos vestiam o cilício simbolicamente durante parte da cerimonia. [1] Na Idade Média o seu uso generalizou-se, a maioria das ordens monásticas adotou o uso; desde esta época data a prática de fazê-la de fios delgados, para incrementar o incômodo. Deixou de ser usado apenas por monges e religiosos para ser usado pelo leigos que viviam no meio do mundo. Carlos Magno por exemplo foi enterrado com o cilício que havia usado durante a vida.[2] O mesmo se diz de Thomas Becket. Os penitentes o vestiam durante a Quarta-feira de Cinzas e o altar da igreja se cobria com um pano deste material durante a Quaresma. No retrato de Tomás Moro feito por Hans Holbein, o Jovem aparece parte deste material próximo dos punhos e do pescoço, sob as finas roupas do Lord Chanceler.

Atualidade

Notadamente os cartuxos e os carmelitas prescrevem o seu uso nas respectivas regras, em outras ordens religiosas o cilício e as disciplinas são usados em caráter voluntário ou individual. No lugar da antiga camisa ou vestimenta emprega-se uma pequena corrente ou cinturão metálico dotado de pequenas pontas que se ata firmemente ao músculo ou nas axilas, as pequenas lesões são cutâneas e não provocam, de ordinário, sangramento - diferentemente da representação exagerada que se vê em algumas versões literárias ou cinematográficas - entretanto deixam marcas visíveis.
Allen Jr. noticia que em 1977 havia uma lista de preços fornecida pelo Convento das Carmelitas Descalças de Santa Teresa, em Livorno, Itália, convento em que as freiras fabricam a mão cilícios e disciplinas para suprir encomendas do mundo todo. Os produtos são listados sob o nome genérico de "instrumentos de penitência", quando é recebida a encomenda ela é despachada sob a rubrica de "objetos religiosos".
Allen Jr. informa ainda, a título de exemplo, que além das próprias freiras carmelitas, dentre outros os Irmãos e Irmãs Franciscanos da Imaculada Conceição, ordem fundada em 1965, com aprovação da Santa Sé em 1988 e o Mosteiro Mãe da Igreja, em Lagos no Camboja, sacerdotes e membros leigos celibatários da Prelazia do Opus Dei também fazem uso habitual do cilício.[3]

Sentido do sofrimento

Supõe-se que várias ordens religiosas católicas fazem uso regular do cilício por pequenos períodos de tempo, como instrumento de mortificação com o objetivo de aliar algum sacrifício pessoal ao sacrifício de Cristo na cruz, com espírito de penitência, de reparação e desagravo.

A mortificação corporal, da qual o cilício é apenas um instrumento, pertence ao patrimônio espiritual da Igreja, é feita pelos religiosos católicos com o espírito que narra o Papa João Paulo II na Carta Apostólica Salvifici Dolores: Cristo não escondia aos seus ouvintes a necessidade do sofrimento. Pelo contrário, dizia-lhes muito claramente: "Se alguém quer vir após mim... tome a sua cruz todos os dias" (Lc. 9,23); e aos seus discípulos punha algumas exigências de ordem moral, cuja realização só é possível se cada um se "renega a si mesmo".

E ainda, no mesmo documento: Assim como todos foram chamados a "completar" com o próprio sofrimento "o que falta aos sofrimentos de Cristo" (1Pd 4,13 e Cl 1,24). Cristo ensinou o homem a fazer o bem com o sofrimento e, ao mesmo tempo, a fazer o bem a quem sofre. Sob este duplo aspecto, revelou cabalmente o sentido do sofrimento.

Referências
1. ↑ De Symb. ad Catech., II, 1.
2. ↑ Martene, De Ant. Eccl. Rit.
3. ↑ Allen Jr., John L. "Opus Dei: os mitos e a realidade.Rio: Elsevier, 2006, p.176-177.
Bibliografia
• TANQUEREY, Adolphe. Compêndio de Teologia Ascética e Mística. Madri: Ediciones Palabra, 1990.
• MARIN, Antonio Royo, O.P. Teología de la perfection cristiana. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 2001. ISBN 84-7914-128-X

Fonte: Wikipedia.

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