terça-feira, 30 de julho de 2013

Carta Encíclica Mens Nostra, sobre os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, pelo Papa Pio XI.


Carta Encíclica Mens Nostra, sobre os Exercícios Espirituais

Publicado em mar 6, 2013 em Documentos do Magistério, Doutrina Católica, Escritos e Conferências, Todos os artigos do site

Aos Veneráveis Irmãos, Patriarcas, Primazes, Arcebispos, Bispos e outros Ordinários dos lugares em paz e união com a Sé Apostólica: acerca da necessidade de fomentar a prática dos Exercícios Espirituais.

PIO PAPA XI

Veneráveis Irmãos, Saúde e Bênção Apostólica.

INTRODUÇÃO

Fim do jubileu concedido

1. Nenhum de vós certamente ignora, Veneráveis Irmãos, qual tenha sido o Nosso pensamento e intenção, quando no princípio do ano anunciamos a todo o Orbe Católico um Jubileu extraordinário, para celebrar o 50° aniversário do dia, em que recebida a Ordenação Sacerdotal, oferecemos pela primeira vez o Santo Sacrifício do altar. Como solenemente declaramos na Constituição Apostólica “Auspicantibus Nobis”, expedida a 6 de Janeiro de 1929, sentimo-Nos levados a tomar tal resolução só para que os nossos queridos filhos, a imensa família cristã, confiada pelo Coração benigníssimo ao Nosso Coração, fossem chamados a tomar parte na alegria do Pai comum, e em união de espírito dessem reconhecidos conosco as graças ao Dispensador Supremo de todos os bens. Fizemo-lo também porque Nos sorria mais que tudo a esperança, de que ao serem franqueados com paterna liberalidade os tesouros dos dons celestes, de que fomos constituídos dispensadores, o povo cristão se aproveitaria deste feliz ensejo, para robustecer a fé, aumentar a piedade e perfeição, e emendar os costumes particulares e públicos, em conformidade com as normas do Evangelho. E de tudo isto se deveria esperar, como fruto copiosíssimo da paz e do perdão impetrado de Deus, a paz dos indivíduos e da sociedade.



Frutos do jubileu realizado

2. E não se viu frustrada esta Nossa esperança. Com efeito, o entusiasmo religioso que se ateou no povo cristão ao receber a promulgação do jubileu, longe de arrefecer com o decorrer do tempo, vimo-lo ganhar cada dia maior vigor, também por especial auxílio de Deus. A Ele se devem estes acontecimentos, que hão-de perpetuar pelos séculos vindouros a memória deste ano, verdadeiramente salutar. Por nossa parte, recebemos abundantes motivos de alegria, pois observamos em grande parte com Nossos próprios olhos este notável incremento de fé e piedade, e desfrutamos da presença de um grande número de filhos queridos, aos quais pudemos gozosos acolher no Nosso Palácio, e com todo amor estreitar, por assim dizer, ao coração.

3. Hoje, ao manifestarmos com maior fervor ao Pai das Misericórdias o Nosso reconhecimento, por se ter dignado semear, amadurecer e colher no decurso deste ano jubilar tantos e tão grandes frutos na sua vinha, sentimo-Nos levados e impelidos pela solicitude pastoral a procurar que no futuro estes frutos, desabrochados de começos tão prometedores, vão sempre em aumento, e sejam perduráveis para felicidade e salvação dos indivíduos, e por conseguinte de toda a sociedade.



Como conservar o fruto do jubileu

4. E pensando Nós sobre o meio e modo de conservar frutos tão excelentes, veio-Nos à lembrança o Nosso predecessor de feliz memória, Leão XIII, o qual promulgando noutra ocasião o Ano Santo, com gravíssimas palavras, que na citada constituição “Auspicantibus Nobis” fizemos Nossas, exortou a todos os fiéis a “que se recolhessem por algum tempo e levantassem a coisas melhores os pensamentos mergulhados na terra” (Encícl. “Quod auctoritate”, 22 de Dez. 1885. “Acta Leonis XIII”, vol. II, pág. 175, ss). Ocorreu-nos também que o Nosso Predecessor Pio X, de santa memória, incansável promotor da santidade sacerdotal, dirigiu ao clero católico, por ocasião do 50° aniversário da sua ordenação de presbítero, uma Exortação (Exhortatio ad clerum Catholicum “Haerent animo”, 4 de Agosto 1908; Acta Sanctae Sedis, vol. XLI, p. 555-557) cheia de preciosas e escolhidas máximas, suficientes para levantar o edifício da vida espiritual a altura nada vulgar.



Para isto recomenda-se a prática dos Exercícios Espirituais

5. Seguindo na esteira destes Pontífices, pareceu-Nos oportuno fazer alguma coisa no mesmo sentido: recomendamos, pois, uma obra excelente, da qual esperamos resultarão para o povo fiel muitíssimas e preciosas vantagens. Referimo-Nos à prática dos Exercícios Espirituais, que ardentemente desejamos se promova e difunda cada dia mais, não só entre um e outro clero, mas ainda nas fileiras dos leigos seculares católicos. Será esta uma como lembrança do ano jubilar que deixamos a Nossos caros filhos; e por este motivo o fazemos com maior gosto, ao terminar o 50º ano da Nossa Ordenação Sacerdotal.

6. Nada, com efeito, Nos pode ser mais grato do que recordar as graças celestes e as consolações indizíveis que tantas vezes experimentamos ao fazer os Exercícios Espirituais; a assiduidade com que Nos entregamos a estes santos retiros, que foram outros tantos degraus com que assinalamos as várias fases da Nossa carreira sacerdotal; as luzes e estímulos que deles tiramos para conhecer e cumprir a vontade de Deus; finalmente o trabalho que durante todo o percurso do Nosso Ministério de sacerdote neles empregamos para instruir os fiéis nas coisas do céu, com grande fruto e proveito extraordinário, tudo nos levou à persuasão justificada de que os Exercícios Espirituais são um auxílio especial para a salvação eterna das almas.



I. IMPORTÂNCIA, OPORTUNIDADE E UTILIDADE DOS EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS

Sobretudo em nossos dias

7. Com efeito, Veneráveis Irmãos, sob muitos aspectos se revela a importância, oportunidade e utilidade dos Santos Exercícios, a quem quer que refletir, embora de leve, nos tempos em que vivemos. A doença mais grave de que enferma o nosso século, doença que é ao mesmo tempo manancial fecundo dos males que todas as pessoas sensatas lamentam, é a frivolidade e falta de consideração, que extravia e desencaminha os homens. Daqui provém a contínua e veemente dissipação pelas coisas exteriores; daqui a insaciável cobiça de riquezas e prazeres. Com esta dissipação e cobiça pouco a pouco se vai enfraquecendo e extinguindo nas almas o desejo de bens mais nobres, e os homens vão-se deste modo enredando com coisas terrenas e caducas, a tal ponto que deixam de pensar nas verdades eternas, nas leis divinas, e até no próprio Deus, único princípio e fim de todas as coisas. Apesar disso, e por mais que a perversidade de costumes alastre por toda parte, continua ainda assim N. S. por sua infinita bondade e misericórdia a atrair a Si os homens com abundantíssima cópia de graças. Para curar, pois, a humanidade duma doença que tão gravemente a aflige, que remédio e alívio pudéramos propor mais apto, do que convidarmos estas almas enfraquecidas e descuidadas das verdades eternas, a recolherem-se piedosamente nos Exercícios Espirituais?

8. E, de fato, não haverá ninguém que não conceda poderem-se tirar dos Exercícios Espirituais vantagens nada medíocres ainda que eles não passassem de um breve retiro dalguns dias, em que o homem afastado do trato social e da multiplicidade dos negócios, tivesse ensejo de empregar este tempo, não em descanso inútil, mas em ponderar questões tão graves que jamais deixaram de ocupar profundamente o gênero humano, acerca da sua origem e do seu fim, “de onde vem e para onde vai”.



Para a formação do homem

9. Maiores, porém, são os bens que nos trazem estes retiros piedosos: porque ao obrigarem a inteligência humana a trabalhar por inquirir com maior empenho e examinar com maior diligência os próprios pensamentos, palavras e ações, aperfeiçoam e auxiliam admiravelmente as faculdades do homem; de sorte que, nesta insigne escola de espírito, a mente habitua-se a tudo pesar com tento e verdadeiro equilíbrio; a vontade robustece-se fortemente; as paixões sujeitam-se ao governo da razão; a atividade humana unida à reflexão ajusta-se com eficácia a uma norma e regra fixa; finalmente a alma inteira alcança a sua nobreza e excelência nativa, como declara o Papa S. Gregório, no seu livro “Pastoral” (P. L., t. 77, col. 73), com uma elegante metáfora: “A alma humana é como a água: que represada sobe ao alto, pois torna ao sítio donde veio; mas solta perde-se, porque se espalha inutilmente sobre a terra”.

10. Além disso, quando a alma se exercita em meditações espirituais, não só, como sabiamente adverte S. Euquério, Bispo de Leão (De Laud. Erem.; P. L., t. 50, col. 70), “recebe do silêncio um certo estímulo cheio de alegria no Senhor, que a fortifica com inefáveis comunicações”, mas também se sente convidada pela liberalidade de Deus “àquele celeste alimento” de que fala Lactâncio, quando diz: “não há manjar mais saboroso para a alma do que conhecer a verdade” (De fals. relig., lib. I, cap. 1; P. L., t. 6, col. 118). Nestas meditações espirituais, conforme a sentença de certo autor antigo, que por muito tempo se cuidou ser S. Basílio Magno, “frequenta-se uma escola de doutrina celeste, e de formação nas ciências divinas” (De laude sol. vit.; opera omnia, Venet. 1751, t. 2, p. 379), em que “Deus é tudo quanto se aprende, o caminho por onde se avança, e o complexo dos meios para chegar ao conhecimento da Suprema Verdade” (ibid.). Claramente se infere daqui a eficácia principal dos Exercícios, não só para aperfeiçoar as nossas potências materiais, como também, e sobretudo para formar o homem sobrenatural ou cristão.

Num tempo em que os genuínos sentimentos de Cristo e o espírito sobrenatural — essência única da nossa santa Religião — se vêem cercados de tantos impedimentos e obstáculos, provenientes do naturalismo dominante, que debilita a firmeza na fé e extingue as chamas da caridade cristã, é de suma conveniência subtrair-se o homem a essa fascinação da “frivolidade” que “obscurece o bem” (Sab 4, 12) e retirar-se a um feliz remanso. Ali, guiado por celeste magistério, saberá avaliar justamente e apreciar a vida humana, que só no serviço de Deus se deve empregar; sentirá horror à baixeza do pecado, conceberá um santo temor de Deus, verá com toda clareza e sem véu a vaidade das coisas humanas; alentado com os exemplos e conselhos d’Aquele que é “caminho, verdade e vida” (Jo 14, 6), despojar-se-á do homem velho (Rom 13, 14), abnegar-se-á a si mesmo, e acompanhado da humildade, da obediência e da penitência voluntária, vestir-se-á de Cristo, esforçando-se por atingir o “homem perfeito” e a acabada “medida da idade plena de Cristo” (Ef 4, 13) de que nos fala o Apóstolo. Mais. Empenhar-se-á com toda a alma por poder também repetir com o mesmo Apóstolo: “Vivendo, não sou eu quem vive, mas é Cristo que vive em mim” (Gál 2, 20).

11. É, sem dúvida, por estes degraus que a alma sobe a uma perfeição consumada e auxiliada com a graça divina se une dulcissimamente com Deus. Ora, estes auxílios alcança-os ela com maior abundância durante esses dias, por meio da oração mais assídua e pela recepção mais frequente e devota dos Sacramentos. Bens são estes, Veneráveis Irmãos, verdadeiramente singulares e extraordinários; bens que excedem em muito a natureza, e em cuja posse reside unicamente o descanso, a felicidade e a paz verdadeira; bens a que a alma humana aspira sequiosamente. E são ainda estes bens que o próprio mundo moderno procura, no meio do tumulto e turbilhão da vida, quando, arrebatado pela febre das seduções, vai buscando com avidez, mas em vão, bens caducos e incertos. Pelo contrário, para conseguir aos homens a paz e levá-los à santidade, conhecemos perfeitamente a eficácia admirável contida nos Exercícios Espirituais, o que aliás se prova pela longa experiência dos séculos passados e mais claramente ainda pela dos tempos atuais. São, com efeito, quase inumeráveis os que devidamente formados no sagrado retiro dos Exercícios saíram “radicados e sobreedificados” (Col 2, 7) em Cristo, cheios de luz, repletos de gozo, e inundados daquela paz, que “excede toda a compreensão” (Filip 4, 7).



Para a formação do apóstolo

12. Mas é coisa averiguada trazerem consigo os Exercícios Espirituais esta perfeição da vida cristã. Com ela, porém, dimana deles como que espontaneamente, além da paz interior da alma, outro ponto singularíssimo que magnificamente redunda em não pequena vantagem da causa social, e é o zelo de ganhar almas para Cristo que se costuma denominar espírito apostólico. E na verdade a consequência natural da caridade é que a alma do justo em que Deus habita pela graça se abrase maravilhosamente no desejo de que os outros venham a ter parte no conhecimento e amor que ela já alcançou e possui. Ora, nestes nossos tempos em que a sociedade humana tanto necessita de socorros espirituais, quando as regiões longínquas das missões “que já lourejam para a messe” (Jo 4, 35) exigem dia a dia cuidado proporcional à falta de apóstolos, quando os nossos próprios países estão pedindo falanges escolhidas de um e outro clero, que sejam idôneos dispensadores dos mistérios de Deus, e esquadrões compactos de seculares virtuosos, que unidos em estreita intimidade com o Apostolado hierárquico, o ajudem com a sua atividade e zelo, dedicando-se às múltiplas obras e trabalhos da “Ação Católica”, Nós, Veneráveis Irmãos, instruídos na escola da história, proclamamos e temos o santo retiro dos Exercícios como Cenáculos, que o poder de Deus levantou para que as almas generosas, apoiadas no socorro da graça divina, esclarecidas à luz das verdades eternas, e animadas pelos exemplos de Cristo, não só venham a conhecer de uma maneira clara o preço das almas, e se inflamem no desejo de as ajudar em qualquer estado de vida, em que depois de diligente exame entendam dever servir ao seu Criador, mas também aprendam qual seja o ardor e quais as indústrias, os trabalhos e as ações valorosas do apostolado cristão.



II. OS EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS NA HISTÓRIA ECLESIÁSTICA

Nos começos da Igreja

13. Afinal foi este o método que N. Senhor seguiu na formação dos mensageiros do Evangelho. Com efeito, o mesmo Divino Mestre, não se contentando com os longos anos de escondimento na casa de Nazaré quis passar quarenta dias inteiros no mais apartado ermo antes de mostrar às nações o pleno esplendor do seu brilho e antes de lhes ensinar de palavra a sua doutrina celeste. Mais ainda. Em plena atividade Evangélica costumava de vez em quando convidar os Apóstolos ao silêncio benfazejo do retiro: “vinde apartai-vos para o deserto, a descansar um pouco” (Mc 6, 31). E quando se ausentou desta terra de trabalhos para o céu, quis que os seus Apóstolos e discípulos recebessem a última perfeição no Cenáculo de Jerusalém, onde por espaço de dez dias “perseverando concordes na oração” (At 1, 14) se tornassem dignos de receber o Espírito Santo. Retiro verdadeiramente memorável, e primeiro esboço de Exercícios Espirituais. Dele saiu a Igreja, cheia de força e perpétuo vigor; nele com a presença da Virgem Maria, Mãe de Deus, e assistidos do seu valiosíssimo patrocínio, se formaram juntamente com os Apóstolos, aqueles que com toda a razão se poderiam chamar os precursores da Ação Católica. A partir desse dia a prática dos Exercícios Espirituais, embora não tivesse o nome e o método de que hoje em dia nos servimos, pelo menos na substância “tornou-se familiar entre os primeiros cristãos”. Assim o afirmou S. Francisco de Sales (Traité de 1’Amour de Dieu, lib. 12, c. 8) e no-lo indicam testemunhos evidentes, que se encontram nas obras dos Santos Padres. S. Jerónimo, por exemplo, exortava a nobre Matrona Celância: “Escolhei um lugar acomodado e longe do estrépito da família, aonde como a porto seguro vos possais acolher. Aí seja tal o gosto da leitura dos livros divinos, tão frequentes os tempos de oração, tão assídua a meditação sobre os novíssimos do homem, que com este repouso compenseis as ocupações do resto do tempo. Não pretendemos com estas palavras apartar-vos dos vossos; procuramos sim que aprendais ali e mediteis como proceder com eles” (P. L., t. 22, col. 1216).

14. Contemporâneo de S. Jerónimo, o bispo de Ravena, S. Pedro Crisólogo, dirigia a todos os fiéis aquele tão conhecido convite: “Demos o espaço de um ano ao corpo; demos à alma alguns dias… Vivamos um pouco para Deus, já que para o século vivemos inteiramente… Ressoe a nossos ouvidos a voz de Deus; não seja perturbada a nossa atenção pelo ruído das ocupações domésticas… Assim armados, irmãos, assim prevenidos, declaremos guerra ao pecado… seguros da vitória” (P. L., t. 52, col. 186).



Na Idade Média

15. Decorria o tempo, e não cessavam os homens de sentir esta ânsia da solidão tranquila, onde sem testemunhas a alma atendesse às coisas divinas. Mais ainda. É um fato comprovado que quanto mais borrascosos correm os tempos para a sociedade humana, tanto maior é a veemência com que o Espírito Santo atrai para a solidão os homens, sequiosos de justiça e verdade, “a fim de que, libertados dos apetites do corpo, possam mais frequentemente dar-se à divina sabedoria no recolhimento dos espírito, e nele, abafado o estrépito dos cuidados terrenos, se alegrem em santas meditações e eternas delícias” (S. Leão Magno, sermo 19; P. L., t. 54, col. 186).



S. Inácio de Loiola

16. Depois de a Providência de Deus ter suscitado já na sua Igreja muitos varões, enriquecidos com abundância de dons sobrenaturais e insignes como diretores abalizados da vida espiritual, os quais prescreveram sábias normas e propuseram métodos excelentes de ascética, extraídos não só da revelação divina, mas ainda da experiência própria, e da prática dos séculos prece¬dentes, apareceram também por disposição da mesma divina Providência e por meio do grande servo de Deus, Inácio de Loiola, os Exercícios Espirituais propriamente ditos; “tesouro”, assim os apelidava o célebre Ludovico Blósio, venerável religioso da Ordem de S. Bento, cujas palavras cita Santo Afonso Maria de Ligório, na tão bela carta “sobre a prática dos Exercícios na solidão”, “tesouro que Deus patenteou à sua Igreja nestes últimos tempos, e pelo qual Lhe devemos especiais ações de graças” (Opere Ascet.; Marietti 1897, vol. 3, p. 616).



S. Carlos Borromeu

17. Imediatamente se espalhou pela Igreja a fama destes Exercícios Espirituais, aos quais foi buscar estímulo para correr com mais brio pela senda da perfeição entre outros muitos o venerável e por tantos títulos de nós muito querido S. Carlos Borromeu. Foi ele, como já noutra ocasião tivemos ensejo de lembrar, “quem divulgou a sua prática pelo clero e pelo povo” (Const. Apost. Summorum Pontificum; AAS., vol. 14 (1922), p. 421), e com seu prestígio e zelosa solicitude, não só os enriqueceu de regras e diretórios sumamente apropriados, mas chegou até a fundar uma casa, em que os homens exclusivamente se dessem aos Exercícios de S. Inácio. A essa casa deu ele o nome de “Asceterium”: e, que Nós saibamos, deve ser ela contada a primeira entre tantas outras, que mais tarde, numa feliz imitação, se construíram por toda parte.



Casas especiais para exercitantes

18. Foi com efeito crescendo dia a dia pela Igreja o apreço dos Exercícios, multiplicando-se maravilhosamente o número destas casas; dir-se-iam verdadeiras estalagens tão oportunamente levantadas no árido deserto da vida, onde os fiéis de ambos os sexos se acolhessem sós a descansar e refazer as forças com o alimento espiritual. Realmente, após a desumana tragédia da guerra, com a profunda perturbação social que originou, após tantas feridas de que saiu lesada a prosperidade espiritual dos povos, é incalculável o número daqueles que, ao verem arruinadas e desfeitas tantas ilusões como fomentavam, conheceram com evidência que os bens terrestres se devem sacrificar aos eternos, e com este conhecimento e com o auxílio eficacíssimo do Espírito Santo, voaram a buscar a paz da própria alma nos santos retiros.

19. Sirvam de prova bem patente todos os que se recolheram a essas casas de santidade depois de serem ou atraídos pela beleza dum estado mais perfeito e santo, ou sacudidos pelas tempestades perigosas do século, ou levados pelas preocupações da vida, ou enganados pelas fraudes e falácias do mundo, ou envenenados pela atmosfera pestilenta do racionalismo, ou seduzidos pelos prazeres sensuais. Nelas com tanto maior prazer tornaram a saborear o descanso da solidão, quanto mais pesados tinham sido os trabalhos porque passaram. E relembrando as verdades celestes, adaptaram a sua vida à doutrina sobrenatural.



III. OS EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS PARA AS VÁRIAS CLASSES DE HOMENS

20. Portanto cheios de gozo íntimo e intensa alegria por este excelente movimento de piedade, persuadidos que é no seu desenvolvimento que se encontra o remédio e defesa mais eficaz contra os males que nos assoberbam, estamos resolvidos a secundar, quanto esteja em Nossa mão, os desígnios amorosos da Divina Bondade, não seja caso que este íntimo convite inspirado pelo Espírito Santo às almas dos homens, fique sem a desejável abundância de frutos celestiais.



Para a Cúria do Papa

21. E é maior o gosto com que o fizemos, ao considerar que já assim procederam os Nossos Predecessores. Muito tempo há, com efeito, que esta Sé Apostólica, depois de recomendar de palavra os Exercícios Espirituais, ensina o mesmo com seu exemplo e autoridade a todos os fiéis, ao transformar de vez em quando por alguns dias o Palácio do Vaticano em Cenáculo de meditação e oração. Costume é este que Nós, não sem grande alegria e consolação espiritual, continuamos espontaneamente. E para que esta consolação e alegria se nos proporcionem a Nós e a todos os que de mais perto nos tratam, satisfazendo aos seus próprios desejos, já desde agora demos as disposições necessárias para que todos os anos se façam os Exercícios Espirituais neste nosso palácio.



Para os Bispos

22. Bem sabemos, Veneráveis irmãos, o apreço em que tendes também Vós os Exercícios Espirituais. Fizeste-los antes de receberdes as Ordens Sagradas, fizeste-los, antes de vos ser conferida a plenitude do sacerdócio. E de tempos a tempos, não poucas vezes à frente do vosso clero, oportunamente convocado, a eles vos acolhestes para refazer a vossa alma com a contemplação das verdades celestes. Belo procedimento por certo, que merece da Nossa parte público e merecido elogio. Nem é menor o louvor que se deve a alguns Bispos da Igreja tanto oriental como ocidental, os quais sabemos que se reúnem por vezes com o seu Metropolita ou Patriarca em piedoso retiro, adaptado ao seu ofício e obrigações. Exemplo verdadeiramente feliz, que esperamos seja imitado, quanto o permitam as circunstâncias, e propagado cuidadosamente. Para isto não é tão grande a dificuldade que se terá de superar, se tais retiros se fizerem por ocasião das reuniões, em que todos os Bispos duma Província Eclesiástica por dever de ofício se juntam, já para atender à salvação das almas em geral, já para deliberar sobre os assuntos, que as condições dos nossos tempos mais reclamam. Era isto o que Nós pensávamos levar a cabo com todos os Bispos de Lombardia, no brevíssimo tempo que empunhamos o leme da Igreja de Milão, e sem dúvida o teríamos realizado no primeiro ano do Nosso governo se os secretos desígnios da Divina Providência não determinassem outra coisa acerca da Nossa humilde pessoa.



Para os sacerdotes e religiosos

23. Portanto com razão nos persuadimos, que os sacerdotes e religiosos que há muito tempo se anteciparam neste ponto à lei eclesiástica, frequentando os Exercícios Espirituais com empenho digno de louvor, empregarão para o futuro, com maior diligência ainda, este meio de santificação, visto que a isto estão mais gravemente obrigados pela autoridade dos Sagrados Cânones.

24. Por isto é que instantemente exortamos aos sacerdotes do clero secular, que se mostrem fiéis em praticar os Exercícios Espirituais, pelo menos na pequena medida prescrita pelo Código de Direito Canónico (cânon 126). Entrem neles com ardente desejo de perfeição, para alcançarem aquela intensidade de espírito sobrenatural que lhes é sumamente necessária, para promover o aproveitamento espiritual da grei que lhes foi confiada e a fim de granjearem para Cristo abundantes despojos na conquista das almas. Este foi o caminho seguido de todos os Sacerdotes, que, abrasados no zelo de salvar almas, se assinalaram na direção do próximo pela senda da santidade e na formação do clero.

25. É o que se pode ver, para citar um exemplo recente, em José Cafasso, a quem Nós mesmos elevamos às honras dos Bem-aventurados. Foi sempre costume deste varão tão santo dedicar-se assiduamente aos Exercícios Espirituais, para fomentar com eles mais eficazmente a santidade em si e nos outros membros de Cristo e conhecer os desígnios celestes. Deste modo, ao sair uma vez dos Santos Exercícios, enriquecido com luz divina, indicou claramente a um sacerdote ainda jovem, de quem era confessor, o caminho que devia seguir; caminho que o devia levar até às mais altas culminâncias da virtude: aludimos ao B. João Bosco, cujo nome excede todo o elogio.

26.Porém os que militam, seja sob que nome for, nos claustros da disciplina religiosa, já que todos os anos por lei (C. D. C, cân. 595, § 1) têm de fazer os Santos Exercícios, tirarão indubitavelmente destes sagrados retiros grande abundância de bens celestes e com eles poderão adquirir conforme as próprias necessidades alentos de maior perfeição, e todos os recursos convenientes para seguir com maior vigor pelo caminho dos conselhos evangélicos. É que os Exercícios anuais são mística “árvore da vida” (Ap 2, 7), com a qual tanto os indivíduos como as comunidades conservarão viçosa a fama de santidade, que é mister floresça em qualquer casa religiosa.

27. Nem julguem os Sacerdotes de um e outro clero que é perdido para o apostolado o tempo consagrado aos Exercícios Espirituais. Ouçam a S. Bernardo (De Consid., lib. I, cap. 5; P. L., t. 182, col. 734) que, escrevendo ao que fora seu discípulo, e era então Sumo Pontífice, o Beato Eugênio III, não hesitava afirmar: “Se queres ser tudo para todos, louvo esses sentimentos de humanidade, contanto que não sejam mutilados; mas como o não hão-de ser, se tu mesmo te excluis? Também tu és homem. Logo para que tais sentimentos sejam inteiros e completos, hão-de também compreender-te a ti, no seio que a todos acolhe. De outro modo, de que serviria ganhar a todos, se te viesses a perder? Por isso, quando todos te possuem, sê tu também um dos possuidores. Procura, se não sempre, senão frequentemente, ao menos de quando em quando, restituir-te a ti mesmo”.



Para os seculares da Ação Católica

28. Não é menor a solicitude que nos leva a aconselhar que se formem duma maneira apropriada nos Exercícios Espirituais, as numerosas coortes da Ação Católica, a qual não cessamos e nem cessaremos de recomendar e fomentar, com todas as nossas forças, visto ser ela participação utilíssima, para não dizer necessária, dos seculares no apostolado hierárquico. Nem achamos palavras bastantes para exprimir a alegria especial que se apoderou de Nós, ao sabermos que quase por toda a parte se organizavam turnos especiais de Exercícios destinados a formar estes pacíficos e valorosos soldados de Cristo, sobretudo os batalhões dos mais novos, que em grande número acorrem aos sobreditos Exercícios, a fim de melhor se adestrarem para combater os santos combates do Senhor. Ali encontram não só forças para realizar em si com mais perfeição o ideal da vida cristã, mas ouvem também não poucas vezes em seu coração a voz misteriosa de Deus, a chamá-los para os mistérios sagrados, a convidá-los para ajudar na conquista das almas, e até a impeli-los a exercer plenamente o apostolado. Aurora esplêndida de bens celestiais é esta, a qual será brevemente seguida e sobrepujada dum pleno meio-dia, contanto que a prática dos Exercícios Espirituais mais se difunda, e se propague com prudente perícia entre as várias associações católicas, sobretudo de jovens.



Para todas as associações humanas

29. Num tempo em que os bens temporários, com o consequente bem-estar material, se estendem em certa abundância aos operários e jornaleiros, levando-os assim a uma vida mais desafogada, foi providencial disposição da bondade e misericórdia de Deus tornar mais acessível ainda ao comum dos fiéis o tesouro celeste dos Exercícios Espirituais. Servirão de contrapeso que preserve o homem de cair tristemente no materialismo teórico e prático, para que o estão impelindo as vaidades que o arrastam e as comodidades e delícias da vida em que está engolfado. É por este motivo que justificadamente incitamos e favorecemos as obras “Pró-exercitiis” que se estão multiplicando já nalguns países e bem assim os “exercícios para operários” com as associações anexas de “perseverança”, extraordinariamente frutuosas. Todas estas obras, Veneráveis Irmãos, as encomendamos à vossa diligência e solicitude pastoral.



IV. COMO FAZER OS EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS

30. Mas para que estes frutos consoladores derivem dos santos Exercícios, é mister praticá-los com a devida diligência, porque se eles se fazem rotineiramente, com frouxidão e desleixo, pouco ou nenhum fruto produzem.



Solidão e sossego quanto aos cuidados exteriores

31. É necessário, antes de mais nada, que a alma se aplique às meditações retirada na solidão, isto é, apartada dos cuidados e solicitudes da vida ordinária, pois como ensina claramente o áureo livrinho da Imitação de Cristo (1. I, c. 20, 6): “no silêncio e sossego é que a alma devota adianta na perfeição”. Portanto ainda que julgamos certamente dignas de louvor e de serem promovidas com toda a solicitude pastoral, essas meditações, propostas em público a multidões numerosas, visto que Deus as enche de tantas bênçãos, contudo insistimos dum modo particular nos Exercícios Espirituais feitos em particular e que se chamam “retiros fechados”. Neles o homem com maior facilidade se aparta do trato das criaturas, e recolhe o espírito dissipado, para atender só a si e a Deus, pela contemplação das verdades eternas.



Espaço de tempo conveniente

32. Além disso os verdadeiros Exercícios Espirituais requerem que se empregue neles algum espaço de tempo. É certo que este tempo se pode reduzir a poucos dias, ou estender-se a um mês inteiro conforme as circunstâncias e as pessoas; contudo se alguém deseja tirar as vantagens que prometem os Exercícios, não os deve abreviar demasiado. Assim como o clima sadio dum lugar só aproveita à saúde corporal quando nele se permanece por algum tempo, assim também a arte salutar das meditações sagradas não é eficazmente profícua ao espírito, se não se pratica por algum tempo.



Seguir o melhor método

33. Por fim, é de suma importância para fazer bem e frutuosamente os Exercícios Espirituais praticá-los segundo um método sábio e apropriado. Ora, é sabido que entre todos os métodos de Exercícios Espirituais, fundados louvavelmente nos princípios de uma ascética sã e católica, houve um que se avantajou entre todos os mais, foi enriquecido com plenas e repetidas aprovações da Santa Sé, recebeu os elogios de varões exímios pela doutrina espiritual e santidade, e obteve, quase pelo espaço de quatro séculos, grandes frutos de santidade. Referimo-Nos ao método, introduzido por Santo Inácio de Loiola, a quem Nos apraz chamar o mestre principal e especializado nos Santos Exercícios, cujo “admirável livro dos Exercícios” (Brev. Rom., in festo S. Ign. (31 Jul., lect. 4) pequeno no tamanho mas cheio de sabedoria celeste foi solenemente aprovado, louvado e recomendado pelo Nosso predecessor de boa memória Paulo III (Litter. Apost. “Pastoralis officii”, 31 Jul. 1548); e desde então, repetindo as palavras de que Nos servíamos algures, antes de sermos elevados à Cátedra de Pedro, desde então, repetimos, “sobressaiu e se afirmou como o código mais sábio e absolutamente universal para dirigir as almas pelo caminho da salvação e perfeição, como manancial inexaurível da piedade mais profunda e ao mesmo tempo mais sólida, como estímulo irresistível e guia experimentadíssimo para obter a reforma dos costumes próprios e subir às alturas da vida espiritual” (“S. Carlo e gli Esercizi spirituali di S. Ignazio” in “S. Carlo Borromeo nel 3.° Centenário della Canonizzazione”, n. 23, Sept. 1910, p. 488). E quando no início do Nosso Pontificado “acedendo aos votos e ardentíssimos desejos dos Sagrados Pastores de quase todo o orbe católico dum e outro rito”, pela Constituição Apostólica “Summorum Pontificum” de 25 de Julho de 1922 (A. A. S., vol. XIV (1922), p. 420): “declaramos e constituímos a Santo Inácio de Loiola padroeiro celeste de todos os Exercícios Espirituais e por conseguinte dos institutos, congregações e associações de qualquer género, que se dedicam e trabalham pelos exercitantes”, não fizemos mais que sancionar com a Nossa Suprema Autoridade o sentimento que Pastores e fiéis comumente manifestavam; o que os Nossos insignes Predecessores Alexandre VII (Litter. Apost. “Cum sicut”, 12 octob. 1647), Bento XIV (Litter. Apost. “Quantum secessus” 20 mart. 1753. Litter. Apost. “Dedimus sane”, 16 maii 1753) e Leão XIII (Epist. “Ignatianae Commentationes” 8 feb. 1900. Acta Leonis XIII, vol. VII, pág. 373), além do já citado Paulo III, disseram tantas vezes, ao louvarem os Exercícios de Santo Inácio; e o que declararam com sinceros elogios, e ainda mais com a virtude alcançada ou aumentada nesta santa escola, todos aqueles que, para nos servirmos das mesmas palavras de Leão XIII, “mais floresceram na doutrina ascética, como na santidade de vida” durante os últimos quatro séculos (Ibid.).

34. De facto, a elevação de doutrina espiritual, absolutamente alheia aos perigos e erros dum falso misticismo, a admirável adaptação dos Exercícios a qualquer classe e estado de exercitantes, ou se entreguem nos mosteiros à vida contemplativa ou passem ativamente a existência em negócios seculares, a unidade tão harmoniosa das suas partes, a maravilhosa e lúcida ordem com que nas meditações se vão sucedendo umas às outras as verdades; finalmente os documentos espirituais, que depois de sacudido o jugo do pecado e purificadas as doenças que dominam em nossas ações habituais levam o homem pelo seguro atalho da abnegação e vitória sobre os maus hábitos até às alturas mais sublimes da oração e do amor divino; tudo isto, sem dúvida, mostra de sobejo a força e a eficácia intrínseca do método de Santo Inácio e recomenda abundantemente os seus Exercícios (Epist. Apost. Pii PP. XI, “Nous avons appris” 28 mart. 1929 ad Card. Dubois).



Retiro mensal

35. Para assegurar e conservar o fruto dos Exercícios Espirituais, tão expressamente louvados por Nós, para renovar a sua lembrança, resta, Veneráveis Irmãos, que vos aconselhemos encarecidamente uma piedosa prática, que poderíamos chamar como que breve repetição dos Exercícios, a saber, o retiro mensal, ou pelo menos trimestral. Esta prática, para citar as palavras do Nosso Predecessor, de santa memória, Pio X, “vemo-la com prazer introduzida em vários lugares” (Exhort. ad Cler. Cathol., “Haerent animo”, 4 Aug. 1908; Act. Sanct. Sedis, vol. XLI, pág. 575) e em vigor sobretudo nas Comunidades religiosas, e entre Sacerdotes piedosos do Clero secular; mas é Nosso veemente desejo, que se introduza até entre os leigos, o que não será sem grande proveito seu, principalmente entre os que se vêem impossibilitados de fazer os Exercícios Espirituais, por estarem ocupados no cuidado dos seus bens, e talvez enredados em negócios. Poderiam assim suprir até de alguma maneira com estes retiros as vantagens apreciáveis dos Exercícios.



Conclusão

36. Deste modo, Veneráveis Irmãos, se os Exercícios se difundem por toda a parte entre as classes da sociedade e se fazem com todo o empenho, conseguir-se-á uma regeneração espiritual com intensificação da piedade, acréscimos das forças da religião, e expansão mais frutuosa do ministério apostólico. Por fim reinará a paz nos indivíduos e na sociedade.

37. Na limpidez do céu, enquanto a noite ia em meio do seu curso, o Verbo Eterno do Padre, tomando a natureza humana, apareceu aos mortais longe dos grandes concursos, em lugar apartado e ressoou pelas regiões etéreas o hino celeste: “Glória a Deus nas alturas, e na terra paz aos homens de boa vontade” (Lc 2, 14). O pregão da paz cristã — a paz de Cristo no reino de Cristo — é a expressão do supremo anelo do Nosso Coração Apostólico e para a sua realização tendem constantemente os nossos trabalhos e desejos. Calará fundo este pregão na alma dos fiéis, que afastados do tumulto e vaidades do século, ponderam em retiro silencioso e profundo as verdades da Fé, e os exemplos d’Aquele que trouxe a paz ao mundo e lha deixou como em testamento. “Dou-vos a minha paz” (Jo 14, 27). Esta paz verdadeira, vo-la desejamos, Veneráveis Irmãos, de todo o coração, neste mesmo dia em que por benefício de Deus se cumpre o 50.° aniversário de Nosso Sacerdócio. E ao aproximar-se agora a festa tão terna do Natal, que se costuma chamar “a festa da paz”, pediremos fervorosamente Àquele que foi saudado como “Príncipe da Paz” haja por bem conceder-vo-la.

38. Nestas disposições de ânimo, alentado o espírito com uma firme e alegre esperança, vos concedemos no Senhor, a vós, Veneráveis Irmãos, ao vosso clero e povo, isto é, a toda a Nossa queridíssima família católica, como augúrio dos dons divinos, e testemunho da Nossa benevolência, a Bênção Apostólica.

Dado em Roma, em S. Pedro, aos 20 de Dezembro de 1929, ano VIII do Nosso Pontificado.

PIO PP. XI

FONTE: http://www.fsspx.com.br/exe2/carta-enciclica-mens-nostra/

O islamismo segundo a Igreja.


Maomé e o Corão segundo Santo Tomás de Aquino:

“Maomé seduziu os povos prometendo-lhes deleites carnais. ....
“Introduziu entre as poucas coisas verdadeiras que ensinou muitas fábulas e falsíssimas doutrinas. Não aduziu prodígios sobrenaturais, único testemunho adequado da inspiração divina. ....

“Afirmou que era enviado pelas armas, sinais estes que não faltam a ladrões e tiranos. Desde o início, não acreditaram nele os homens sábios nas coisas divinas e experimentados nestas e nas humanas, mas pessoas incultas, habitantes do deserto, ignorantes de toda doutrina divina. E só mediante a multidão destes, obrigou os demais, pela violência das armas, a aceitar a sua lei.

“Nenhum oráculo divino dos profetas que o precederam dá testemunho dele; ao contrário, ele desfigura totalmente o Antigo e Novo Testamento, tornando-os um relato fantasioso, como o pode confirmar quem examina seus escritos.

“Por isso, proibiu astutamente a seus sequazes a leitura do Antigo e Novo Testamento, para que não percebessem a falsidade dele”.

“Summa contra Gentiles”, L. I, c. 6.

São João Damasceno, Doutor da Igreja, sobre os muçulmanos:

“Até o momento a superstição dos ismaelitas, arautos do Anticristo, continua a enganar os povos.
“São descendentes de Ismael, filho de Abraão e de Agar; os ismaelitas são também chamados comumente de agarianos.

“Eram idólatras, adoravam a estrela Lúcifer e Vênus, que chamavam, Chabar ou grande, até o tempo de Heráclio.

“Então levantou-se entre eles um falso profeta, chamado Maomé, que havendo encontrado os livros dos Antigo e Novo Testamentos, e tido contato com um monge ariano, formulou uma heresia nova.

“Conseguido o favor de seu povo por uma aparência de piedade, difundiu o rumor que os escritos lhe vinham do céu.

“Escreveu um livro eriçado de coisas ridículas, onde expõe a sua religião.

“Estabelece um Deus do universo, que não foi engendrado, nem engendrou nada.

“Diz que Cristo é o Verbo de Deus e seu Espírito, mas criado e servidor que nasceu sem cooperação humana, de Maria, irmã de Moisés e de Aarão, por operação do Verbo de Deus, que nela entrou; que os judeus, havendo querido, por um crime detestável, pregá-lo numa cruz, apoderaram-se dele, mas não crucificaram senão sua sombra: de sorte que Jesus Cristo não sofreu nem a cruz nem a morte, tendo Deus, a quem era todo querido, arrebatado o Verbo aos céus”.

(Fonte: “Fount of Knowledge, part two entitled Heresies in Epitome: How They Began and Whence They Drew Their Origin”, The Fathers of the Church, vol. 37 (Washington, DC: Catholic University of America Press, 1958), pp. 153-160). 

FONTE: BLOG GLÓRIA DA IDADE MÉDIA.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Quinta consideração.

Como um santo frade, lendo a legenda de São Francisco,
no capítulo dos sagrados santos estigmas a respeito das palavras secretas
que o Serafim disse a São Francisco quando lhe apareceu,
rogou tanto a Deus que São Francisco as revelou para ele.

Ma outra vez, um frade devoto e santo, lendo a legenda de São Francisco no capítulo dos sagrados santos estigmas, começou a pensar com grande ansiedade de espírito que palavras podiam ser aquelas tão secretas, que São Francisco disse que não revelaria a ninguém enquanto vivesse, que o Serafim lhe tinha dito quando lhe apareceu. E esse frade dizia consigo mesmo: “São Francisco não quis dizer as palavras a ninguém enquanto estava vivo, mas agora, depois de sua morte, talvez as diga, se lhe for pedido com devoção”. E daí em diante começou o devoto frade a rogar a Deus e a São Francisco que lhes aprouvesse revelar aquelas palavras. Perseverando esse frade por oito anos nesse pedido, no oitavo ano mereceu ser ouvido deste modo.

Porque, um dia, depois de comer, tendo dado graças na igreja, ele estava em oração em uma parte da igreja e rezando para isso a Deus e a São Francisco mais devotamente do que costumava e com muitas lágrimas, ele foi chamado por um outro frade e lhe foi ordenado da parte do guardião que ele o acompanhasse à cidade para a utilidade do lugar. Por isso, ele, sem duvidar de que a obediência é mais meritória do que a oração, assim que ouviu a ordem do prelado, deixou a oração e foi humildemente com o frade que o chamara. E como aprouve a Deus, ele, naquele ato de pronta obediência, mereceu o que por longo tempo de oração não tinha merecido.

Assim, logo que eles saíram da porta do lugar, encontraram-se com dois frades forasteiros que pareciam vir de países longínquos, e um deles parecia jovem e outro antigo e magro, molhados e enlameados pelo mau tempo. Por isso o frade obediente, tendo grande compaixão deles, disse ao companheiro com quem ia: “Ó meu irmão caríssimo, se pudermos demorar um pouco para fazer o que nos foi mandado, pois estes frades forasteiros têm necessidade de serem recebidos com caridade, eu te peço que me deixes ir primeiro lavar os pés deles e especialmente deste frade antigo, que tem agora maior necessidade, e tu poderá lavar os deste jovem. Depois iremos cuidar das coisas do lugar”.

Então, condescendendo o frade com a caridade do companheiro, voltaram para dentro e, recebendo os frades forasteiros com muita caridade, levaram-nos para a cozinha para se esquentarem e enxugarem diante do fogo. Junto desse fogo estavam se esquentando outros oito frades do lugar.

Depois de ficarem um pouco junto do fogo, levaram-nos à parte para lavar os seus pés, como tinham combinado. E enquanto o frade obediente e devoto lavava os pés do frade mais antigo e lhe tirava o barro, pois estavam muito enlameados, olhou e viu que seus pés estavam marcados pelos estigmas. Subitamente, pela alegria e o estupor, abraçou-lhe apertado os pés e começou a gritar: “Ou és Cristo ou és São Francisco”.
Ouvindo esse grito e essas palavras, levantaram-se na hora os frades que estavam junto ao fogo e foram lá para ver, com grande temor e reverência aqueles gloriosos estigmas. E então o frade antigo, a pedido deles permitiu que eles os vissem, tocassem e beijassem. E estando eles ainda mais maravilhados pela alegria, ele lhes disse: “Não duvideis e nem temais, caríssimos frades meus filhos; eu sou o vosso pai Frei Francisco, que, segundo a vontade de Deus, fundei as três Ordens. E como isso é coisa que já me foi pedido já fazem oito anos por este frade que me lava os pés, e hoje com mais fervor do que nas outras vezes, que eu lhe revele aquelas palavras secretas que o Serafim me disse quando me deu os estigmas, palavras que eu nunca quis revelar durante minha vida, mas hoje, por ordem de Deus e por sua perseverança e pronta obediência, pela qual ele deixou a doçura de sua contemplação, fui mandado por Deus para lhe revelar, diante de vós, o que ele me pediu”. E então, virando-se para o frade, São Francisco disse assim:

“Sabe, caríssimo frade, que quando eu estava no monte Alverne, todo absorto na memória da paixão de Cristo, naquela aparição seráfica eu fui assim estigmatizado no meu corpo, e então Cristo me disse: ”Sabes o que foi que eu te fiz? Eu te dei os sinais da minha paixão, para que tu sejas meu porta-bandeira. E como no dia de minha morte desci ao limbo, trouxe e levei para o paraíso, em virtude de meus estigmas, todas as almas que lá encontrei, assim eu te concedo desde já, para que me sejas tão conforme na morte como foste na vida, que tu, depois que tiveres passado deste vida, todos os anos, no dia da tua morte, vás ao purgatório, tires e leves para o paraíso todas as almas das tuas três Ordens, isto é, Menores, Irmãs e Continentes, e além delas as dos teus devotos que lá encontrares”. Essas palavras eu nunca disse enquanto estive no mundo”.

Ditas essas palavras, São Francisco e os companheiros desapareceram de repente. Muitos frades ouviram isso depois daqueles oito frades que estavam presentes nessa visão e nas palavras de São Francisco.
Para louvor de Jesus Cristo e do pobrezinho Francisco. Amém.


domingo, 21 de julho de 2013

Demônios provam os santos.

Santos e demônios: Santa Gema Galgani

(Padre Germano de Santo Estanislau, CP - tradução do Padre Matos Soares)

"Para purificar os Seus escolhidos e fazer deles vítimas de expiação, Deus serve-Se muitas vezes de satanás que, com o seu ódio ao homem, é em Suas mãos o instrumento mais ativo. A Santa Escritura e sobretudo os registros da hagiografia oferecem-nos exemplos numerosos desta conduta da Providência Divina.

Quando o Senhor quis elevar São Paulo da Cruz a um grau mais eminente de santidade, disse-Lhe no íntimo da sua alma: 'Fazer-te-ei calcar aos pés pelos demônios'. Gema ouviu também um dia palavras semelhantes: 'Prepara-te, minha filha; por minha ordem o demônio vai declarar-te guerra e dar, por esta forma, o último retoque à obra que realizei em ti'.
Podemos dizer que esta guerra foi geral, isto é, dirigida contra cada uma das virtudes e práticas por meio das quais a jovem virgem se esforçava em caminhar para Deus. Todas desagradavam ao anjo do mal, que as atacou com ódio feroz. Dir-se-ia que, no exercício do seu tenebroso império, não tinha outra preocupação senão perseguir esta pobre menina e procurar meios de a assaltar com tentações.

 A oração é o alimento vital da santidade, o supremo caminho que conduz ao Soberano Bem. Desde há muito que Gema a amava e praticava com todo o ardor da sua alma e devia-lhe bens inapreciáveis. O que não fez satanás por afastar a donzela da oração! Nada podendo conseguir com as suas inspirações perversas, provocava-lhe violentas dores de cabeça que teriam levado uma alma menos enérgica antes à indolência e ao repouso que à oração; experimentava mil outros meios para a desviar deste exercício divino. 'Oh!' dizia-me ela, 'que tormento para mim o não poder orar! Que fadiga eu sofro! E que esforços faz esse velhaco (assim chamava ao demônio) para me tornar a oração impossível! Ontem à noite queria matar-me, e te-lo-ia feito se não fosse a rápida intervenção de Jesus. Eu estava desfalecida, tinha bem gravado na minha alma o Nome de Jesus, mas não me era possível proferi-lo com a língua”

Algumas vezes o infernal inimigo tentava triunfar de um só ímpeto por meio de sugestões ímpias. ‘Que fazes tu, lhe dizia, és louca de orar a um malfeitor? Vê como ele te atormenta e te conserva consigo sobre a cruz. Porventura podes amar quem não conheces e quem trata tão duramente os seus melhores amigos?’ Estas blasfêmias não eram mais que poeira lançada ao vento, mas afligiam profundamente a alma terna e amante, obrigada a ouvir ultrajar assim o seu adorável Jesus.

No meio de tantos sofrimentos, a pobre menina procurava algum conforto no seu pai espiritual, apresentava-lhe as suas dificuldades, implorava conselho e direção. Este humilde e filial recurso não agradava ao espírito das trevas, que via assim diminuir as suas já tão pequenas probabilidades de êxito. Usou de mil artifícios para isolar na luta a Serva de Deus, afastando-a do diretor espiritual. Pintou-lho com as mais desprezíveis cores: como ignorante, um fanático, um iludido. ‘Nos últimos dias, escrevia-me ela, o maldito fez-me ‘boas’ [peças]. Este monstro queria privar-me do meu guia e conselheiro para me perder; não tenho, porém, receio de que o consiga.’

Parece que esta confiança em Deus deveria desarmar satanás, mas não desarmou. Perante a inutilidade de suas pérfidas insinuações, recorreu à violência física. Logo que Gema tomava a pena para me escrever, tirava-lha das mãos e rasgava o papel; algumas vezes, agarrando-a pelos cabelos, arrancava-a de junto da mesa com tal raiva que lhe ficavam nas mãos brutais madeixas inteiras; e ao mesmo tempo uivava com voz furiosa: ‘Guerra, guerra a teu pai espiritual, guerra enquanto ele estiver no mundo!’ Seja-me lícito dizer, aqui só entre nós, que nunca passou das palavras. ‘Acreditai-me, Padre, dizia Gema, ao ouvi-lo, vê-se que este velhaco odeia muito mais a vós do que a mim.’

O demônio levou a audácia até ao ponto de tomar as aparências do seu confessor ordinário. Um dia acabava a menina de entrar na igreja e preparava-se, esperando pelo sacerdote, para a recepção do sacramento da Penitência. Mas qual não foi o seu espanto ao vê-lo imediatamente no seu posto, sem que pudesse saber por onde é que tinha entrado! Sentiu uma grande perturbação interior, que era nela indício infalível da presença do espírito maligno. Entretanto aproximou-se e começou a confissão. A voz que ouvia era realmente a do confessor ordinário, mas as palavras eram escandalosamente indecentes e acompanhadas de atos desonestos. ‘Meu Deus, exclamou Gema, que é isto e onde estou eu?’ A pura menina, tremendo dos pés à cabeça, permaneceu por um instante estonteada, depois sossegou, levantou-se, saiu do confessionário e verificou então que o pretendido confessor tinha desaparecido, sem que nenhuma das pessoas presentes o visse ir.

Não havia dúvida: o demônio procurava com este artifício grosseiro surpreender a santa menina ou pelo menos tirar-lhe toda a confiança no ministro de Deus.

Tendo falhado este golpe, tentou outro. Apareceu sob a forma de um belo anjo resplandecente de luz e cheio de solicitude pela sua felicidade. Como com Eva no paraíso terrestre, empregou a mais sutil astúcia para conseguir enganá-la. ‘Olha para mim, dizia ele, posso tornar-te feliz; jura somente que me obedecerás.’ Gema, que desta vez não tinha sentido a perturbação reveladora da presença do demônio, ouvia tranquilamente. Mas, logo às primeiras propostas criminosas do espírito perverso, os olhos se lhe abriram e ela se pôs na defensiva. ‘Meu Deus, Maria Imaculada, exclamou a princípio, vinde em meu auxílio!’ Depois, avançando resolutamente para o anjo disfarçado, escarrou-lhe na cara. Desapareceu imediatamente sob a forma duma grande chama vermelha, deixando no assoalho do quarto um montão de cinza.

Algum tempo depois, novo assalto. ‘Ouvi, Padre: escrevia-me Gema, ontem entrava eu em casa, depois de ter me confessado. Aproveitando o momento de solidão, pus-me de joelhos para recitar a Coroa das Cinco Chagas. Ia a chegar à quarta Chaga quando vi diante de mim uma pessoa muito parecida com Jesus. Estava flagelado de há pouco e do seu coração aberto corria sangue em abundância. Disse-me: ‘É assim, minha filha, que me correspondes? Considera o estado em que me encontro. Vês como sofro por ti? E não podes continuar a consolar-me com essas penitências? E no entanto era bem pouca coisa; podias muito bem retomá-las. – Não, não respondi, quero obedecer e desobedeceria se vos atendesse. – Mas enfim, o confessor que tas proibiu foi esse... Ora, tu de nenhum modo estás obrigada a obedecer-lhe. – E acrescentou muitas mais coisas. Nestes perniciosos conselhos reconheci satanás, e estava para tomar a disciplina, como das outras vezes em iguais circunstâncias, quando me senti diferentemente inspirada. Levantei-me, lancei-lhe água benta e desapareceu. Recuperei então a paz, não sem ter recebido alguns golpes com que a besta vil me gratifica de tempos a tempos.’

Não obtendo outra coisa, o espírito do mal procurava assim levar Gema, contra a proibição do diretor espiritual, a penitências prejudiciais à saúde.

Para protegê-la contra as visões maléficas, ordenei-lhe que a cada aparição sobrenatural exclamasse: Viva Jesus! Nosso Senhor, sem eu o saber, tinha-lhe dado um conselho quase igual. Gema devia dizer: Benditos sejam Jesus e Maria. A dócil menina, para obedecer a ambos, juntava as duas exclamações. Os bons espíritos repetiam-nas sempre, mas os maus ou não respondiam ou se limitavam às primeiras palavras: Viva, benditos. Por este sinal eram reconhecidos, e Gema escarnecia deles.

Com a esperança de lhe inspirar o orgulho, o demônio mostrava-lhe algumas vezes em sonhos, ou mesmo estando acordada, uma procissão de pessoas vestidas de branco que se aproximavam piedosamente do seu leito para a venerar. Descobria-lhe também que as cartas para seu pai espiritual eram religiosamente conservadas com o fim de servirem um dia à sua glória, etc., etc. Vãs tentações, a Serva de Deus era suficientemente humilde para não se deixar levar como Eva pela sedução da vaidade.

Supondo abalar talvez a sua grande confiança em Deus, o maldito aproveitava as ocasiões tão frequentes de abandono e de cruel aridez espiritual para aumentar em sua alma o horroroso temor da condenação. ‘Não vês, lhe dizia, que Jesus não te escuta, que já te não quer conhecer? Para que afadigar-te em correr após ele? Só te resta resignar-te com a tua desgraçada sorte.’ Para os santos foi sempre esta tentação a mais angustiosa. Gema experimentava-lhe toda a violência; mas habituada a recorrer a seu Deus, apesar de tudo e em todas as circunstâncias, com a mais viva fé, como uma criança recorre a seu pai, depressa recuperava a serenidade. Por isso podia dizer-me: ‘Este celerado cansa-se; quereria ... Mas Jesus com suas palavras inspirou-me tal tranquilidade que todos os esforços diabólicos não poderiam tirar-me a confiança por um só momento.’

O anjo da soberba, furioso de ver que toda a sua astúcia se malograva aos pés duma humilde donzela, em ultimo recurso tirou definitivamente a máscara, passando a atos de violência. Aparecia-lhe sob as formas horríveis dum monstro ameaçador, dum homem feroz, dum cão raivoso. Depois de ter assim procurado aterrorizá-la, precipitava-se sobre ela, batia-lhe, rasgava-lhe a pele, atirava-a dum lado para outro no quarto como se fora uma rodilha; arrastava-a pelos cabelos e martirizava de todas as maneiras possíveis os seus inocentes membros. E não julguemos que tudo isso se limitava a impressões puramente imaginárias, porque os efeitos sobre o corpo da vítima persistiam por muito tempo: cabelos arrancados, carnes lívidas, ossos quase esmagados, dores atrozes. Algumas vezes ouvia-se o barulho das pancadas, via-se o leito mudar de lugar e elevar-se da terra para cair bruscamente. Estes vexames duravam sem interrupção horas inteiras e algumas vezes toda noite.

Deixemos gema falar a este respeito. A simplicidade do seu estilo e a ingênua sinceridade da sua alma dispensam-nos de fazer comentários. ‘Hoje, que me julgava livre desta besta vil, fui muito molestada por ela. Ia para me deitar, esperando poder dormir; não sucedeu, porém, assim. A princípio recebi uma pancada das mais terríveis, de que pensei morrer. O malvado tinha a forma dum grande cão negro, e punha-me as patas sobre os ombros. Tratou-me de tal modo que em um dado momento supus ter os ossos todos quebrados. Pouco depois, como eu tomasse água benta, torceu-me o braço com extrema violência e caí em dor. Os ossos estavam completamente deslocados, Jesus, porém, veio repô-los no seu lugar, tocando-os, e tudo ficou remediado.’ Em outra carta: “Também ontem o demônio me afligiu. Minha tia mandou-me que fosse encher os jarros do quarto. Ao passar com os jarros na mão, diante da imagem do Coração de Jesus, dirigi-lhe com amor uma prece fervorosa; imediatamente senti darem-me sobre os ombros uma bastonada tão forte que cai por terra, sem nada quebrar. Ainda hoje me sinto muito mal e menor trabalho me causa dor.”

A santa menina escrevia-me ainda: “Acabo de passar, como de costume, uma noite má. O demônio apresentou-se diante de mim sob a figura de um imenso gigante e bateu-me durante toda a noite, dizendo: para ti já não há esperança de salvação, estás em meu poder. Respondi que nada temia porque Deus é misericordioso. Então, espumando de raiva, deu-me uma grande pancada na cabeça e desapareceu gritando: maldita sejas. Fui para o quarto repousar um pouco, mas tornei a encontrá-lo lá. Começou de novo a bater-me com uma corda toda aos nós. Batia-me por eu me opor a fazer o mal que sugeria. Não, lhe dizia eu; e ele redobrava as pancadas, batendo-me violentamente com a cabeça no chão. De repente tive a lembrança de implorar o auxílio do divino Pai de Jesus e exclamei: Pai Eterno, livrai-me pelo sangue preciosíssimo de Jesus. Imediatamente o velhaco deu-me uma pancada formidável, atirou-me abaixo da cama e fez-me bater a cabeça no chão com tanta violência que perdi os sentidos com a dor. Só muito tempo depois os recuperei. Demos graças a Jesus.”

Estas cenas repetiam-se muito frequentemente, e, em certas épocas todos os dias. A pobre padecente estava quase habituada a elas. Exceptuando as torturas corporais, podemos dizer que a vista do monstro infernal já não a atemorizava. Olhava-o com a mesma serenidade com que a pomba olha para um animal imundo. Gema algumas vezes entretinha-se a responder-lhe e a humilhá-lo, quando não estava proibida de o fazer; e, quando à invocação do Santíssimo Nome de Jesus, a hedionda besta se rolava por terra para fugir em seguida a toda pressa, a ingênua menina acompanhava-a com zombarias e francas gargalhadas. “Se vísseis, Padre, como ele fugia e tropeçava em sua fuga raivosa, ter-vos-ieis rido comigo.” Assistia eu uma ocasião à piedosa menina, gravemente doente e em perigo de vida. Sentado a um canto do quarto rezava tranquilamente o Breviário, quando um enorme gato muito preto e de aspecto terrificante me saltou impetuosamente para os pés. Deu uma volta pelo quarto, saltou para o leito da doente e colocou-se muito perto do seu rosto, fixando nela um olhar feroz. O sangue gelou-me nas veias; Gema, porém, permanecia muito serena. Então! Que há de novo? Lhe disse eu, ocultando o melhor possível a minha atrapalhação. – Não tenhais medo, Padre, é esse velhaco do demônio que quer molestar-me, mas não temais, a vós não fará mal nenhum. A tremer aproximei-me do leito, tomei água benta e aspergi-o. A visão desapareceu imediatamente, sem ter conseguido alterar por um só momento a paz profunda da doente.
A única coisa que aterrava verdadeiramente Gema era o receio de ceder às sugestões do inimigo e ofender a Deus. Embora nunca tivesse caído durante o passado, o perigo parecia-lhe iminente e conservava-a aterrorizada. Não esquecia nenhum meio de defesa: Cruz, relíquias dos Santos, escapulários, exorcismos, e, acima de tudo, recurso filial a Deus, a Maria Santíssima, ao Anjo da Guarda e ao diretor de sua alma. Escrevia-me: “Vinde depressa, Padre, ou ao menos daí fazei exorcismos, porque o demônio persegue-me por todos os modos; ajudai-me a salvar a alma, tenho medo de já estar nas mãos de satanás. Ah! Se soubésseis como sofro! Como ele estava contente esta noite! Agarrou-me pelos cabelos e puxava por eles dizendo: desobediência! desobediência! Quero concluir desta vez, vem, vem comigo! Queria levar-me para o inferno. Atormentou-me durante mais de quatro horas. Foi assim que se passou a noite. Tenho receio de o atender um dia ou outro e vir a desagradar a Jesus.”

Em algumas raríssimas ocasiões o Senhor permitiu ao demônio apoderar-se de todo o seu ser, ligar as potências da sua alma e perturbar-lhe a imaginação a tal ponto que se poderia julgar possessa. Causava dó vê-la neste estado miserável. Ela mesma tinha-lhe um tal horror que, só com lembrar-se dele, empalidecia e começava a tremer. “Ó Deus, dizia ela, estive no inferno sem Jesus, sem a divina Mãe, sem o Anjo! Se saí de lá sem pecado só a Vós o devo, ó Jesus. Apesar de tudo, estou contente, porque sofrendo assim e sofrendo sempre, faço a Vossa santíssima Vontade.” Se estes assaltos do demônio se tivessem repetido mais vastas vezes ou tivessem sido de mais longa duração, a pobre padecente, apesar de muito resignada, teria com certeza perdido a vida. A estas atribulações juntavam-se as dores de cruéis doenças, provocadas, como temos fortes razões para o crer, pelo próprio espírito infernal. E se refletirmos que Gema estava ao mesmo tempo miraculosamente associada a todos os tormentos sofridos pelo divino Redentor na Sua Paixão, teremos uma idéia da grandeza do martírio desta virgem heróica, que se tinha oferecido em holocausto ao Senhor.

Todavia, declarava-se feliz no meio deste mar de sofrimentos físicos e morais, feliz por se parecer assim com o Homem das Dores, por se elevar sempre mais nas puras regiões do amor divino e expiar pela sua parte os pecados do mundo.

Um dos dogmas mais consoladores da nossa crença é o dos Anjos Custódios. Depois do pecado original, o homem enfraquecido e miserável, tinha necessidade de auxílio e conselho para andar pelo caminho do bem e atingir o fim para que foi criado. Em Sua misericórdia infinita e paternal ternura, o Senhor veio em auxílio dos pobres filhos de Eva que queria salvar, colocando-os sob a proteção dos Anjos, ministros da Sua Côrte Celeste. Cada um de nós é assistido por um destes puros espíritos, que chamamos com razão o nosso bom Anjo. Toma-nos pela mão, logo que entramos na vida, para não mais nos deixar durante a nossa peregrinação pelo mundo. “Eis, diz o Senhor, que Eu envio o meu Anjo para ir adiante de ti, para te proteger no caminho e introduzir no lugar que te preparei.”

Se Deus provê com solicitude às necessidades de todas as Suas criaturas, tem um particular cuidado com as eleitas que, como Ele mesmo diz, Lhe são tão queridas como as meninas dos Seus olhos, e entre os escolhidos tem ainda preferências. Daí resultam os diferentes graus de importância da missão misericordiosa dos Anjos Custódios. Estando Gema predestinada para um grau muito elevado de glória e felicidade celeste, era natural e conforme à Sabedoria divina que o anjo proposto para a guardar tivesse com ela um cuidado muito especial. A graça que já se manifestava nesta alma ditosa por fenômenos tão prodigiosos, ia aumentar dum modo não menos prodigioso com a assistência do seu bom Anjo.

Quem não conhecesse pelos Sagrados Livros a tocante história de Tobias e pela hagiografia cristã a sua frequente repetição na vida dos Santos canonizados, seria tentado talvez a supor exagerados os detalhes maravilhosos que vou referir. Mas o Senhor prodigaliza todos os dias a Seus filhos bens muito preciosos sem que ninguém se lembre de Lhe dizer: por que Vos mostrais tão bom? Gema estava admiravelmente preparada para os favores do seu Anjo pelas mais belas virtudes: inocência, pureza, candura, simplicidade de criança, e, acima de tudo, fé muito viva que lhe deixava ver quase a descoberto os mistérios da eternidade. Com certeza o espírito celeste devia encontrar na sua feliz protegida alguma semelhança com a natureza angélica que lhe permitia, sem se rebaixar muito, conservar com ela relações familiares.

O mais maravilhoso neste suave comércio era a presença sensível e quase contínua do Anjo da Guarda.
Gema via-o com os olhos do corpo, tocava-o com as mãos, como se fosse uma pessoa viva, conversava com ele como com um amigo. Escrevia-me o seguinte: “Há seis dias que não vejo Jesus. Ele porém não me deixou completamente só; o Anjo da Guarda conserva-se sempre visível junto de mim.”

Com que fervor dava graças a Deus por este benefício, e testemunhava ao espírito protetor o seu reconhecimento! “Se alguma vez for má, querido Anjo, lhe dizia ela, não te zangues. Quero mostrar-te a minha gratidão. – Sim, respondia o celeste guarda, serei teu guia e teu companheiro inseparável. Não sabes Quem te confiou à minha guarda? Foi o misericordioso Jesus.” A estas palavras a santa menina, não podendo conter os sentimentos da sua alma, perdia os sentidos e entrava em êxtase na companhia do seu Anjo. O que se passava então ela mesma o conta por estas simples palavras: “Permanecíamos ambos com Jesus. Oh! Se estivésseis conosco Padre.” Permanecer com Jesus era mergulhar-se, com o espírito e o coração, no oceano imenso da Divindade para aí aprender e contemplar inefáveis mistérios. De ordinário, Gema e o Anjo da Guarda passavam os seus colóquios a orar juntamente ou a louvar o Altíssimo. Os Anjos, segundo um santo Doutor, deleitam-se em assistir às almas em oração. O arcanjo Rafael disse ao velho Tobias que durante as suas orações ele mesmo as oferecia secretamente ao Senhor.

Que objeto de complacência devia ser para o seu Anjo da Guarda esta admirável menina cujo coração, como a lâmpada do Santuário, velava sempre diante do seu Deus com extraordinária vivacidade de fé? Gostava de lhe aparecer, uma vezes ajoelhado ao seu lado, outras elevado da terra, com as asas abertas e as mãos estendidas sobre ela, ou juntas na atitude de orar. Recitavam alternadamente as orações vocais e os salmos, e, se diziam jaculatórias, “era [ele], segundo as próprias palavras de Gema, quem com mais força exclamava: Viva Jesus! Bendito seja Jesus! E outras afetuosas aspirações.”

Nas horas de meditação o Anjo infundia-lhe no espírito luzes altíssimas, dava ao seu coração suaves e fortes impulsos para que o santo exercício fosse perfeito, e, como a Paixão do Salvador era quase sempre o assunto da meditação, descobria-lhe os Seus profundos mistérios. “Considera, dizia ele, quanto Jesus sofreu pelo homem, considera uma por uma estas Chagas. Foi o amor que as abriu todas. Vê quão horrível é o pecado cuja expiação custou tanta dor e tanto amor.” Estes belíssimos pensamentos iam ferir o coração da donzela como outros tantos raios de luz e de fogo. Tendo assistido pessoalmente muitas vezes às orações e às meditações de Gema e do seu Anjo da Guarda, pude convencer-me, só pelas minhas observações exteriores, da realidade de todos os detalhes que ela me dava depois do exercício nas suas comunicações de consciência.

Notei igualmente que todas as vezes que ela levantava os olhos para o Anjo a fim de o ouvir ou lhe falar, mesmo fora da oração, perdia o uso dos sentidos. Nesses momentos podia-se picar, queimar sem que a sua sensibilidade fosse despertada. Mas vinha a si logo que afastava os olhos do Anjo ou cessava o colóquio. Este fenômeno renovava-se infalivelmente em cada uma das suas comunicações celestes, por mais próximas que fossem. Sempre e por toda a parte, no meio das ocupações, no caminho, mesmo à mesa, o Anjo esta à disposição de Gema e Gema à disposição do Anjo. Nenhum sinal exterior manifestava os seus santos colóquios, exceto a absoluta imobilidade da vidente e o brilho sobre-humano do seu olhar. Bastava tocá-la para nos convencermos, em atenção à sua insensibilidade, que estava fora dos sentidos e em relações com o sobrenatural. Estes colóquios respiravam muitas vezes a maior simplicidade, e a familiaridade do Anjo só tinha igual na do Arcanjo Rafael com o jovem Tobias.

“Dizei-me, meu Anjo, interrogava a donzela, o que tinha esta manhã o meu confessor para ser tão severo e recusar ouvir-me? E o Padre, responderá de Roma à carta urgente em que lhe peço uma regra de conduta sobre tal ponto? Dize-me, meu querido Anjo, quando é que Jesus me converterá este pecador por quem me interesso? Que devo responder a tal pessoa que me pede conselho? E o que vos parece de mim? Jesus está contente? Como poderei agradar-Lhe? O Anjo, acomodando-se com um encantadora condescendência a esta ingenuidade algum tanto importuna, respondia a tudo. E os acontecimentos não tardavam a mostrar a origem sobrenatural das respostas. Seria preciso um volume para referir estas diversas comunicações, mas talvez me fosse preciso um outro para defender a sua realidade, tão extraordinárias parecem muitas vezes e tão difíceis de aceitar pelo racionalismo contemporâneo.

Pode dizer-se, dum modo geral, que o Anjo da Guarda era para Gema um segundo Jesus. Ela expunha-lhe as suas necessidades e as dos outros, queria-o incessantemente junto de si durante os seus temores e sobretudo durante as lutas contra o infernal inimigo; confiava-lhe diversas mensagens para Deus, para a Virgem Santíssima, para os Santos seus advogados, dava-lhe até cartas fechadas e lacradas com destino a um ou outro destes advogados, pedindo-lhe que a seu tempo trouxesse a resposta, e a maravilha é que estas cartas eram levadas realmente por um ser invisível. Depois de ter tomado todas as precauções para me certificar da intervenção duma causa sobrenatural no seu desaparecimento, vi que me devia convencer de que neste ponto, como em outros não menos prodigiosos, o Céu, para assim dizer, queria brincar com uma menina, cuja simplicidade lhe era tão querida.

Muitas vezes encarregava o Anjo da Guarda dum negócio particular perante alguma pessoa deste mundo, e qual não era a sua admiração quando não via chegar a resposta! “E não obstante, escrevia ela, há já tantos dias que vô-lo mandei dizer pelo Anjo; como não fizeste caso? Ao menos podíeis mandar-me dizer por ele que não era vossa intenção ocupar-vos deste negócio. Em todo o caso não vos zangueis, insisto de novo por meio deste carta.”

Deste modo o mensageiro celeste encontrava-se constantemente preparado para o serviço desta jovem virgem de inefável candura. Além disso, prestava-se de bom grado a todos os seus desejos, acudia, mesmo sem ser invocado, ao menor perigo, à menor necessidade; refreava a audácia do demônio, sempre pronto a maltratar a sua protegida, e algumas vezes lutava para lha tirar das mãos brutais. Eis alguns fatos relativos a esta assistência: uma vez, estando à mesa ainda em casa de seus pais, uma das pessoas presentes, deixando-se levar pelos maus costumes do nosso tempo, proferiu uma blasfêmia contra o adorável Nome de Deus. Logo que Gema a ouviu perdeu os sentidos com a dor e ia a cair da cadeira; antes, porém, que batesse com a cabeça no chão, o Anjo a acudiu e com uma só palavra dita ao coração fez-lhe retomar imediatamente os sentidos. Por outra vez, perdida na contemplação, encontrava-se ainda na igreja, sendo já tarde; o Anjo advertiu-a e na volta acompanhou-a, sob uma forma visível, até à porta de casa.

Um dia o demônio tinha-lhe batido tão cruelmente no momento da oração da noite que a pobre menina ficou impossibilitada de se mover. O Anjo da Guarda ofereceu-lhe o seu auxílio, ajudou-a a subir para o leito e pôs-se de guarda à cabeceira. O Anjo avisava-a em muitas circunstâncias em que a sua vida podia correr perigo e indicava-lhe as precauções a tomar. Sem a sua intervenção, por mais duma vez teria sido vítima de algum acidente, tão pouco era o cuidado que tinha de si. Um dia disse-lhe [o Anjo] em tom de amável censura: “Pobre pequena, como és imperfeita; tenho de velar continuamente por ti.”

A missão dos Anjos Custódios tem como objeto principal os interesses espirituais das almas. Eles devem ser, segundo os desígnios da Providência, instrumentos de santificação para nos conduzir pelos caminhos difíceis da virtude. O Anjo de Gema não perdia uma ocasião de a repreender, de a aconselhar e mesmo de a instruir por ensinamentos cheios de celeste sabedoria, que a menina conservou em parte nas relações que enviava ao diretor espiritual. Uma vez, para que não se perdesse uma sílaba, o Anjo fez-lhe escrever alguns destes ensinamentos que ia ditando. Por sua ordem, Gema sentou-se à mesa, tomou a pena e o papel, enquanto que ele, de pé a seu lado, como um professor junto do aluno, começava: “Lembra-te que aquele que ama verdadeiramente a Jesus fala pouco e sofre tudo. Ordeno-te da parte de Jesus, que nunca digas a tua opinião, se não te for pedida, que nunca sustentes o teu sentimento, mas que cedas depressa. Quando cometeres qualquer falta, acusa-te imediatamente sem ser preciso que outros te avisem. Obediência pontual e sem réplica ao teu confessor, sinceridade com ele e com os outros; não te esqueças de guardar a vista, lembrando-te que os olhos mortificados contemplarão as belezas do Céu.”

O santo Anjo sabia usar de rigor com a sua discípula; não lhe deixava passar nenhuma imperfeição e corrigia-a sem piedade, a ponto de ela me dizer: “O meu Anjo é um pouco severo, mas sinto-me bem com isso. Nos últimos dias chegou a repreender-me três a quatro vezes por dia.” Parece até que o vigilante guarda saiu dos justos limites numa ocasião: “Ontem, escrevia-me Gema, durante a refeição levantei os olhos e vi o Anjo lançar-me olhares severos, não falava. Mais tarde ,quando fui repousar, olhei outra vez para ele, mas baixei a vista depressa; meu Deus como estava irritado! – Disse: ‘Não tens vergonha de cometer faltas em minha presença?’ Lançava-me alguns olhares tão severos... eu não fazia senão chorar. Supliquei a Deus e a minha celeste Mãe que o tirasse de diante de mim, pois não podia resistir mais. De quando em quando repetia: ‘Envergonho-me de ti.’ – Pedi para que ninguém o veja neste estado, pois os que o vissem com certeza não quereriam mais aproximar-se de mim. Sofri um dia inteiro, não pude recolher-me um só momento; o seu aspecto permanecia tão severo que eu não tinha coragem para lhe falar. Ontem de noite não consegui adormecer até que, finalmente, pelas duas horas da manhã, o vi aproximar-se; pôs-me a mão sobre a fronte dizendo: ‘Dorme, má.’ E não o vi mais.”

Não se pode dizer quanto fruto tirava deste magistério angélico a santa menina, sempre sedenta de virtude e de santidade. Atenta Às menores palavras do Anjo, cumpria de todo o coração as penitências que ele muitas vezes impunha, para ver se lhe agradava. “Repugnava-me muito, dizia-me ela, andar a dizer ao meu confessor certas coisas, como o Anjo me ordenava por penitência; todavia obedeci e, logo de manhã, violentando-me, corri a dizer-lhas. Depois desta vitória sobre mim mesma, o Anjo, muito contente, tornou-se bom para mim.” Gema amava este guarda tão dedicado pelo bem da sua alma. Tinha constantemente o seu nome nos lábios como no coração. “Querido Anjo, dizia ela, quanto vos amo! – E por quê?, perguntava ele. – Porque me ensinais a ser boa e a conservar-me na humildade.”

Não admira que este vivo afeto, numa alma simples e ingênua, desse origem a uma familiaridade que pode parecer excessiva. Ao ouvir as conversas de Gema com o seu querido Anjo, ao ouvi-la discutir vivamente para o levar a ter a sua opinião, dir-se-ia que tratava com um igual. Eu mesmo a princípio fiquei admirado, adverti-a de que era mau o seu proceder e disse-lhe que era orgulhosa, pois levava a familiaridade até ao ponto de tratar por ‘tu’ a um espírito puro em vez de tremer diante dele. Para a experimentar, proibi que ultrapassasse certos limites. A donzela baixou a cabeça e respondeu com toda a humildade: “Tendes muita razão, Padre; hei de corrigir-me. Daqui por diante direi sempre ‘vós’ ao Anjo; e quando me for dado vê-lo, testemunhar-lhe-ei grande reverência, conservando-me a cem passos atrás dele.”

Na primeira visita do celeste guarda, Gema advertiu-o da norma de conduta: “Tende paciência, querido Anjo, o Padre não está contente, preciso de mudar de procedimento.” E absteve-se de ultrapassar o limite marcado enquanto não levantei a proibição. Pela força do hábito, acontecia-lhe muitas vezes enganar-se e misturar o ‘tu’ com o ‘vós’, mas corrigia-se, mesmo em êxtase. Algumas vezes o Anjo não aparecia só, mas com outros espíritos celestes para fazerem alegre companhia à angélica irmãzinha. Logo que tive conhecimento disso, mostrei estar muito descontente e escrevi a Gema dizendo, sempre para pôr à prova a sua virtude, que era tempo de acabar. Gema respondeu: “Na verdade, Padre, não compreendo nada disso. Os outros, quando estão a rezar, veem o seu Anjo da Guarda. Se eu também o vejo, ralhais e afligi-vos. Mas ontem, dia em que eles se festejavam, despedi-os a todos. O meu não quis partir, nem o outro em que vos falei; ora que hei de eu fazer? Não vos zangueis outra vez, serei boa e obediente”.
A familiaridade de Gema com o Anjo da Guarda era simples, espontânea, cheia de humildade, como testemunham as duas seguintes aparições, tomadas entre mil e contadas pela própria menina: “Estava eu no leito, muito atormentada, quando me senti subitamente possuída dum profundo recolhimento. Juntei as mãos e com toda a força do meu fraco coração fiz o ato de contrição com uma viva dor dos meus inúmeros pecados. Estando o meu espírito absorvido pela lembrança das minhas ofensas, notei o Anjo junto do leito. Fiquei envergonhada de ver em sua presença. Ele, ao contrário, com uma amabilidade cheia de encano, disse-me: ‘Jesus tem uma grande afeição por ti, ama-O muito.’ – Depois acrescentou: Amas a Mãe de Jesus? Envia-Lhe muitas vezes as tuas saudações. Ela fica muito contente em as receber e nunca deixa de as retribuir. Se não o faz sempre sensivelmente, é para experimentar a tua fidelidade.’ – Abençoou-me e desapareceu.”

Outra visão: “Enquanto fazia as minhas orações da noite, o Anjo da Guarda aproximou-se de mim e, batendo-me no ombro, disse: ‘Gema, como é que tu levas tanto desgosto para a oração?’ – Não é desgosto, respondi, há dois dias que não me sinto bem. – Ele continuou: ‘Faze o teu dever com cuidado e Jesus te amará mais.’ – Roguei-lhe que fosse pedir a Jesus permissão para passar a noite junto de mim. Desapareceu imediatamente e, obtida a permissão, voltou para o meu lado. Oh! Como se mostrou bom! Quando estava para partir, pedi-lhe que não me deixasse ainda. – ‘Não posso, respondeu, é conveniente que eu vá’. – Está bem, ide, lhe disse eu, saudai a Jesus por mim. Lançando-me um último olhar, acrescentou: ‘Não quero que tenhas conversações com as criaturas. Quando quiseres falar, fala com Jesus e com o teu Anjo da Guarda.’

Tal é, pouco mais ou menos, o gênero das outras aparições. Daqui se pode concluir como devia ser amada de Deus esta virgem que recebia a honra de ser assim visitada, assistida e dirigida por espíritos angélicos nos caminhos da santidade. Não lhe tenhamos inveja, porque também nós recebemos do mesmo Pai celeste um Anjo para nos guardar, e se formos, como Gema, muito puros, muito humildes, simples de coração, cheios de fé e de santos desejos de perfeição, ele também nos cercará da mesma solicitude e do mesmo amor.(...)

Diz-nos o Espírito Santo que satanás, nos últimos momentos da nossa vida, sabendo que tem pouco tempo para [nos] fazer mal, nos assalta com pérfidas tentações, como um leão que vê a presa prestes a escapar-lhe. Que supremos e furiosos ataques não devia dirigir contra a angélica donzela, a quem tinha perseguido durante toda a vida com ódio mortal, e procurado vencer ou ao menos desanimar com uma guerra sem tréguas! De outros santos se lê que no fim dos seus dias tiveram que suportar assaltos do demônio mais ou menos longos e terríveis, mas passageiros. Gema, porém, suportou um ataque contínuo de sete meses, apenas interrompidos por curtos intervalos de trégua. O fato é aterrador, mas absolutamente certo, porque é unanimemente atestado por todas as pessoas que assistiram a jovem virgem durante a sua última doença.

O espírito das trevas perturbava-lhe a imaginação com mil fantasmas próprios para encher o seu coração de tristeza, de ansiedades, de temor. O seu fim era levá-la ao desespero. Representava-lhe, sob os mais tétricos aspectos, o quadro de sua vida tão cheia de angústias, as desgraças da sua família, as privações de toda ordem; fazia-lhe passar por diante dos olhos os agentes da força pública indo, depois da morte de seu pai, acompanhados pelos credores, sequestrar os bens da sua casa, depois exclamava: “Eis o resultado de todas as tuas fadigas no serviço de Deus”. Aproveitando o estado de extrema aridez espiritual em que, durante a maior parte do tempo, o Senhor a deixava para mais purificar a sua alma, o anjo das trevas empregava todos os artifícios para a persuadir de que estava irremediavelmente abandonada por Deus e que de modo algum escaparia à condenação. O tentador astucioso insinuava-lhe que as suas heroicas virtudes e mesmo os mais insignes favores divinos não eram mais que ilusão e hipocrisia. (...)

Procurou mais uma vez [o infernal inimigo] insultar o pudor virginal da santa menina. Sabia muito bem com que amor e cuidado este anjo tinha guardado, durante toda a vida, o casto tesouro, com que heroísmo tinha já sustentado, neste campo, lutas terríveis, coroadas sempre de triunfo, mas queria, senão alcançar uma vitória que julgava impossível, ao menos vingar-se das suas derrotas por meio daquelas tentações que sabia serem as mais próprias para encher de amargura os últimos dias da inocente pomba.

O quarto da enferma pareceu então estar convertido num vestíbulo do inferno. Não eram pensamentos, imaginação, impulsos lascivos, aos quais não podia ser sensível uma alma daquela têmpera; eram aparições reais sob formas sempre novas e dum cinismo brutal. “Padre, Padre, escrevia-me Gema do seu leito de dor, este sofrimento é muito intenso para mim. Pedi a Jesus que o troque por qualquer outro. Enviai, mesmo de longe, maldições e esconjuros para afastar o velhaco do demônio, ou ordenai ao vosso Anjo da Guarda que venha afastá-lo para longe daqui”.

Vencido em todos os campos, terminou por afligi-la com cruéis vexações exteriores. A enfermeira da Serva de Deus escrevia-me por várias vezes: “Esta besta hedionda acaba-nos com a querida Gema. Saio sempre de junto dela a chorar; este horrível demônio consome-a, e não vejo nenhum remédio a opor. São pancadas ensurdecedoras, figuras espantosas de animais ferozes; mata-a com certeza. Corremos em seu auxílio, lançando água-benta no quarto, o barulho cessa, mas para recomeçar pouco depois com mais raiva.”

Até onde o invisível inimigo do homem levou a crueldade para com a doce vítima! Gema sentiu melhoras quanto à dificuldade de ingerir os alimentos. Satanás, porém, estava de atalaia; logo que apresentavam a comida à doente, parecia-lhe coberta de insetos repugnantes, de tudo quanto possa imaginar-se de nojento. Perante a repugnância do estomago, era forçoso retirar tudo. Animais repelentes, reais ou imaginários, entravam-lhe no leito, iam-lhe para o corpo e torturavam-na de mil maneiras, sem que se pudesse ver livre deles. Dizia muitas vezes à irmã enfermeira com acentos de terror, que sentia uma serpente a envolvê-la da cabeça até aos pés e procurando sufocá-la.

Pediu muitas vezes que fizessem exorcismos, mas como julgassem que não deviam atender aos seus pedidos, ela mesma, voltando-se para o inimigo com o rosto inflamado, exclamou: “Espíritos perversos, ordeno-vos que entreis no lugar que vos está destinado, aliás, desgraçados de vós! Acuso-vos ao meu bom Deus.” Depois, voltada para a sua Mãe Celeste, começou a dizer: “Minha Mãe, encontro-me em poder do demônio que me fere, me flagela, trabalha por me arrancar das mãos de Jesus. Não, não, Jesus, não me abandoneis, ser-vos-ei fiel. Ó minha Mãe, pedi a Jesus por mim. De noite, estou só, cheia de terror, oprimida e como que ligada em todas as potências da alma e em todos os sentidos do corpo, sem me poder mexer. Viva Jesus!”

De tempos a tempos, o divino Mestre vinha reanimar-lhe a coragem e sossegá-la, fazendo-lhe sentir a Sua doce presença e dizendo-lhe algumas palavras: “Minha filha, por que é que, em vez de te entristeceres com as perseguições do inimigo, não aumentas a tua esperança em Mim? Humilha-te sob a minha poderosa mão, não te deixes abater pelas tentações. Resiste sempre, sem desânimo, e, se a tentação perseverar, persevera também na resistência; a luta levar-te-á à vitória”.
Outras vezes era o Anjo da Guarda que vinha confortá-la. Mas estes momentos felizes duravam pouco, em breve a sua alma recaía nas trevas e o tentador aparecia de novo, mais furioso que nunca. Deste modo se passavam, para a pobre donzela, os dias, as semanas, os meses. Que exemplo admirável de resignação e que motivo de salutar receio para nós, que não temos os méritos de Gema, na hora terrível da morte!

(Servo de Deus Padre Germano de Santo Estanislau, CP, in: Gema Galgani, Virgem de Luca. Tradução e edição do Padre Matos Soares, Porto: 1923, páginas 203-220 e 319-322).

sábado, 20 de julho de 2013

Sola Fide? A fé salva...com as boas obras que a acompanham.

De fato, é a fé quem salva, mas existe a participação da pessoa, conforme nos manda S. Paulo em suas cartas, em diversas passagens.

Mesmo porque a “fé sem obras é morta”.

É S. Paulo que ainda no-lo explica: “Manda… que se façam ricos em boas obras (1Tim 6,18).

Em “boas obras”, porque, completa S. Tiago, “o homem é justificado pelas obras e pela fé” (Tgo 2, 24) ou pelas obras que nascem da fé, porque a “fé sem obras é morta” (17) e só uma fé viva pode dar a vida.

É pois bem claro que o homem é salvo pelas boas obras nascidas da fé, e não pelas “obras da lei”, ou simples execução material daquilo que é mandado pela lei.

As boas obras são feitas para agradar a Deus por amor e são as conseqüências da verdadeira fé, posta em prática.

Diz ainda S. Paulo sobre a diferença entre obedecer a “Lei das Obras”, que não tem valor, mas a lei posta em prática pela fé: “Porquanto nós sustentamos que o homem é justificado pela fé, sem as obras da Lei. (…) Então eliminamos a Lei através da Fé? De modo algum! Pelo contrário, a consolidamos” (Rom 3, 28 – 31).

E mais, se apenas a Fé salvasse (segundo argumentos), você acabaria, indiretamente, justificando que uma pessoa pode levar uma vida de pecado, bastando ter fé para ser salva. Diz S. Paulo: “Que diremos então? Que devemos permanecer no pecado a fim de que a graça atinja sua plenitude? De modo algum!”(Rom 6, 1-2). E São Mateus: “Nem todo aquele que me diz ‘Senhor, Senhor’ entrará no Reino dos Céus, mas aquele que pratica a vontade de meu Pai que está nos céus” (Mt. 7, 21). Praticar é agir conforme a Fé, ou seja, é ter obras conforme a sua Fé.

Um pecador, deve pedir perdão de seus pecados e mudar de vida, mudar de obras (nunca permanecer sem obras e se justificar pela fé), conforme nos manda Nosso Senhor: “Ide e não peques mais!” Em outras palavras, mude de vida, corrija suas atitudes, suas obras.

FONTE: http://www.lepanto.com.br/variedades/debate-com-protestantes/so-a-fe-salva/

sexta-feira, 19 de julho de 2013

CONFISSÕES DO DEMÔNIO A UM SACERDOTE, OU O DIABO É LIBERAL E NÃO GOSTA DE CATOLICISMO TRADICIONAL...

 CONFISSÕES DO DEMÔNIO A UM SACERDOTE - O batismo e a confissão são o pior para nós. Caso verídico de um exorcismo em que o demônio foi obrigado a falar 
  
Estes trechos são parte de um sermão de três horas que o demônio fez através da pessoa de M.A.W., de Bondorf – Floresta Negra (Alemanha) no ano de 1910. O demônio repetiu muitas vezes, muitas vezes, três a quatro vezes, assim facilmente podia anotar tudo. Dezessete (17) pessoas assistiram esta cena e ficaram estarrecidas com estes acontecimentos e, com as assinaturas de todas, tudo foi examinado e aprovado. Isto prova o grande poder do espírito das trevas.

DEMÔNIO: - Eu tenho que falar, devo falar...

EXORCISTA: - Diga somente aquilo que Deus te ordenou a falar. Aquilo que Deus não ordenou a revelar não diga, sobre o resto cala-te! (Estas palavras o sacerdote repetiu muitas vezes). 
  
DEMÔNIO: - Eu tenho que falar. Aquele lá de cima me ordenou que te contasse (tudo), como nós enganamos os homens, como seduzimos os homens deste tempo. Nós inspiramos os homens. Nós dizemos aos homens: “Não é assim como os velhos falam, como ensinaram e acreditaram. Bobagem, incrível – que bobagem, tudo bobagem! A verdadeira religião não é assim como os velhos dizem. Vocês precisam ouvir somente o que a razão diz. 
  
O que a gente não pode compreender não precisa acreditar, não precisa acreditar, não precisa”. Quando falamos assim eles se afastam da verdadeira religião, afastam-se da revelação e fazem uma religião para si, uma religião deles. Ha, ha..., então é fácil incutir neles: “Deus não existe, Deus morreu, morreu, que Deus existe isto é crença de mulher velha. 
  
E o que mais inspiramos aos homens: liberdade é tudo, tudo – juntar dinheiro, riquezas, prazeres, alegrias, gozar a vida aqui na terra”. “Liberdade! – fazer o que quero – Liberdade. Ha, haaaa... 

E tenho que falar – a respeito da Grande Mulher (Mãe de Deus) – a respeito da veneração à Grande Mulher. Nós dizemos aos homens, inspiramos aos homens, Haaaa...: - O que adianta tudo isto? Ela não é essencial. Vocês precisam concentrar-se no essencial da religião. Ela não é essencial”. 
  
Estes homens bobos não compreendem que com isso – deixando a Veneração à Grande Mulher – perdem justamente o essencial. Estes homens tolos não sabem como “Aquele lá de cima” – o Altíssimo – a ama. Ele a ama como a si mesmo. Sim, sim, uma única palavra que Ela fala ao Altíssimo já é atendida – tudo o que Ela diz se realiza – tudo – tudo o que Ela pede se realiza... 
  
O TERÇO – é a oração mais forte e mais nobre.
Uma única Ave-Maria tem poder, poder... Uma única Ave-Maria até o purgatório, o lugar do sofrimento... Quando um homem diz: Ave-Maria – a Grande Mulher se alegra, e como se alegra – e nós huuu levamos um susto, susto, susto! Mas nós trabalhamos e inspiramos e cochichamos nos ouvidos dos homens: - o Terço não adianta – é rotina – é costume, é tagarelice – vocês precisam rezar outras orações, outras, ouviram, outras... O Terço é um terror para o inferno. 
  
Também o escapulário... 

Nós dizemos aos homens: - O que adianta esses pãezinhos, pãezinhos (hóstias) – nós temos a tarefa de destruir tudo isto, tudo isto, é nossa obra, nossa, nossa... 

Nós inspiramos aos homens dizendo: - Os dias de festas??? Ha, ha, dias de festa??? Estes dias de festa devem desaparecer! Sim, desaparecer... Ou mudar tudo – os dias de festa que não conseguimos destruir – apagar – devem tornar-se dias de abundância, dias de esbanjamento... Para nós é melhor que estes dias não existam. 
  
Porque muitos iriam à Igreja – rezar – fazer adoração, fazer as cerimônias e assim iriam atrair sobre si a MISERICÓRDIA DE DEUS. Nós vamos atrás dos grandes, dos grandes, os pequenos vêm por si... Nós também dizemos que tudo é natural, natural, natural... Dizemos que o demônio não tem influência, ha, haa! – e eles acreditam tudo... Nós agora atacamos principalmente os sacerdotes e dizemos a eles: - “O demônio tem influência sobre as coisas materiais”. Mas os sacerdotes esqueceram o que ensinou a sua Santa Igreja. Não sabem mais quanto poder, quantas forças receberam na hora da ordenação e não conhecem mais que poder tem tudo, também as coisas bentas, eles não conhecem mais quanto poder elas tem, as coisas bentas por eles. 
  
Eles deveriam reconhecer isto pelo efeito que tem tais coisas bentas, quando são usadas com humildade e piedade. Nós também inspiramos que o demônio está preso numa corrente, há, há, corrente – eles acham que não podemos fazer nada – vocês sabem como somos presos??? Presos nada – nós temos liberdade, nós podemos tentar os homens, perseguir os homens... Vocês sabem por que Aquele permitiu isto? Como poderia ser glorificado seu Nome se houvesse vitória, vitória sobre nós, vitória em seu Nome. Mas o Lúcifer – sim ele está preso no inferno – até o tempo em que surgir o anti-Cristo. 
  
Na Igreja – durante o sermão nós fazemos assim: nós cuidamos que o padre pregue bossa-nova, um sermão moderno... Com os ouvintes nós fazemos assim, para os grandes dizemos: - “O que, você vai escutar o sermão??? Você já sabe tudo isto – tudo você já sabe, melhor do que o padre... Você sabe o que deve fazer... E não é bem assim como o pregador diz... Com o povo simples nós fazemos assim: Pois quando os homens escutam o sermão com humildade e quando estão preparados para entender tudo – isto seria para eles – para eles de grande vantagem – e para nós isto seria prejuízo... Você nem calcula quanto prejuízo é para nós um bom sermão... Huiiii – Eu tenho que falar – falar. 
  
Quando os homens se reúnem para adorar “Aquele lá de cima” – então os anjos deles também se reúnem e se alegram – alegram, mas nós não podemos chegar perto – anjos, anjos... Mas quando os homens se reúnem por nós, em nosso nome, então nós nos alegramos quando criticam, criticam... nós nos alegramos, mas os anjos se afastam... Você deve saber que todo homem tem um anjo, sim um anjo... O anjo está sempre à direita, à esquerda nós, sempre ao lado... O anjo quer levar o homem ao caminho do bem, mas nós o tentamos, conquistamos... Quando nós conseguimos conquistar o homem, então o anjo sai, mas depois ele volta – ele faz tudo para levar o homem de volta ao bom caminho. Anjo, anjo... E quando o homem segue o bom caminho, aceita o conselho do anjo então o anjo nos manda embora e nós temos muito medo dele... Mas apesar disto nós não desistimos logo, nós rodeamos o homem e procuramos jogar as nossas redes sobre ele... Mas a Grande Mulher nos prejudica muito. Nós também fazemos nossa reunião, somos muito numerosos. 
  
Você deve saber que também sabemos pensar como você e quem de nós tem a opinião melhor – esta aceitamos. Quando os homens fazem reunião e não rezam e não tem fé, então o lucro é sempre nosso. Mas quando começam a reunião com Deus, então a obra é de Deus. 

O Batismo e a Confissão é o pior para nós. Antes do Batismo temos muito poder sobre as almas, mas no Batismo ela é arrancada de nossas mãos. Pior ainda é a Confissão, porque lá nós já não temos tudo em nossas mãos, em nossas garras e por uma boa confissão tudo é perdido, tudo é arrancado de nós... Mas nós inspiramos os homens dizendo: - O que? Você quer confessar? O que você quer dizer a um simples homem, homem como você? Ele é bem igual a você..... Ou nós inspiramos tanta vergonha, que já não é capaz de falar... Mas quando o homem vence a vergonha então está perdido para nós... Começa o horror para nós... 
  
Quando o homem está na hora da morte, estamos presentes, sempre são muitos de nós que vem... Então mostramos a ele seus inumeráveis pecados, mostramos todo o tempo que perdeu em ninharias, falamos da justiça de Deus, da severidade d’Aquele lá de cima – fazemos de tudo para deixá-lo confuso e para que fique com medo, com horror... e ele não tem coragem de arrepender-se... e depois choramos e gritamos para que ele não ouça o que os outros dizem. Mas quando vem a Grande Mulher – num só instante devemos desaparecer. Ela vem e cuida do seu filho. O homem é aliviado e Ela toma a sua alma e a leva até o Céu. E no Céu tem muitas alegrias e festa... Quando levamos uma alma para o inferno, os diabos também fazem festa. No momento que a alma se separa do corpo ela é julgada. Vocês não sabem e não podem imaginar como é isso – nós o sabemos muito bem, mas para vocês isto é incompreensível... Tenho que falar, tenho que falar... 
  
Tenho que contar do nosso caso. Foi a vaidade que nos levou a este estado, foi a vaidade que nos tirou lá do Céu... Huuuuu! Não existe nenhum homem nesta terra que já não foi atacado pela vaidade. Os homens são assim: quando fazem alguma coisa boa, querem que todos os homens o saibam e vejam... Eles não reconhecem que aquilo que fazem é Obra do Altíssimo. Tenho que falar, tenho que contar das alegrias do Céu para vocês. Huuuu! Para nós não há mais esperança! Eternamente sem esperança! A maior alegria do Céu é de contemplar a face de Deus. Escuta, escuta bem (diz, chegando perto do sacerdote), escuta o que digo: se pudesse só por um pouco de tempo contemplar esta face, aceitaria passar por todos os tormentos que existem (isso foi dito com tanta dor, que as palavras me penetraram pelo corpo e pela alma, estremeci, disse o sacerdote). 
  
Tenho que falar, tenho que contar dos nossos tormentos. Os homens acham que é o fogo que nos atormenta. Sim, sim, é fogo, fogo, mas um fogo de vingança. Você sabe qual é o tormento maior no inferno? A ira do Altíssimo! Você não pode imaginar como Ele é terrível na ira, como nós o experimentamos e o temos continuamente em nossa frente, diante dos nossos olhos... Aiiii de nós! Também tenho que dizer como o pecado é horrível... Se vocês pudessem nos ver... Ai de nós. Podemos somente pecar, pecar – somos monstros – mas o pecado é mais horrível - é muito mais feio do que nós... Temos o poder de tentar todos os homens, fazê-los pecar, só a Grande Mulher não, Aquele lá de cima nos proibiu de tocá-la, mas aquele que d´Ela nasceu, nós tentamos, sim, nós tentamos, você sabe porque? Para vocês terem um exemplo, um modelo de como se luta contra nós. Haaaa... Não foram os judeus que o mataram, fomos nós, nós, nós. 
  
Nós entramos nos judeus e conseguimos maltratá-lo, soltamos todas nossas fúrias, toda a nossa raiva, matamos Aquele. (O sacerdote ressalta: com estas palavras o demônio, através da pessoa, mostrou uma alegria, uma satisfação tão grande, tão feia que quem não viu não pode imaginar tal risada...). Você sabe que na hora da morte d´Aquele ainda ganhamos uma alma? O sacerdote respondeu: - A alma do bom ladrão você não ganhou. E o demônio: - Sabe por quê? Por causa d´Ela que estava aos pés da cruz. (Havia um motivo, mas o sacerdote não anotou e esqueceu).

Continua o demônio: - Com os jovens nós fazemos assim: cuidamos que um desperte o amor no outro. Eles acham que não há nada de mal... não sabem como se expõem ao perigo e como facilitam o nosso trabalho... Em geral cuidamos que o homem se torne preguiçoso e se afaste do bom caminho, até que por fim chegue a dizer: não quero rezar, não tenho vontade, não vou à Igreja, estou cansado demais... Não quero jejuar, sou muito fraco para viver uma vida assim. 
  
Também cuidamos para que tudo agora seja provado pela ciência, para que tudo tenha fundamento científico. Isto também é nossa obra.
Quando o homem levanta de manhã cedo e não inicia o dia com a oração e com a boa intenção, o dia é nosso. Se o homem começa o dia com a oração, está perdido para nós. Tenho que dizer também o que é assim – e assim (a pessoa imita o sinal da cruz) – é um horror para nós. Inspiramos os homens e dizemos: Que adianta tudo isso? Isto é água como a outra água, água qualquer (água benta); isto é pão como o outro pão (referindo-se à Hóstia) e sal, também não é o melhor (do sal bento para as cerimônias). Nós dizemos: é bobagem, tudo bobagem. Olha você (dirigindo-se ao sacerdote), a água apaga os pecados veniais, sim, os veniais... Ó se eu pudesse ganhar uma só gotinha, uma só gota, o que não faria!...? Agora teria arrependimento, mas é tarde, é tarde, não há mais esperança. Aiii de mim! Se vocês soubessem que grandiosidade é o sacrifício (Missa)! 
  
O sacrifício que é feito pelo filho d’Aquele lá de cima, em nome d’Ele, vocês participariam bem diferente neste sacrifício que estão participando agora. É o sacrifício mais sublime, é o maior sacrifício. Oh, se eu pudesse participar num só sacrifício, se pudessem nos dar o valor de um só destes sacrifícios... Se vocês soubessem o que é para as vossas almas, o lucro, quando vocês meditam, contemplam o sofrimento e a morte d’Ele... Quem o contemplar, quem se abrigar em suas chagas, nunca mais... Por que vocês não contemplam mais a grande bondade do Altíssimo? Vocês cometem milhões de pecados, sim, vocês engolem os pecados como se fossem água. Mas quando fazeis penitência, então Ele perdoa e vos aceita novamente. Um tal... Vocês tem um tal... (A palavra foi mal pronunciada). Nós cometemos um só pecado, só um, e fomos condenados. 
  
Vocês sabem por que os primeiros homens não foram condenados também? Porque não conheciam o céu, é por isso? Se vocês soubessem, se vocês soubessem, se pudessem ver quantos diabos os cercam... Vocês estariam perplexos... Se também agora sou obrigado a dizer tudo isso, então todos os outros meus companheiros, junto comigo, trabalharemos para destruir tudo o que revelamos a vocês. Esconderemos tudo, faremos com que vocês esqueçam de tudo e procuraremos vocês em toda a parte para confundir seus pensamentos, para tirá-los do bom caminho e lançá-los no abismo do inferno, do pecado. 
  
Quando vocês se reúnem, nós também aparecemos em grande número e fazemos tudo para que a reunião não tenha efeito, para que seja monótona, para que não haja vida... Mas quando alguém diz “em nome d’Aquele que está no céu” e ainda faz assim, assim e assim (sinal da cruz) então devemos fugir, fugir no mesmo instante, podemos só olhar de longe, observar o que vocês fazem. Vejam, assim treme o inferno, quando vem uma ordem d’Aquele lá de cima. Devemos fugir (enquanto o demônio disse assim, produziu na pessoa um tremor que não se pode imitar e seu rosto cobriu-se com pelos. Era horrível de ver...). Depois ele disse: vocês podem ganhar a alma dos maiores, é só fazer assim e assim (sinal da cruz). Quando vocês têm muita fé, nós devemos nos afastar. Assim vocês poderiam ganhar muitas almas e para nós estaria tudo perdido. 
  
Quando vocês todos fazem assim e assim, devemos nos calar. Por que você começou tudo isso?  Por que você me pergunta? (Ao sacerdote) Eu sei, você não queria fazer isso, nós que judiamos bastante de você, não é? Mas é Aquele lá de cima que te inspirou e te ajuda. Oh! Vamos judiar muito de você, mas enquanto você conservar a fé, então vencerá. 
  
Nesse momento o sacerdote disse ao demônio: - “Sim, em nome de Jesus devemos lutar”. O demônio respondeu: - “Sim, e você sabe como se pronuncia este nome? Olha aqui, deve-se pronunciar este nome assim (a pessoa ajoelhou-se no chão e disse), assim deve-se pronunciar este nome, pois sem devoção e respeito não se deve pronunciá-lo, não se deve desonrar o nome... Com isto o demônio calou e a pessoa voltou a si, recebendo de novo o domínio sobre os seus sentidos. O sacerdote quis dar uma explicação a outras pessoas que também estavam presentes, mas o demônio voltou e continuou a falar. Preciso ainda dizer alguma coisa... O Anjo assim ordenou. 
  
Vocês devem se esforçar e viver sempre unidos, unidos, unidos, unidos, ouviram? U n i d o s ... Um deve viver pelo outro, um trabalhar pelo outro, devem comunicar-se mutuamente, falar das vossas experiências, ser família. Vocês devem ajudar-se mutuamente, um deve ajudar o outro, assim todo o inferno nada consegue com vocês, nada, nada, pois quando conquistamos um de vocês, vem o outro, manda-nos embora e se fosse somente um de vocês que se lembrasse de fazer assim, assim e assim então teríamos esperanças de vencê-los, mas onde mais de um, dois, três fazem (sinal da cruz), aí não podemos fazer nada... E se tivéssemos conquistado todos e houvesse um que fizesse assim (sinal da cruz), então este um nos mandaria embora... 
  
Vocês terão muito que suportar, sofrer e lutar, mas enquanto estiverem unidos, vencerão.
Vão lutando, vão lutando, vocês não sabem quanta vantagem e quanto lucro vocês têm... Eu tenho que falar, falar... Sim, vocês assim ganham muitas almas. Vocês não têm somente vantagem para a sua vida, mas também para a sua morte, pois na hora da morte nenhum de nós poderá se aproximar de vocês se continuarem a lutar e a sofrer assim. 
  
Neste tempo haveis de conquistar muitos irmãos; sim, em pouco tempo sereis numerosos. Não serão os grandes que vos seguirão, mas somente os pequenos, assim como o mais alto início das coisas da fé com pequenos, impotentes, assim Ele levará toda a obra a um bom fim pelos pequenos. Nós ainda vamos preparar muitas armadilhas para vós, mas quando invocais a Grande Mulher, Ela há de interceder por vós. 
 
Segurai também aquilo, aquilo, aqueles propósitos que fizeram a respeito dos santos Anjos. Então sereis vitoriosos. Vede o que o mais ‘ Alto’ faz por vocês. Ele ordena ao demônio dizer todas as verdades. Ele ordena o demônio a fazer-vos um sermão e ainda não o acreditais... Que coisa é essa, tenho que falar aquilo que me causa tanto prejuízo, tenho que revelar tudo contra a minha vontade. Ai de mim, ai de mim, não há mais esperanças para mim, nenhuma esperança, estamos todos perdidos. 
    
Ninguém pode acreditar, assim relata o exorcista, como era horrível de ouvir tudo aquilo, de ver todo aquele desespero do demônio, aqueles traços horríveis, aquele rosto desfigurado da pessoa, e os gritos de angústia que ecoaram, as queixas e aflições depois da fúria e as batidas que me transpassaram na alma e no corpo, penetraram até a medula dos ossos.

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