segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Feliz e Santo Natal, feliz ano novo!

O NATAL CONTINUA!

Dom Fernando Arêas Rifan*



Ainda sob os reflexos do Natal, reflitamos em todas as lições desse maior acontecimento da história da humanidade, razão de nossa esperança e causa de nossa alegria: “O próprio Filho de Deus veio ‘em carne semelhante à do pecado' (Rm 8,3) para condenar o pecado e, após tê-lo condenado, excluí-lo completamente do gênero humano. Chamou o homem à semelhança consigo mesmo, fez dele imitador de Deus, colocou-o no caminho indicado pelo Pai, para que ele pudesse ver Deus e o oferecesse em dom ao próprio Pai” (S. Irineu).

O Natal é a primeira festa litúrgica, o recomeçar do ano religioso, como a nos ensinar que tudo recomeçou ali. O nascimento de Jesus foi o princípio da revelação do grande mistério da Redenção que começava a se realizar e já tinha começado na concepção virginal de Jesus, o novo Adão. Deus queria que o seu projeto para a humanidade fosse reformulado num novo Adão, já que o primeiro Adão havia falhado por não querer se submeter ao seu Senhor, desejando ser o senhor de si mesmo e juiz do bem e do mal. Assim, Deus enviou ao mundo o seu próprio Filho, o Verbo eterno, por quem e com quem havia criado todas as coisas. Esse Verbo se fez carne, incarnou-se no puríssimo seio da Virgem, por obra do Espírito Santo, e começou a ser um de nós, nosso irmão, Jesus. Veio ensinar ao homem como ser servo de Deus. Por isso, sendo Deus, fez-se em tudo semelhante a nós, para que tivéssemos um modelo bem próximo de nós e ao nosso alcance. Jesus é Deus entre nós, o “Emanuel – Deus conosco”.

Terminadas, pois, as festas natalinas, não podemos nos esquecer da mensagem do Natal. E o Natal traz lições para todas as épocas do ano.

São Francisco de Assis inventou o presépio, quer dizer, a representação iconográfica do nascimento de Jesus, para que refletíssemos nas grandes lições desse maior acontecimento da história da humanidade, seu marco divisor, fonte de inspiração para os grandes pintores e manancial de meditação para os místicos.

Mas quantos nem se recordaram do aniversariante deste dia nem da sua mensagem de amor e de sua pregação das virtudes! O Natal fica esquecido e seu protagonista também. Às vezes passamos um Natal materialista, apenas de compras e diversões, celebramos um Natal egoísta, sem nos lembrarmos do irmão faminto e necessitado. Com a mesa farta, não nos recordamos dos que não têm sequer um pedaço de pão!

Que tal se fizéssemos um Natal contínuo, pensando mais no divino Salvador, na sua doutrina, nas virtudes que nos ensinou, no amor com que nos amou, imitando o seu exemplo, praticando a caridade, consolando uma pessoa triste, levando a um doente uma palavra de conforto, perdoando um inimigo nosso, mostrando gratidão a quem nos fez algum bem, convivendo melhor com nossa família, rezando um pouco melhor...

Desse modo a mensagem do Natal vai continuar durante todo o Ano Novo, que assim será abençoado e feliz. FELIZ ANO NOVO!

*Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney

Conversão de pastores ao catolicismo.

Vários lideres religiosos protestantes nos EUA estão se convertendo ao catolicismo.



Alguns nomes:



1) Scott Hann. ex-pastor presbiteriano e ex-professor de teologia protestante.
Era um anticatólico dos mais radicais de sua época. O seu excelente conhecimento como pastor e teólogo protestante e o testemunho de conversão para a Igreja católica faz deste servo de Deus um fascinante defensor da verdade. Milhares de protestantes e centenas de pastores voltaram ao Catolicismo vendo o testemunho deste ex-pastor.



2) Paul Thigpen. ex- editor e escritor de várias revistas protestantes.

Foi educado em uma Igreja presbiteriana do sul. Levou a sério, os estudos religiosos na Universidade de Yale. Foi Pastor e missionário na Europa, depois passou para a Igreja Batista, Metodista, Igreja Anglicana e depois para uma Igreja Pentecostal. Finalmente fez estudos para obter doutorado em História da Teologia que o facilitou ao caminho para a Igreja Católica.



3) Marcus Grodi ex-ministro protestante formado em Teologia e Bíblia.
Fez os estudos de teologia no seminário protestante Gordon-Conwell em Boston, Massachussetts.

Marcus afirma: “Eu só quis ser um bom pastor”, mas um dia perguntou-se a si mesmo: “Eu estou ensinando a verdade ou o erro? Como eu posso estar seguro se em outras igrejas a mesma leitura Bíblica tem várias interpretações diferentes?”.

Estudou história da Igreja e soube através da Bíblia que não poderia continuar a ser um protestante. Concluiu que a verdade absoluta só se encontrava na Igreja católica. “Sou mais completo na Igreja dos Apóstolos”, disse ele.



4) Steve Wood. ex-diretor de um Instituto Bíblico na Flórida
Ex-pastor da Igreja evangélica “O Calvário”. Fazia os estudos em um Instituto das Igrejas Assembléias de Deus trabalhando em projetos de evangelismo juvenil; era líder de ministérios evangélicos na prisão; organizou um Instituto de estudos bíblicos para adultos e depois fez pós-graduação estudando no famoso seminário evangélico de teologia Gordon-Conwell em Massachusetts.

Um dia quando orava, Deus lhe falou: “Agora ou nunca”. Com a sua conversão ao Catolicismo ele perderia tudo. Perderia o trabalho como pastor e não poderia sustentar a família. “Eu tinha estudado 20 anos para ser um ministro protestante e Deus me falou: Faça, agora!… E eu fiz isto”.



5) Bop Sungenis. ex-professor de Bíblia em uma Rádio evangélica.
Escreveu um livro contra a Igreja católica: “Recompensas no Céu?” Onde criticou os Católicos por acreditar na importância das obras. Ele quis demonstrar que os ensinamentos Católicos eram falsos e que para salvar-se, bastaria somente a fé. Estudou no “Collegue Bíblico de Washington” e depois se especializou no “George Washington University”.

Bop diz: Agora como Católico eu tenho a paz. Isso vem como consolação de viver na verdade. Agora eu entrei no exército de Cristo nesta grande batalha para a salvação das almas. Ajudarei meus irmãos protestantes a aprender que a Igreja católica não só é a verdadeira Igreja, mas a casa onde todos nós pertencemos.



6) Duglas Bogart. Ex-missionário evangélico na Guatemala.
Meu sonho era ser missionário em minha Igreja evangélica de Phoenix. Porém com o tempo, sem perceber, Deus estava me guiando para sua Igreja. Com muita tranqüilidade afirma Douglas: “Eu li muitos livros de teologia, de história, e de testemunhos”. Estudei o Catecismo da Igreja Católica comparando-o com a Bíblia. Eu li os primeiros escritos dos Pais da Igreja e descobri que a igreja primitiva era Católica e não protestante. Terminei de aceitar a verdade e agora eu sou Católico.



7) David B. Currie. Ex-ministro evangélico do qual muitos o chamavam de “O Mestre em Divindade”.

Ele nasceu e cresceu como um protestante fundamentalista, seu pai era um pastor. David fez curso de teologia no “Trindade Universidade Internacional” em Deerfield, Illinois. Depois obteve seu “Mestrado em teologia Bíblica” no “Trindade Escola de Divindade Evangélica”.

O que o levou a ser Católico? Sua resposta se baseia em duas coisas: O estudo da Bíblia o fez descobrir que a Palavra de Deus o guiou para o Catolicismo e o segundo é que a mesma Bíblia mostrou para ele que a Igreja católica é a única Igreja fundada por Cristo.



8) Alan Stephen Hopes. ex- Pastor e Bispo Anglicano nomeado por João Paulo II
Sacerdote Anglicano convertido ao Catolicismo. Foi nomeado bispo auxiliar de Westminster por João Paulo II. Nasceu em Oxford, em 1944. Foi recebido na Igreja Católica em 04 de Dezembro de 1995.
Depois de dois anos como vigário da paróquia de Nossa Senhora da Vitória, de Kensington, foi nomeado Padre da Paróquia de Nosso Redentor, em Chelsea, tornando-se depois, em 2001, vigário geral da arquidiocese.

Monsenhor Hopes é um dos pastores Anglicanos que abandonaram a Igreja da Inglaterra depois que a ordenação sacerdotal de mulheres foi aprovada naquela igreja.



9) Francis Beckwith. Que em 2007 renunciou cargo de Presidente da Sociedade Teológica Evangélica (ETS) que congregava mais de 4 mil pastores nos EUA.
O que levou este homem a se converter? Beckwith relata que começou sua volta à fé em que cresceu, quando decidiu ler a alguns bispos e teólogos dos primeiros séculos da Igreja. “Em janeiro, por sugestão de um amigo querido, comecei a ler aos Padres da Igreja assim como alguns trabalhos mais sofisticados sobre a justificação em autores católicos. Comecei a convencer-me que a Igreja primitiva é mais católica que protestante e que a visão católica da justificação, corretamente compreendida, é bíblica e historicamente defensável”.
No dia em 28 de abril do mesmo ano, ele recebeu o sacramento da Confissão. Selando sua volta a Igreja Católica.



Acompanhem também o depoimento do pastor Alex Jones sobre sua conversão ao catolicismo:

São 5 videos :



http://www.youtube.com/watch?v=iH4B1aD1Va4 (1º vídeo)

Imitação de Cristo.

Das quatro coisas que produzem grande paz



1. Jesus: Filho, vou agora te ensinar o caminho da paz e da verdadeira liberdade.



2. A alma: Fazei, Senhor, o que dizeis, que muito grato me é ouvi-lo.

Jesus: Filho, trata de fazer antes a vontade alheia que a tua. Prefere sempre ter menos que mais. Busca sempre o último lugar e sujeita-te a todos. Deseja sempre e roga que se cumpra plenamente em ti a vontade de Deus. O homem que assim procede penetra na região da paz e do descanso.



3. A alma: Senhor, este vosso discurso é breve, mas encerra muita perfeição. Poucas são as palavras, cheias, porém, de sabedoria e de copioso fruto. Se eu as praticasse fielmente, não me deixaria perturbar com tanta facilidade. Pois, todas as vezes que me sinto inquieto e aflito, verifico que me desviei desta doutrina. Vós, porém, que tudo podeis e desejais sempre o progresso da alma, aumentai em mim a graça, para que possa guardar vossos ensinamentos e levar a efeito minha salvação.



4. Oração contra os maus pensamentos:



Senhor, meu Deus, não vos aparteis de mim, meu Deus dignai-vos socorrer-me (Sl 70,13). Pois me invadem vários pensamentos, e grandes temores afligem minha alma. Como escaparei ileso, como poderei vencê-los?

Diante de ti, são palavras vossas, irei eu e humilharei os soberbos da terra (Is 14,1); abrir-te-ei as portas do cárcere e te revelarei mistérios recônditos.

Fazei Senhor, conforme dizeis e dissipe vossa presença todos os maus pensamentos. Esta é a minha única esperança e consolação: a vós recorrer em toda tribulação, em vós confiar, invocar-vos de todo o coração e com paciência aguardar a vossa consolação. Amém.



5. Oração para pedir o esclarecimento do espírito:



Iluminai-me, ó bom Jesus, com a claridade da luz interior e dissipai todas as trevas que reinam em meu coração. Refreai as dissipações nocivas e rebatei as tentações, que me fazem violência. Pelejai valorosamente por mim, e afugentai as más feras, essas traiçoeiras concupiscências, para que se faça a paz por vossa virtude, e ressoe perene louvor no templo santo, que é a consciência pura. Mandai aos ventos e às tempestades; dizei ao mar: aplaca-te, e ao tufão: não sopres; e haverá grande bonança.



6. Enviai vossa luz e vossa verdade (Sl 42,3), para que resplandeçam sobre a terra; porque sou terra vazia e estéril, enquanto não me iluminais. Derramai sobre mim vossa graça e banhai o meu coração com o orvalho celestial; abri as fontes de devoção, que reguem a face da terra, para que produza frutos bons e perfeitos. Erguei meu espírito abatido pelo peso dos pecados e dirigi meus desejos paras as coisas do céu, para que, antegozando a doçura da suprema felicidade, me aborreça em pensar nas coisas da terra.



7. Desprendei-me e arrancai-me de toda transitória consolação das criaturas, porque nenhuma coisa criada pode consolar-me plenamente ou satisfazer meus desejos. Uni-me convosco pelo vínculo indissolúvel do amor, porque só vós bastais a quem vos ama, e sem vós tudo o mais é vaidade. Amém.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Imitação de Cristo.

IMITAÇÃO DE CRISTO.



Do amor à solidão e ao silêncio.



1. Procura tempo oportuno para cuidar de ti e relembra a miúdo os benefícios de Deus. Renuncia às curiosidades e escolhe leituras tais, que mais sirvam para te compungir, que para te distrair. Se te abstiveres de conversações supérfluas e passeios ociosos, como também de ouvir novidades e boatos, acharás tempo suficiente e adequado para te entregares a santas meditações. Os maiores santos evitavam, quando podiam, a companhia dos homens, preferindo viver com Deus, em retiro.



2. Disse alguém: "Sempre que estive entre os homens menos homem voltei" (Sêneca, Epist. 7). Isso experimentamos muitas vezes, quando falamos muito. Mais fácil é calar de todo, do que não tropeçar em alguma palavra. Mais fácil é ficar oculto em casa, que fora dela ter a necessária cautela. Quem, pois, pretende chegar à vida interior e espiritual, importa-lhe que se afaste da turba, com Jesus. Ninguém, sem perigo, se mostra em público, senão quem gosta de esconder-se. Ninguém seguramente fala, senão quem gosta de calar. Ninguém seguramente manda, senão o que perfeitamente aprendeu a obedecer.



3. Não pode haver alegria segura, sem o testemunho de boa consciência. Contudo, a segurança dos santos estava sempre misturada com o temor de Deus; nem eram menos cuidadosos e humildes em si mesmos, porque resplandeciam em grandes virtudes e graças. A segurança dos maus, porém, nasce da soberba e presunção, e acaba por enganar-se a si mesma.



Nunca te dês por seguro nesta vida, ainda que pareças bom religioso ou ermitão devoto. Muitas vezes os melhores no conceito dos homens correram graves perigos, por sua demasiada confiança. Por isso, para muitos é melhor não serem de todo livres de tentações, mas que sejam freqüentemente combatidos, para que não confiem demasiadamente em si, nem se exaltem com soberba, nem tampouco busquem com ânsia as consolações exteriores.

Oh! Quem nunca buscasse alegria transitória, nem deste mundo cuidasse, que consciência pura teria! Oh! Quem arredasse todo vão cuidado, para só cuidar das coisas salutares e divinas, pondo toda a sua confiança em Deus, de que grande paz e sossego gozaria!



4. Ninguém é digno da consolação celestial, senão quem se excitar, com diligência, na santa compunção. Se queres compungir-te de coração, entra em teu quarto, despede todo o bulício do mundo, conforme está escrito: Compungi vos em vossos cubículos (Sl 4,5). Na cela acharás o que fora dela muitas vezes perdes. A cela bem guardada causa doçura, e pouco freqüentada gera enfado. Se bem a guardares e habitares no princípio de tua conversão, ser-te-á depois querida companheira e suavíssimo consolo.



5. No silêncio e sossego faz progressos uma alma devota e aprende os segredos das Escrituras. Ali ela acha a fonte de lágrimas, com que todas as noites se lava e purifica, para tanto mais de perto unir-se ao Criador quanto mais retirada viver do tumulto do mundo. Aquele, pois, que se aparta de seus amigos e conhecidos verão aproximar-se Deus com seus santos anjos. Melhor é estar solitário e tratar de sua alma, que, descurando-a, fazer milagres. Merece louvor o religioso que raro sai, que foge de ser visto pelos homens e nem procura vê-los.



6. Para que queres ver o que não te é lícito possuir? Passa o mundo e a sua concupiscência (1Jo 2,17). A inclinação sensual convida a passeios; passada, porém, àquela hora, que nos fica senão consciência pesada e coração distraído? À saída alegre, muitas vezes sucede um regresso triste, e à véspera deleitosa uma triste manhã. Assim, todo gosto carnal entra suavemente; no fim, porém, remorde e mata. Que poderás ver alhures que aqui não vejas? Eis: aqui tens o céu, a terra e todos os elementos; e deles são feitas todas as coisas.



7. Que poderás ver, em parte alguma, estável debaixo do sol por muito tempo? Pensas talvez te satisfazer completamente? Pois não o conseguirás. Se visses diante de ti todas as coisas, que seria senão vã fantasia? Levanta os olhos a Deus nas alturas e pede perdão de teus pecados e negligências. Deixa as vaidades para os fúteis; tu, porém, atende ao que Deus te manda. Fecha atrás de ti a porta e chama a teu Jesus amado. Fica-te com ele em tua cela, porque tanta paz em outra parte não acharás. Se não tivesses saído, e escutado os rumores do mundo, melhor terias conservado a santa paz; enquanto folgares de ouvir novidades, terás que sofrer desassossego do coração.



Da compunção do coração



1. Se queres fazer algum progresso, conserva-te no temor de Deus e não busques demasiada liberdade; refreia, antes, todos os teus sentidos com a disciplina e não te entregues à vã alegria. Procura a compunção do coração e acharás a devoção. A compunção descobre tesouros, que a dissipação bem depressa costuma desperdiçar. É de estranhar que o homem jamais possa, nesta vida, gozar perfeita alegria, se considera seu exílio e pondera os muitos perigos de sua alma.



2. Pela leviandade do coração e pelo descuido dos nossos defeitos não percebemos os males de nossa alma; e muitas vezes, rimo-nos frivolamente, quando, com razão, devíamos chorar. Não há verdadeira liberdade nem perfeita alegria, sem o temor de Deus e Boa consciência. Ditoso aquele que pode apartar de si todo estorvo das distrações e recolher-se com santa compunção. Ditoso aquele que rejeita tudo que lhe possa manchar ou agravar a consciência. Peleja varonilmente: um costume com outro se vence.



3. Se souberes deixar os homens, eles te deixarão fazer tuas boas obras. Não te metas em coisas alheias, nem te impliques nos negócios dos grandes. Olha sempre primeiro para ti e admoesta-te com mais particularidade que a todos os teus amigos. Não te entristeça a falta dos humanos favores, mas penalize-te o não viveres com tanta cautela e prudência como convém a um servo de Deus e devoto religioso. Mais útil e mais seguro é para o homem não ter nesta vida muitas consolações, mormente sensíveis. Todavia, se não temos, ou raramente sentimos o consolo divino, a culpa é nossa, porque não procuramos a compunção do coração, nem rejeitamos de todo as vãs consolações exteriores.



4. Reconhece que és indigno da consolação divina, mas antes merecedor de muitas aflições. Quando um homem está perfeitamente compungido, logo se lhe torna enfadonho e amargo o mundo todo. O homem justo sempre acha bastante matéria para afligir-se e chorar. Pois, quer olhe para si, quer para o próximo, sabe que ninguém passa esta vida sem tribulações. E quanto mais atentamente se considera, tanto mais profunda é a sua dor. Matéria de justa mágoa e profundo pesar são nossos pecados e vícios, aos quais de tal sorte estamos presos, que raras vezes podemos contemplar as coisas do céu.



Se mais amiúdo pensasses na morte que numa vida de muitos anos, não há dúvida que tua emenda seria mais fervorosa. Se também meditasses seriamente nas penas futuras do inferno ou do purgatório, creio que sofrerias de bom grado trabalhos e dores, sem recear nenhuma austeridade. Mas, como estas coisas não nos penetram o coração e amamos ainda os regalos, ficamos frios e muito tíbios.



5. É muitas vezes pela fraqueza do espírito que este miserável corpo se queixa tão facilmente. Pede, pois, humildemente ao Senhor que te dê o espírito de compunção, e dize, com o profeta: Sustenta-me, Senhor, com o pão das lágrimas e a bebida copiosa do pranto (Sl 79,6).







Da consideração da miséria humana



1. Miserável serás, onde quer que estejas e para onde quer que te voltes, se não te voltares para Deus. Por que te afliges, quando não te correm as coisas a teu gosto e vontade? Quem é que tem tudo à medida de seu desejo? Nem eu, nem tu, nem homem algum sobre a terra. Ninguém há no mundo sem nenhuma tribulação ou angústia, quer seja rei quer Papa. Quem é que vive mais feliz? Aquele, de certo, que sabe sofrer alguma coisa por Deus.



2. Dizem muitos mesquinhos e tíbios: Olhai, que boa vida tem este homem: quão rico é, quão grande e poderoso, de que alta posição! Olha tu para os bens do céu, e verás que nada são os bens corporais, mas muito incertos e onerosos, pois nunca vive sem temor e cuidado quem os possui. Não consiste a felicidade do homem na abundância dos bens temporais; basta-lhe a mediania. O viver na terra é verdadeira miséria. Quanto mais espiritual quer ser o homem, mais amarga lhe será a vida presente, porque conhece melhor e mais claramente vê os defeitos da humana corrupção. Porque o comer, beber, velar, dormir, descansar, trabalhar e estar sujeito a todas as demais grandes misérias e aflições para o homem espiritual que deseja estar isento disto e livre de todo pecado.



3. Sim, muito oprimido se sente o homem interior com as necessidades corporais neste mundo. Por isto roga o profeta a Deus, devotamente, que o livre delas, dizendo: Livrai-me, Senhor, das minhas necessidades (Sl 24,17). Mas, ai daqueles que não conhecem a sua miséria, e, outra vez, ai daqueles que amam esta miserável e corruptível vida! Porque há alguns tão apegados a ela - posto que mal arranjem o necessário com o trabalho ou com a esmola - que, se pudessem viver aqui sempre, nada se lhes daria do reino de Deus.



4. Ó insensatos e duros de coração, que tão profundamente jazem apegados à terra, que não gostam senão das coisas carnais. Infelizes! Lá virá o tempo em que hão de sentir, muito a seu custo, como era vil e nulo aquilo que amaram. Os santos de Deus, e todos os fiéis amigos de Cristo, não tinham em conta o que agradava à carne nem o que neste mundo brilhava, mas toda a sua esperança e intenção se fixavam nos bens eternos. Todo o seu desejo se elevava para as coisas invisíveis e perenes, para que o amor do visível não se arrasta a desejar as coisas inferiores. Não percas, irmão meu, a confiança de fazer progressos na vida espiritual; ainda tens tempo e ocasião.



5. Por que queres adiar tua resolução? Levanta-te, começa já e dize: Agora é tempo de agir, agora é tempo de pelejar, agora é tempo próprio para me emendar. Quando estás atribulado e aflito, é tempo de merecer. Importa que passes por fogo e água, antes que chegues ao refrigério (Sl 65,12). Se não te fizeres violência, não vencerás os vícios. Enquanto estamos neste frágil corpo, não podemos estar sem pecado, nem viver sem enfado e dor. Bem quiséramos descanso de toda miséria; mas como pelo pecado perdemos a inocência, perdemos também a verdadeira felicidade. Por isso devemos ter paciência, e confiar na divina misericórdia, até que passe a iniqüidade (Sl 52,6), e a vida absorva esta mortalidade (2Cor 5,4).



6. Como é grande a fragilidade humana, inclinada sempre ao mal! Hoje confessas os teus pecados, e amanhã cometes outra vez os mesmos que confessaste. Resolves agora te acautelar, e daqui a uma hora de portas como quem nada se propôs. Com muita razão nos devemos humilhar e não nos ter em grande conta, já que tão frágeis somos e tão inconstantes. Assim, facilmente se pode perder pela negligência o que tanto nos custou a adquirir com a divina graça.



7. Que será de nós no fim, se já tão cedo somos tíbios? Ai de nós, se assim procuramos repouso, como se já estivéssemos em paz e segurança, quando nem sinal aparece em nossa vida de verdadeira santidade. Bem necessário nos fora que nos instruíssemos de novo, como bons noviços, nos bons costumes; talvez que assim houvesse esperança de alguma emenda futura e maior progresso espiritual.



Da meditação da morte



1. Mui depressa chegará teu fim neste mundo; vê, pois, como te preparas: hoje está vivo o homem, e amanhã já não existe. Entretanto, logo que se perdeu de vista, também se perderá da memória. Ó cegueira e dureza do coração humano, que só cuida do presente, sem olhar para o futuro!

De tal modo te deves haver em todas as tuas obras e pensamentos, como se fosse já a hora da morte. Se tivesses boa consciência não temerias muito a morte. Melhor fora evitar o pecado que fugir da morte. Se não estás preparado hoje, como o estarás amanhã? O dia de amanhã é incerto, e quem sabe se te será concedido?



2. Que nos aproveita vivermos muito tempo, quando tão pouco nos emendamos? Oh! nem sempre traz emenda a longa vida, senão que aumenta, muitas vezes, a culpa. Oxalá tivéssemos, um dia sequer, vivido bem neste mundo! Muitos contam os anos decorridos desde a sua conversão; freqüentemente, porém, é pouco o fruto da emenda. Se for tanto para temer o morrer, talvez seja ainda mais perigoso o viver muito.

Bem-aventurado aquele que medita sempre sobre a hora da morte, e para ela se dispõe cada dia. Se já viste alguém morrer, reflete que também tu passarás pelo mesmo caminho.



3. Pela manhã, pensa que não chegarás à noite, e à noite não te prometas o dia seguinte. Por isso anda sempre preparado e vive de tal modo que te não encontre a morte desprevenido. Muitos morrem repentina e inesperadamente; pois na hora em que menos se pensa, virá o Filho do Homem (Lc 12,40). Quando vier àquela hora derradeira, começarás a julgar mui diferentemente toda a tua vida passada, e doer-te-á muito teres sido tão negligente e remisso.



4. Quão feliz e prudente é aquele que procura ser em vida como deseja que o ache a morte. Pois o que dará grande confiança de morte abençoada é o perfeito desprezo do mundo, o desejo ardente do progresso na virtude, o amor à disciplina, o rigor na penitência, a prontidão na obediência, a renúncia de si mesmo e a paciência em sofrer, por amor de Cristo, qualquer adversidade. Mui fácil é praticar o bem enquanto estás são; mas, quando enfermo, não sei o que poderás. Poucos melhoram com a enfermidade; raro também se santificam os que andam em muitas peregrinações.



5. Não confies em parentes e amigos, nem proteles para mais tarde o negócio de tua salvação, porque mais depressa do que pensas te esquecerão os homens. Melhor é providenciar agora e fazer algo de bem, do que esperar pelo socorro dos outros. Se não cuidas de ti no presente, quem cuidará de ti no futuro? Mui precioso é o tempo presente: agora são os dias de salvação, agora é o tempo favorável (2Cor 6,2). Mas, ai! Que melhor não aproveitas o meio pelo qual podes merecer viver eternamente! Tempo virá de desejares, um dia, uma hora sequer, para a tua emenda, e não sei se a alcançarás.



6. Olha, meu caro irmão, de quantos perigos te poderias livrar e de quantos terrores fugir, se sempre andasses temeroso e desconfiado da morte.

Procura agora de tal modo viver, que na hora da morte te possas antes alegrar que temer. Aprende agora a desprezar tudo, para então poderes voar livremente a Cristo. Castiga agora teu corpo pela penitência, para que possas então ter legítima confiança.



7. Ó louco, que pensas viver muito tempo, quando não tens seguro nem um só dia! Quantos têm sido logrados e, de improviso, arrancados ao corpo! Quantas vezes ouviste contar: morreu este a espada; afogou-se aquele; este outro, caindo do alto, quebrou a cabeça; um morreu comendo, outro expirou jogando. Estes se terminaram pelo fogo, aqueles pelo ferro, uns pela peste, outros pelas mãos dos ladrões, e de todos é o fim a morte, e, depressa, qual sombra, acaba a vida do homem (Sl 143,4).



8. Quem se lembrará de ti depois da morte? E quem rogará por ti? Faze já, irmão caríssimo, quanto puderes; pois não sabes, quando morrerás nem o que te sucederá depois da morte. Enquanto tens tempo, ajunta riquezas imortais. Só cuida em tua salvação, ocupa-te só nas coisas de Deus. Granjeia agora amigos, venerando os santos de Deus e imitando suas obras, para que, ao saíres desta vida, te recebam nas eternas moradas (Lc 16,9).



9. Considera-te como hóspede e peregrino neste mundo, como se nada tivesses com os negócios da terra. Conserva livre teu coração, e erguido a Deus, porque não tens aqui morada permanente. Para lá dirige tuas preces e gemidos, cada dia, com lágrimas, a fim de que mereça tua alma, depois da morte, passar venturosamente ao Senhor. Amém.



Do juízo e das penas dos pecadores



1. Em todas as coisas olha o fim, e de que sorte estarás diante do severo Juiz a quem nada é oculto, que não se deixa aplacar com dádivas, nem aceita desculpas, mas que julgará segundo a justiça. Ó misérrimo e insensato pecador! Que responderás a Deus, que conhece todos os teus crimes, se, às vezes, te amedronta até o olhar dum homem irado? Por que não te acautelas para o dia do juízo, quando ninguém poderá ser desculpado ou defendido por outrem, mas cada um terá assaz que fazer por si? Agora o teu trabalho é frutuoso, o teu pranto aceito, o teu gemer ouvido, satisfatória a tua contrição.



2. Grande e salutar purgatório tem nesta vida o homem paciente: se, injuriado, mas se dói da maldade alheia, que da ofensa própria; se, de boa vontade, roga por seus adversários, e de todo o coração perdoa os agravos; se não tarda em pedir perdão aos outros; se mais facilmente se compadece do que se irrita; se constantemente faz violência a si mesmo, e se esforça por submeter de todo a carne ao espírito. Melhor é expiar já os pecados e extirpar os vícios, que adiar a expiação para mais tarde. Com efeito, nós enganamos a nós mesmos pelo amor desordenado que temos à carne.



3. Que outra coisa há de devorar aquele fogo senão os teus pecados? Quanto mais te poupas agora e segues a carne, tanto mais cruel será depois o tormento e tanto mais lenha ajuntas para a fogueira. Naquilo em que o homem mais pecou, será mais gravemente castigado. Ali os preguiçosos serão incitados por aguilhões ardentes, e os gulosos serão atormentados por violenta fome e sede. Os impudicos e voluptuosos serão banhados em pez ardente e fétido enxofre, e os invejosos uivarão de dor, à semelhança de cães furiosos.



4. Não há vício que não tenha o seu tormento especial. Ali, os soberbos serão acabrunhados de profunda confusão, e os avarentos oprimidos com extrema penúria. Ali será mais cruel uma hora de suplício do que cem anos aqui da mais rigorosa penitência. Ali não há descanso nem consolação para os condenados, enquanto aqui, às vezes, cessa o trabalho e nos consolam os amigos.

Relembra agora e chora teus pecados, para que no dia do juízo estejas seguro entre os escolhidos. Pois erguer-se-ão, naquele dia, os justos com grande força contra aqueles que os oprimiram e desprezaram (Sb 5,1). Então se levantará, para julgar, Aquele que agora se curvou humildemente ao juízo dos homens. Então terá muita confiança o pobre e o humilde, mas o soberbo estremecerá de pavor.



5. Então se verá que foi sábio, neste mundo, quem aprendeu a ser louco e desprezado, por amor de Cristo. Então dará prazer toda tribulação, sofrida com paciência, e a iniqüidade não abrirá a sua boca (Sl 106,42). Então se alegrarão todos os piedosos e se entristecerão todos os ímpios.

Então mais exultará a carne mortificada, que se fora sempre nutrida em delícias. Então brilhará o hábito grosseiro e desbotarão as vestimentas preciosas. Então terá mais apreço o pobre tugúrio que o dourado palácio. Mais valerá a paciente constância que todo o poderio do mundo. Mais será engrandecida a singela obediência que toda a sagacidade do século.



6. Mais satisfação dará a pura e boa consciência que a douta filosofia. Mais valerá o desprezo das riquezas que todos os tesouros da terra. Mais te consolará a lembrança duma devota oração que a de inúmeros banquetes. Mais folgarás de ter guardado silêncio, do que de ter falado muito. Mais valor terão as boas obras que as lindas palavras. Mais agradará a vida austera e árdua penitência que todos os gozos terrenos.

Aprende agora a padecer um pouco, para poupar-te mais graves sofrimentos no futuro. Experimenta agora o que podes sofrer mais tarde. Se não podes agora sofrer tão pouca coisa, como suportarás os eternos suplícios? Se tanto te repugna o menor incômodo, que te fará então o inferno? Certo é que não podes fruir dois gozos: deleitar-se neste mundo, e depois reinar com Cristo.



7. Se até hoje tivesses vivido sempre em honras e delícias, que te aproveitaria isso se tivesses que morrer neste instante? Logo, tudo é vaidade, exceto amar a Deus e só a ele servir. Pois quem ama a Deus, de todo o coração, não teme nem a morte, nem o castigo, nem o juízo, nem o inferno, porque o perfeito amor dá seguro acesso a Deus. Mas quem ainda se delicia no pecado, não é de estranhar que tema a morte e o juízo. Todavia, é bom que, se do mal não te aparta o amor, te refreie ao menos o temor do inferno. Aquele, porém, que despreza o temor de Deus, não poderá por muito tempo perseverar no bem, e depressa cairá nos laços do demônio.



Da diligente emenda de toda a nossa vida



1. Sê vigilante e diligente no serviço de Deus, e pergunta-te a miúdo: a que vieste, para que deixaste o mundo? Não será para viver por Deus e tornar-te homem espiritual? Trilha, pois, com fervor o caminho da perfeição, porque em breve receberás o prêmio dos teus trabalhos; nem te afligirão, daí por diante, temores nem dores. Agora, terás algum trabalho; mas depois acharás grande repouso e perpétua alegria. Se tu permaneceres fiel e diligente no seu serviço, Deus, sem dúvida, será fiel e generoso no prêmio. Conserva a firme esperança de alcançar a palma; não cries, porém segurança, para não caíres em tibieza ou presunção.



2. Certo homem que vacilava muitas vezes, ansioso, entre o temor e a esperança, estando um dia acabrunhado pela tristeza, entrou numa igreja, e diante dum altar, prostrado em oração, dizia consigo mesmo: Oh! se eu soubesse que havia de perseverar! E logo ouviu em si a divina respostas: Se tal soubesses, que farias? Faze já o que então fizeras, e estarás bem seguro. Consolado imediatamente, e confortado, abandonou-se à divina vontade, e cessou a ansiosa perplexidade. Desistiu da curiosa indagação acerca do seu futuro aplicando-se antes em conhecer qual fosse a vontade e o perfeito agrado de Deus para começar e acabar qualquer boa obra.



Espera no Senhor e faze boas obras, diz o profeta, habita na terra e serás apascentado com suas riquezas (Sl 36,3). Há uma coisa que esfria em muitos o fervor do progresso e zelo da emenda: o horror da dificuldade ou o trabalho da peleja. Certo é que, mais que os outros, aproveitam nas virtudes aqueles que com maior empenho se esmeram em vencer a si mesmos naquilo que lhes é mais penoso e contrariam mais suas inclinações. Porque tanto mais aproveita o homem, e mais copiosa graça merece, quanto mais se vence a si mesmo e se mortifica no espírito.



Não custa igualmente a todos se vencer e mortificar-se. Todavia, o homem diligente e porfioso fará mais progressos, ainda que seja combatido por muitas paixões, que outro de melhor índole, porém menos fervoroso em adquirir as virtudes. Dois meios, principalmente, ajudam muito a nossa emenda, e vêm a ser: apartar-se valorosamente das coisas às quais viciosamente se inclina a natureza, e porfiar em adquirir a virtude de que mais se há mister. Aplica-te também a evitar e vencer o que mais te desagrada nos outros.



3. Procura tirar proveito de tudo: se vês ou ouves relatar bons exemplos, anima-te logo a imitá-los; mas, se reparares em alguma coisa repreensível, guarda-te de fazê-la, e, se em igual falta caíste, procura emendar-te logo dela. Assim como tu observas os outros, também eles te observam a ti. Que alegria e gosto ver irmãos cheios de fervor e piedade, bem acostumados e morigerados! Que tristeza, porém, e aflição, vê-los andar desnorteados e descuidados dos exercícios de sua vocação! Que prejuízo descurar os deveres do estado e aplicar-se ao que Deus não exige!



4. Lembra-te da resolução que tomaste, e põe diante de ti a imagem de Jesus crucificado. Com razão te envergonharás, considerando a vida de Jesus Cristo, pois até agora tão pouco procuraste conformar-te com ela, estando há tanto tempo no caminho de Deus. O religioso que, com solicitude e fervor, se exercita na santíssima vida e paixão do Senhor, achará nela com abundância tudo quanto lhe é útil e necessário, e escusará buscar coisa melhor fora de Jesus. Oh! se entrasse em nosso coração Jesus crucificado, quão depressa e perfeitamente seríamos instruídos!



5. O religioso cheio de fervor tudo suporta de boa vontade e executa o que lhe mandam. O relaxado e tíbio, porém, encontra tribulação sobre tribulação, sofrendo de toda parte angústias: é que ele carece da consolação interior e lhe é vedado buscar a exterior. O religioso que transgride a regra anda exposto a grande ruína. Quem busca a vida cômoda e menos austera, sempre estará em angústias, porque uma ou outra coisa sempre lhe desagrada.



6. Que fazem tantos outros religiosos que guardam a austera disciplina do claustro? Raro saem, vivem retirados, sua comida é parca, seu hábito grosseiro, trabalham muito, falam pouco, vigiam até tarde, levantam-se cedo, rezam muito, lêem com freqüência e conservam-se em toda a observância. Olha como os cartuxos, os cistercienses, e os monges e monjas das diversas ordens se levantam todas as noites para louvar o Senhor. Vergonha, pois, seria, se tu fosses preguiçoso em obra tão santa, quando tamanha multidão de religiosos entoa a divina salmodia.



7. Oh! se nada mais tivesses que fazer senão louvar a Deus Nosso Senhor de coração e boca! Oh! se nunca precisares comer, nem beber, nem dormir, mas sempre pudesses atender aos louvores de Deus e aos exercícios espirituais! Então serias muito mais ditoso do que agora, sujeito a tantas exigências do corpo! Oxalá não existissem tais necessidades, mas houvesse só aquelas refeições que - ai! – tão raro gozamos!



8. Quando o homem chega ao ponto de não buscar sua consolação em nenhuma criatura, só então começa a gostar perfeitamente de Deus, e anda contente, aconteça o que acontecer. Então não se alegra pela abundância, nem se entristece pela penúria, mas confia inteira e fielmente em Deus, que lhe é tudo em todas as coisas, para quem nada perece nem morre, mas por quem vivem todas as coisas e a cujo aceno, com prontidão, obedecem.



9. Lembra-te sempre do fim, e que o tempo perdido não volta. Sem empenho e diligência, jamais alcançarás as virtudes. Se começares a ser tíbio, logo te inquietarás. Se, porém, procurares afervorar-te, acharás grande paz e sentirás mais leve o trabalho com a graça de Deus e o amor da virtude. O homem fervoroso e diligente está preparado para tudo. Mais penoso é resistir aos vícios e às paixões que afadigar-se em trabalhos corporais. Quem não evita os pequenos defeitos pouco a pouco cai nos grandes. Alegrar-te-ás sempre à noite, se tiveres empregado bem o dia. Vigia sobre ti, anima-te e admoesta-te e, vivam os outros como vivem, não te descuides de ti mesmo. Tanto mais aproveitarás, quanto maior for a violência que te fizeres. Amém.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Fioretti de São Francisco; capítulos 40, 41, 42, 43, 44, 45.




Capítulo 40
Do milagre que Deus fez quando S. Antonio, estando em Rímini, pregou aos peixes do mar

Querendo Cristo bendito demonstrar a grande santidade do seu fidelíssimo servo S. Antônio, e como devotamente devia ser ouvida sua pregação e sua doutrina santa, pelos animais irracionais, uma vez entre outras, isto é, pelos peixes, repreendeu a insensatez dos infiéis heréticos, como antigamente no Antigo Testamento, pela boca da jumenta, repreendera a ignorância de Balaão.

Pelo que, estando uma vez S. Antônio em Rímini, onde havia grande multidão de heréticos, querendo reduzi-los ao lume da verdadeira fé e ao caminho da verdade, por muitos dias lhes pregou e disputou sobre a fé cristã e a santa Escritura: no entanto eles não consentindo em suas santas palavras, e mesmo como endurecidos e obstinados não querendo ouvilo, S. Antônio um dia por divina inspiração dirigiu-se à foz do rio, junto do mar, e estando assim na praia entre o mar e o rio, começou a dizer a modo de prédica, da parte de Deus, aos peixes: "Ouvi a palavra de Deus, vós, peixes do mar e do rio, pois que os infiéis heréticos esquivam-se de ouvi-la". E dito que foi, subitamente aproximou-se dele na praia tal multidão de peixes grandes, pequenos e médios, como nunca naquele mar e naquele rio foi vista outra multidão tão grande, e todos tinham a cabeça fora da água e todos estavam atentos para a face de S. Antônio e todos em grandíssima paz e mansuetude e ordem: porque na frente e mais perto da praia estavam os peixinhos menores e atrás deles estavam os peixes médios; depois ainda mais atrás, onde era a água mais profunda, estavam os peixes maiores.

Estando pois em tal ordem e disposição colocados os peixes, S. Antônio começou a pregar solenemente e a dizer assim: "Meus irmãos peixes, muito obrigados estais, segundo a vossa possibilidade, de agradecer ao vosso Criador que vos deu tão nobre elemento para vossa habitação, porque, como for do vosso agrado, tendes água doce e salgada; deu-vos muitos refúgios para fugirdes das tempestades; deu-vos ainda elemento claro e transparente e cibo pelo qual podeis viver. Deus vosso Criador cortês e benigno, quando vos criou, deu-vos como mandamento de crescerdes e multiplicardes, e deu-vos a sua bênção; pois, quando foi do dilúvio geral, todos os outros animais morrendo, a vós somente Deus conservou sem dano. E ainda vos deu barbatanas para irdes aonde for do vosso agrado.

A vós foi concedido por ordem de Deus conservar Jonas e depois do terceiro dia lançá-lo em terra são e salvo. Oferecestes o censo a Nosso Senhor Jesus Cristo, o qual como pobrezinho não tinha com que pagar. Depois servistes de alimento ao eterno rei Jesus Cristo antes e depois da ressurreição, por singular mistério. Pelas quais coisas todos muito deveis louvar e bendizer a Deus que vos deu tantos e tais benefícios, mais do que às outras criaturas". A tais e semelhantes palavras e ensinamentos de S. Antônio começaram os peixes a abrir as bocas e inclinar as cabeças e com estes e outros sinais de reverência, segundo o modo que puderam, louvaram a Deus.

Então S. Antônio, vendo tanta reverência dos peixes para com Deus Criador, rejubilando-se em espírito, em alta voz disse: "Bendito seja Deus eterno, porque mais o honram os peixes aquáticos do que os homens heréticos e melhor escutam a sua palavra os animais do que os homens infiéis". E tanto S. Antônio mais pregava quanto a multidão dos peixes mais crescia e nenhum se partia do lugar que ocupara. A este milagre começou a acorrer o povo da cidade, vieram mesmo os sobreditos heréticos. Os quais, vendo milagre tão maravilhoso e manifesto, compungidos em seus corações, todos se lançaram aos pés de S. Antônio para ouvir-lhe a prédica.

Então S. Antônio começou a pregar sobre a fé católica, e tão nobremente pregou, que todos aqueles hereges converteu e os fez voltar à verdadeira fé cristã; e todos os fiéis ficaram com grandíssima alegria confortados e fortificados na fé. E feito isto S. Antônio despediu os peixes com a bênção de Deus e todos se partiram com maravilhosos atos de alegria e do mesmo modo o povo.

E depois S. Antônio esteve em Rímini por muitos dias pregando e fazendo muito fruto espiritual de almas.

Em louvor de Cristo. Amém.

Capítulo 41
Como o venerável Frei Simão livrou de uma grande tentação um frade,
o qual por esta razão queria sair fora da Ordem

No princípio da Ordem, vivendo S. Francisco, veio à Ordem um jovem de Assis, o qual foi chamado Frei Simão, ao qual Deus adornou e dotou de tanta graça, e de tanta contemplação e elevação de mente, que toda a sua vida era um espelho de santidade, segundo ouvi dos que por muito tempo estiveram com ele. Este raríssimas vezes era visto fora da cela e, se algumas vezes estava com os irmãos, sempre falava de Deus.

Nunca tinha aprendido gramática e no entanto tão profundamente e tão altamente falava de Deus e do amor de Cristo, que as suas palavras pareciam palavras sobrenaturais. Pelo que numa tarde, tendo ido à floresta com Frei Tiago de Massa para falar de Deus e falando dulcissimamente do divino amor, esteve toda a noite naquele falar; e pela manhã lhes parecia ter passado pouquíssimo tempo segundo me narrou o dito Frei Tiago. E o dito Frei Simão tinha em tanta suavidade e doçura do Espírito Santo as divinas iluminações e visitas de Deus, que freqüentes vezes, quando as sentia vir, deitava-se no leito; porque a tranqüila suavidade do Espírito Santo requeria dele não somente o repouso da mente, mas também o do corpo.

E nestas tais visitas divinas ele era muitas vezes arroubado em Deus e ficava todo insensível às coisas corporais. E uma vez em que estava assim arroubado em Deus e insensível ao mundo, ardia dentro do divino amor e não sentia nada de fora com os sentimentos corporais; um frade, querendo fazer experiência e ver se era como parecia, foi e levou um carvão em brasa e lho pôs no pé nu; e Frei Simão nada sentiu e não ficou com sinal nenhum no pé, não obstante ter estado aí por muito tempo e ter-se apagado por si mesmo.

O dito Frei Simão, quando se punha à mesa, antes de tomar o cibo corporal, tomava para si e dava o cibo espiritual, falando de Deus. Por cujo devoto falar se converteu uma vez um jovem de S. Severino, o qual era no século um jovem vaníssimo e mundano e era nobre de sangue e multo delicado de corpo. E Frei Simão, recebendo o dito jovem na Ordem, guardou consigo as suas vestes seculares; e ele estava com Frei Simão para ser instruído nas observâncias regulares. Pelo que o demônio, o qual procura estropiar todo bem, pôs sobre ele tão forte aguilhão e tão ardente tentação da carne, que por nenhum modo ele podia resistir.

Pela qual coisa ele se foi a Frei Simão e disse-lhe: "Restitui-me as vestes que trouxe do século, porque eu não posso mais suportar a tentação carnal". E Frei Simão, tendo grande compaixão dele, disse-lhe: "Assenta-te, filho, aqui um pouco comigo". E começou a lhe falar de Deus de forma que toda a tentação se partiu; e depois de certo tempo voltando a tentação, ele pedindo-lhe as vestes, Frei Simão a repelia com o falar de Deus.

E isto acontecendo muitas vezes, finalmente uma noite o assaltou tão forte a dita tentação, mais do que soía, que por coisa nenhuma deste mundo não podendo resistir foi-se a Frei Simão, pedindo-lhe por tudo as vestes seculares, porque de modo nenhum podia ficar. Então Frei Simão, como costumava, o fez sentar-se ao seu lado e falando-lhe de Deus, o jovem encostou a cabeça no peito de Frei Simão por melancolia e tristeza. Então Frei Simão, pela grande compaixão que dele tinha, levantou os olhos ao céu e rogando a Deus devotíssimamente por ele, foi arrebatado e ouvido de Deus; pelo que, voltando ele a si, o jovem sentiu-se de todo livre daquela tentação como se nunca a tivesse sentido. Sendo assim mudado o ardor da tentação em ardor do Espírito Santo, porque ele se havia encostado ao carvão aceso, isto é, a Frei Simão, inflamou-se todo no amor de Deus e do próximo; de tal modo que, tendo sido preso uma vez um malfeitor a quem deviam tirar ambos os olhos, ele por compaixão se dirigiu ousadamente ao reitor em pleno conselho e com muitas lágrimas e orações devotas pediu que lhe tirassem um olho e ao malfeitor outro, para que ele não fosse totalmente privado da vista.

Mas vendo o reitor com o conselho o grande fervor da caridade daquele frade, perdoou a um e a outro. Estando um dia o dito Frei Simão na floresta em oração e sentindo grande consolação na alma, um bando de gralhas com o seu gritar começou a distraí-lo: pelo que ele ordenou em nome de Deus que deviam partir e não mais tornar.

E partindo-se então os ditos pássaros, dora em diante não mais foram vistos nem ouvidos, nem ali nem nos arredores. E este milagre foi manifestado a toda a custódia de Fermo, na qual estava o dito convento.

Em louvor de Cristo. Amém.

Capítulo 42
Dos belos milagres que Deus fez pelos santos frades, Frei Bentivoglio,
e Frei Pedro de Monticello e Frei Conrado de Offida:
e corno Frei Bentivoglio carregou um leproso por quinze milhas em pouquíssimo tempo,
e ao outro falou S. Miguel e ao outro veio a Virgem Maria e colocou-lhe o filho nos braços

A província da Marca de Ancona foi antigamente, do mesmo modo que o céu de estrelas, adornada de santos e exemplares frades; os quais, como luminárias do céu, iluminaram e adornaram a Ordem de S. Francisco e o mundo com exemplos e com doutrina.

Entre outros foi em primeiro lugar Frei Lúcido, o antigo, o qual foi verdadeiramente luzente de santidade e ardente pela caridade divina; cuja maravilhosa lingua informada pelo Espirito Santo fazia maravilhosos frutos de pregação. Um outro foi Frei Bentivoglio de S. Severino, o qual foi visto por Frei Masseo ser levantado no ar por muito tempo, estando ele em oração na floresta; pelo qual milagre o dito Frei Masseo, sendo então pároco, deixou a paróquia e fez-se frade menor; e foi de tanta santidade que fez muitos milagres na vida e na morte, e seu corpo repousa em Murro. O sobredito Frei Bentivoglio, vivendo uma vez sozinho em Trave Bonanti, para vigiar e servir a um leproso, tendo ordem do prelado para sair dali e ir a um outro lugar, distante quinze milhas, não querendo abandonar o leproso, com grande fervor de caridade tomou-o e carregou-o nos ombros e levou-o da aurora ao sol poente, por toda aquela estrada de quinze milhas até ao dito lugar aonde fora mandado, que se chamava Monte Sancino.

A qual viagem, se ele fosse águia, não teria podido em tão pouco tempo voar; e por este divino milagre houve grande assombro e admiração em todo aquele pais. Um outro foi Frei Pedro de Monticello, o qual foi visto por Frei Servodeo de Urbino (então seu guardião no antigo convento de Ancona), levantado da terra corporalmente cinco ou seis braços até aos pés do Crucifixo, diante do qual estava em oração.

Este Frei Pedro, jejuando uma vez na Quaresma de S. Miguel Arcanjo com grande devoção, e no último dia daquela Quaresma estando na igreja em oração, foi ouvido por um frade jovem o qual de propósito estava escondido sob o altar-mor para ver algum ato de sua santidade) a falar com S. Miguel Arcanjo, e as palavras que eles diziam eram estas.

Dizia S. Miguel: "Frei Pedro, tu te hás afadigado fielmente por mim e de muitos modos tens afligido teu corpo: eis, vim consolar-te, para que peças a graça que quiseres e eu a impetre de Deus". Respondeu Frei Pedro: "Santíssimo príncipe da milícia celestial e fidelíssimo zelador do amor divino e piedoso protetor das almas, peço-te a graça de impetrares a Deus o perdão dos meus pecados".

Respondeu S. Miguel: "Pede outra graça, que esta alcançarei facilmente para ti". E Frei Pedro não pedindo mais nada, o arcanjo concluiu: "Eu, pela fé e devoção que tens em mim, obterei para ti esta graça e outras muitas". Acabada a conversação, a qual durou muito tempo, o arcanjo S. Miguel partiu-se, deixando-o sumamente consolado.

No tempo deste Frei Pedro santo existiu o santo Frei Conrado de Offida, os quais estando juntos em família no convento de Forano, da custódia de Ancona, o dito Frei Conrado foi um dia à floresta para a contemplação de Deus, e Frei Pedro secretamente seguiu atrás dele para ver o que advinha; e Frei Conrado começou a estar em oração e rogar devotíssimamente à Virgem Maria com grande pranto que ela lhe obtivesse a graça do seu bendito filho, para que ele sentisse aquela doçura que sentiu S. Simeão no dia da Purificação, quando tomou aos braços Jesus salvador bendito. E feita esta oração, a misericordiosa Virgem Maria o atendeu, e eis que apareceu a rainha do céu com seu filho bendito no braço com grandíssima claridade de luz; e, aproximando-se de Frei Conrado, pôs-lhe no braço aquele bendito filho, o qual devotíssimamente recebendo e abraçando e beijando e cingindo ao peito, todo se derretia e consumia em amor divino e inexplicável consolação: e Frei Pedro semelhantemente, o qual escondido via tudo, sentia na alma grandíssima doçura e consolação.

E partindo-se a Virgem Maria de Frei Conrado, Frei Pedro às pressas voltou ao convento para não ser visto por ele: mas depois, quando Frei Conrado voltava todo alegre e jucundo, disse-lhe Frei Pedro: "Ó célico, grande consolação tiveste hoje".

Disse Frei Conrado: "Que é que dizes, Frei Pedro? Que sabes do que me aconteceu?" "Bem sei, bem sei, dizia Frei Pedro, como a Virgem Maria com o seu bendito filho te visitou". Então Frei Conrado, o qual, com verdadeira humildade, desejava estar em segredo nas graças de Deus, pediu-lhe que não dissesse a ninguém. E foi tão grande o amor daquela hora em diante entre os dois, que pareciam ter em todas as coisas uma mesma alma e um mesmo coração. E o dito Frei Conrado uma vez, no convento de Sirolo, com as suas orações livrou uma mulher possessa orando por ela toda a noite e aparecendo à sua mãe, e pela manhã fugiu para não ser encontrado e honrado pelo povo.

Em louvor de Cristo. Amém.

Capítulo 43
Como Frei Conrado de Offida converteu um jovem frade que molestava os outros frades.
E como o dito frade jovem, tendo morrido, apareceu ao dito Frei Conrado, pedindo que rezasse por ele, e como o livrou por suas orações das penas grandíssimas do purgatório

O dito Frei Conrado de Offida, admirável zelador da pobreza evangélica e da Regra de S. Francisco, foi de tão religiosa vida e de tanto mérito para com Deus, que Cristo bendito em vida e na morte o honrou com muitos milagres; entre os quais uma vez tendo ido como forasteiro ao convento de Offida, os frades pediram-lhe pelo amor de Deus e da caridade que admoestasse um frade jovem que havia naquele convento, o qual procedia tão infantilmente e desordenadamente que perturbava Os velhos e os jovens daquela família, e do oficio divino e das outras regulares observâncias pouco ou nada se importava.

Pelo que Frei Conrado, por compaixão daquele jovem e pelos pedidos dos frades, chamou à parte o dito jovem e com fervor de caridade lhe disse tão eficazes e devotas palavras de admoestação, que com a operação da divina graça ele subitamente se mudou de moço em velho de costumes e tão obediente e benigno e solicito e devoto, e ainda tão pacífico e serviçal, e tão cuidadoso para com todas as coisas de virtude, que, como primeiramente toda a família vivia perturbada por ele, assim depois todos estavam contentes e consolados e grandemente o amavam. Adveio, como aprouve a Deus, que poucos dias depois desta conversão o dito jovem morreu; do que os ditos frades muito se lamentaram, e poucos dias depois da morte sua alma apareceu a Frei Conrado, estando ele devotamente em oração, diante do altar do dito convento, e o saudou devotamente como a seu pai; e Frei Conrado lhe perguntou: «Quem és?" Respondeu: "Eu sou a alma daquele frade jovem que morreu há dias".

E Frei Conrado: "Ó filho caríssimo, que é feito de ti?" Respondeu ele: ' Pela graça de Deus e pela vossa doutrina vou bem, porque não estou danado: mas por certos pecados meus, os quais não tive tempo de purgar suficientemente, suporto grandíssimas penas no purgatório: mas te peço, pai, que, como por tua piedade me socorreste quando eu era vivo, assim agora queiras socorrer-me nas minhas penas, dizendo por mim algum painosso, porque a tua oração é muito aceita de Deus".

Então Frei Conrado, consentindo benignamente no pedido e dizendo por ele uma vez o pai-nosso com requiem aeternam, disse aquela alma: "Ó pai caríssimo, quanto bem e quanto refrigério eu sinto! Peço-te que o digas uma outra vez". E Frei Conrado disse e, dito que foi, disse a alma: "Santo pai, quando tu rezas por mim, sinto-me todo aliviado; pelo que te peço que não cesses de rezar por mim"- Então Frei Conrado, vendo que aquela alma era tão ajudada pelas suas orações, disse por ela cem pai-nossos e tendo terminado, disse aquela alma: "Agradeço-te, pai caríssimo, da parte de Deus pela caridade que tiveste comigo; porque pelas tuas orações estou livre de todas as penas e me vou ao reino celestial".

E dito isto partiu aquela alma. Então Frei Conrado, para dar alegria e conforto aos frades, lhes contou por ordem toda aquela visão.

Em louvor de Cristo bendito. Amém.

Capítulo 44
Como a Frei Conrado apareceu a mãe de Cristo e S. João Evangelista e S. Francisco;
e lhe disseram qual deles sofreu maior dor da paixão de Cristo

No tempo em que moravam juntos na custódia de Ancona, no convento de Forano, os sobreditos Frei Conrado e Frei Pedro os quais eram duas luzentes estrelas na província da Marca e dois homens celestiais); entre os dois havia tanto amor e tanta caridade, que parecia terem ambos o mesmo coração e uma mesma alma, e se ligaram por este pacto, que qualquer consolação que a misericórdia de Deus lhes desse, deviam revelar um ao outro por caridade.

Firmado entre ambos este pacto, sucedeu que um dia estando Frei Pedro em oração e pensando devotamente na paixão de Cristo, e como a Beatíssima Mãe de Cristo e S. João, diletíssimo discípulo, e S. Francisco estivessem pintados ao pé da cruz, pela dor mental crucificados com Cristo, teve ele o desejo de saber qual dos três tinha sofrido dor maior com a paixão de Cristo; se a mãe, que o tinha gerado, ou o discípulo, o qual havia dormido sobre o peito, ou S. Francisco, que com ele estava crucificado.

E permanecendo nesse devoto pensamento, aparece-lhe a Virgem Maria com S. João Evangelista e com S. Francisco, vestidos de nobilíssimas vestes de glória bem-aventurada; mas S. Francisco parecia vestido de vestes mais belas do que S. João.

E estando Frei Pedro todo espantado com esta visão, S. João o confortou e disse-lhe: "Não temas, caríssimo irmão, pois vimos consolar-te e esclarecer a tua dúvida. Sabe, pois, que a mãe de Cristo e eu sobre todas as criaturas sofremos com a paixão de Cristo; mas depois de nós S. Francisco teve dor maior do que outro qualquer; e por isso tu o vês com tanta glória". E Frei Pedro perguntou-lhe: "Santíssimo apóstolo de Cristo, por que a veste de S. Francisco parece mais bela do que a tua?" Respondeu S. João: "A razão é esta; porque, quando ele estava no mundo, trouxe consigo vestes mais vis do que eu".

E ditas estas palavras, S. João deu a Frei Pedro uma veste gloriosa, a qual nas mãos trazia, e disse: "Toma esta veste a qual trouxe para te dar". E querendo S. João vesti-lo com aquela veste, Frei Pedro estupefato caiu no chão e começou a gritar: "Frei Conrado, Frei Conrado caríssimo, socorre-me depressa; vem ver coisas maravilhosas".

E com estas palavras aquela santa visão desapareceu.

Depois, vindo Frei Conrado, ele lhe contou ordenadamente todas as coisas e agradeceram a Deus.

Capítulo 45
Da conversão e vida e milagres e morte do santo Frei João da Pena

Frei João da Pena, sendo menino e escolar na província da Marca, uma noite lhe apareceu um menino belíssimo e chamou-o dizendo-lhe: "João, vai a S. Estêvão, onde prega um dos frades menores, em cuja doutrina crê e a cujas palavras atende, porque lá o mandei.

E feito isto, tens de fazer uma grande viagem e depois voltaras a mim". Pelo que imediatamente se levantou e sentiu grande mudança na alma, e foi a S. Estêvão e achou uma grande multidão de homens e mulheres que foram ouvir a prédica. E quem devia pregar era um frade que tinha o nome de Frei Filipe, o qual era um dos primeiros frades que tinham vindo à Marca de Ancona (e ainda poucos conventos havia na Marca) - Sobe ao púlpito Frei Filipe para pregar e prega devotíssimamente, não com palavras de sapiência humana, mas em virtude do espírito de Cristo, anunciando o reino da vida eterna.

E terminada a prédica, o dito menino aproximou-se do dito Frei Filipe e disse-lhe: "Pai, se vos aprouver receber-me na Ordem, eu de boa vontade farei penitência e servirei a Nosso Senhor Jesus Cristo". Vendo Frei Filipe e percebendo no dito menino uma maravilhosa inocência e pronta vontade de servir a Deus, disse-lhe: "Vai ter comigo tal dia a Ricanati e farei que te recebam; no qual convento se deve reunir capítulo provincial». Pelo que o menino, o qual era puríssimo, pensou que esta fosse a grande viagem que devia fazer segundo a revelação que lhe fora feita, e depois ir-se ao paraíso; e assim acreditava suceder logo que fosse recebido na Ordem.

Lá foi e o receberam; e vendo que seu pensamento não se realizava então, dizendo o ministro em capítulo que todo aquele que quisesse ir à província da Provença, pelo mérito da santa obediência, ele de boa vontade dava licença, veio-lhe grande vontade de ir, pensando em seu coração que fosse aquela a grande viagem que tinha de fazer, antes que fosse ao paraíso. Mas envergonhando-se de dizê-lo, confiando finalmente no dito Frei Filipe, o qual o tinha feito receber na Ordem, pediu-lhe com instância que lhe obtivesse a graça de ir à província da Provença. Então Frei Filipe, vendo a sua pureza e sua santa intenção, obteve-lhe a licença: pelo que Frei João com grande letícia pôs-se a andar tendo a opinião de que, terminada a viagem, iria ao paraíso.

Mas, pela vontade de Deus, viveu na dita província vinte e cinco anos nesta expectação e desejo, vivendo em grandíssima honestidade e santidade e exemplaridade, crescendo sempre em virtude e em graça de Deus e do povo, e era sumamente amado pelos irmãos e os seculares - E estando um dia Frei João devotamente em oração, e chorando e lamentando-se porque o seu desejo não se realizava e a sua peregrinação por esta vida muito se prolongava, apareceu-lhe Cristo bendito, a cujo aspecto sua alma ficou toda liqüefeita, e lhe disse: "Filho Frei João, pede-me o que quiseres". E ele respondeu: "Senhor meu, não sei o que te pedir senão a ti mesmo, não desejo nenhuma outra coisa: mas isto só te peço, que perdoes todos os meus pecados e me concedas a graça de te ver outra vez, quando tiver maior necessidade".

Disse Jesus: "Atendida foi a tua oração"; e dito isto se partiu, e Frei João ficou todo consolado. Por fim, ouvindo os frades da Marca a fama de sua santidade, tanto fizeram com o geral, que ele lhe enviou a obediência de voltar à Marca.

A qual obediência recebendo alegremente, pôs-se em caminho, pensando que, terminando-o, deveria ir ao céu segundo a promessa de Cristo. Mas voltado que foi à província da Marca, nela viveu trinta anos sem ser reconhecido por nenhum parente e em cada dia esperava que a misericórdia de Deus lhe realizasse a promessa. E durante esse tempo exerceu diversas vezes o cargo de guardião com grande discrição, e Deus operou por ele muitos milagres. E entre outros dons que ele teve de Deus, teve o espírito de profecia: pelo que uma vez, andando por fora do convento, um seu noviço foi combatido pelo demônio e tão fortemente tentado, que, consentindo na tentação, deliberou consigo mesmo sair da Ordem logo que Frei João voltasse.

A qual tentação e deliberação conhecendo Frei João por espírito de profecia, imediatamente voltou a casa e chamou a si o dito noviço e disse que queria que ele se confessasse. Mas antes de confessá-lo contou-lhe por ordem toda a sua tentação, conforme Deus lhe havia revelado e concluiu: "Filho, porque esperaste e não quiseste partir sem a minha bênção, Deus te fez a graça de que jamais desta Ordem sairás, mas morrerás na Ordem com a graça divina». Então o dito noviço foi confirmado em boa vontade e, ficando na Ordem, tornou-se um santo frade: e todas estas coisas me foram por ele contadas a mim Frei Hugolino.

O dito Frei João, o qual era um homem alegre e calmo e raras vezes falava, e era um homem de grande oração e devoção, e especialmente após Matinas não mais voltava à cela e ficava na igreja até ao amanhecer em oração, estando ele uma noite após Matinas em oração, apareceu-lhe o anjo de Deus e disse-lhe: "Frei João, está concluída a tua viagem, a qual por tanto tempo esperaste, e por isso anuncio da parte de Deus que peças a graça que quiseres. E ainda te anuncio que escolhas o que preferes, um dia de purgatório ou sete de sofrimento neste mundo". E preferindo Frei João os sete dias de sofrimento neste mundo, subitamente enfermou de diversas enfermidades; pelo que o acometeu a febre forte, e a gota nas mãos e nos pés e dores nas costas e muitos outros males.

Mas o que lhe fazia mais tormentos era que o demônio estava em sua frente e tinha na mão um grande papel em que estavam escritos todos os pecados que ele tinha cometido ou pensado; e lhe dizia: "Por estes pecados que cometeste com o pensamento e a língua e com as obras serás danado nas profundas do inferno". E ele não se recordava de bem algum que tivesse feito, nem que estivesse na Ordem nem que nunca nela tivesse estado; mas sim pensava de estar danado como o demônio lhe dizia. De modo que, quando lhe perguntavam como estava, respondia: "Estou mal, porque estou danado".

Isto vendo, os frades mandaram vir um frade velho por nome Frei Mateus de Monte Rubiano, o qual era um santo homem e grande amigo de Frei João. Chegou o dito Frei Mateus junto dele no sétimo dia da tribulação e o saudou e perguntou-lhe como estava. Respondeu-lhe que estava mal, porque estava danado. Então disse Frei Mateus: "Ora, não te recordas de que muitas vezes te confessaste comigo e inteiramente te absolvi de todos os teus pecados? Não te lembras mais que serviste a Deus nesta santa Ordem por muitos anos? Depois, não te recordas que a misericórdia de Deus excede a todos os pecados do mundo e que Cristo bendito nosso Salvador pagou, para nos resgatar, um preço infinito? E por isso tem boa esperança que por certo serás salvo".

E com este falar, porque havia chegado ao termo de sua purgação, foi-se a tentação e veio a consolação. E com grande letícia disse a Frei Mateus: "Porque te fatigaste e a hora é tarda, peço-te que te vás repousar". E Frei Mateus não o queria deixar, mas por fim, pela grande instância dele, deixou-o e foi repousar: e Frei João ficou sozinho com o frade que o servia. E eis Cristo bendito vem com grandíssimo esplendor e com excessiva suavidade de perfume, segundo havia prometido aparecer-lhe outra vez quando maior precisão tivesse dele e assim o sarou perfeitamente de toda enfermidade.

Então Frei João com as mãos juntas, agradecendo a Deus que com ótimo fim terminara sua viagem da presente mísera vida, nas mãos de Cristo bendito recomendou e entregou sua alma, passando desta vida mortal à eterna com Cristo bendito, o qual havia por tanto tempo desejado e esperado.

E repousa o dito Frei João no convento da Pena de S. João.

Em louvor de Cristo. Amém.

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