quarta-feira, 9 de agosto de 2017

O SENTIDO DO SOFRIMENTO, POR ADOLPHE TANQUEREY.

O SENTIDO DO SOFRIMENTO, POR ADOLPHE TANQUEREY.

O sofrimento é um fato

O sofrimento é, neste mundo, um fato universal. São Paulo o afirma, e compara as dores humanas às de uma mãe ao dar à luz: “Pois sabemos que, até o presente, a criação inteira geme e sofre em dores de parto.” (Rm 8,22).
A experiência nos mostra que toda criatura sofre ao longo de sua existência terrena. Já no berço, a criança se serve do choro para queixar-se de seus pequenos incômodos. Quando cresce, tem suas tristezas e contrariedades, cuja intensidade é por vezes manifestada pelas lágrimas.
Mais tarde, vêm as crises da adolescência, com seus ar­dentes desejos, suas paixões, suas tentações, seu desejo de amar e ser amado, suas ilusões, suas decepções e mágoas.
Ao fundar uma família, o homem desfruta, sem dúvida, das alegrias puras e doces do lar; mas sua felicidade é frequentemente perturbada pelas responsabilidades, pelas preocupações, pelo trabalho duro, a luta pela vida, as doenças, os revezes da fortuna ou o luto.
À medida que sua vida prossegue, invadem-no as preocupações, as decepções, as angústias do coração, e ele começa a compreender que esta terra de exílio onde estamos apenas de passagem é realmente um vale de lágrimas. E depois, a velhice, com seu acréscimo de dores e misérias, com o enfraquecimento gradual de nossas energias e a proximidade da morte que se faz sentir, permite-nos compreender ainda melhor que a felicidade neste mundo não nos pertence, que não temos aqui morada permanente, e que nossas esperanças, para que possam realizar-se, devem convergir para uma vida melhor: a vida eterna.
Não são apenas os indivíduos que sofrem, mas também as famílias, com seus lutos e suas divisões, e as nações, com todos os horrores das guerras internas e externas e com as encarniçadas lutas de classes.

Por que existe o sofrimento?
Do ponto de vista natural, pode-se dizer que o sofrimento decorre da própria natureza do homem. Todo ser dotado de sensibilidade está sujeito à dor, assim como à alegria. Quando os objetos ou as pessoas estão em harmonia com sua sensibilidade, ele experimenta prazer; quando, ao contrário, ferem essa sensibilidade, ele sofre. É possível, portanto, sofrer sem culpa própria.
Mas a fé nos ensina que o sofrimento entrou no mundo por causa do pecado. Por um ato de bondade infinita e essencialmente gratuita, Deus havia preservado o homem da dor. Criado em um lugar de delícias, ele devia, se fosse fiel a Deus, passar desse paraíso terrestre diretamente ao céu, para nele gozar, por toda a eternidade, de uma felicidade sem sombras.
O pecado de Adão, transmitido a seus descendentes, veio transtornar esse belo plano. Com o pecado, a dor e a morte entraram no mundo, não somente como uma consequência natural da sensibilidade, mas também como um castigo pelo pecado.
Era justo: pois, tendo o homem pecado por um amor desordenado ao prazer, para satisfazer seu orgulho e sua sensualidade, era bom que ele sofresse para expiar sua falta, e para sentir-se mais inclinado a evitar toda transgressão, vendo que há uma justiça imanente e que o culpado é punido por seu pecado. Assim, o sofrimento, que parece ser um mal, torna-se um bem na ordem moral, uma reparação e um preventivo contra novas transgressões.
Essa ideia se torna mais clara com o grande mistério da Redenção. Para reparar a ofensa infinita cometida contra Deus por nossos primeiros pais e por sua posteridade, o Filho de Deus consente em fazer-se homem, em tornar-se o representante da humanidade culpada, em assumir sobre si o peso de nossas iniquidades, em expiá-las por trinta e três anos de sofrimentos e, sobretudo, pela imolação do Calvário. Assim, o sofrimento é reabilitado, enobrecido e divinizado. Já não é mais somente um castigo, mas um ato de obediência aceito voluntária e generosamente por amor, um ato que, na pessoa de Jesus Cristo, tem um valor infinito. Por ele, Jesus glorifica a Deus muito mais do que o pecado o havia ofendido, e coloca o homem, sob vários pontos de vista, em um estado superior ao de Adão inocente.
Esse ato tem para nós, portanto, as mais felizes consequências. Associando nossos sofrimentos aos seus, Nosso Senhor lhes confere um valor incomensurável. Eles se tornam, não mais um castigo, mas uma reparação: nós havíamos pecado por desobediência e por egoísmo; ao sofrer com Jesus e por suas intenções, reparamos nossa falta por um ato de obediência e de amor. Mas, além disso, utilizamos o sofrimento para progredir na santidade: cada dor pacientemente suportada por amor a Jesus aproxima-nos de Deus e aumenta nosso amor por Ele. E aumenta, ao mesmo tempo, a glória que nos caberá no céu: como afirma São Paulo, nossas tribulações são breves e fáceis de suportar, em comparação com a glória imensa e eterna que receberemos em recompensa! Por isso o Apóstolo se alegra em suas enfermidades e se gloria em suas tribulações, feliz por uni-las às do Cristo Jesus e completar assim sua paixão, para o maior bem da Igreja e das almas.
Milhões de Santos, caminhando nas pegadas do Mestre, sofreram e sofrem com alegria; dentre eles, muitos se oferecem como vítimas, seja à Justiça divina para expiar suas faltas e as dos outros, seja ao Amor, para serem consumidos pela divina caridade, para viver e morrer como mártires e assim ter uma parte maior na eterna visão e no eterno amor.

Como Jesus diviniza o sofrimento

Como, porém, nós temos um horror instintivo ao sofrimento, Jesus, nosso Salvador, vem sofrer em nós e por nós para enobrecer e divinizar o sofrimento. Ele o diviniza primeiramente em sua própria pessoa, no sentido estrito; no sentido amplo, ele o diviniza em seus membros, porque vem sofrer neles e, assim, comunica às suas dores um valor incomparável que os faz participar, em certa medida, nos méritos dos seus próprios sofrimentos.
Em primeiro lugar, Jesus diviniza o sofrimento em sua própria pessoa. Em virtude da união hipostática, que une em uma única e mesma pessoa a natureza divina e a natureza humana, o Verbo Encarnado comunica a todas as suas ações um valor infinito. A dignidade das ações depende, com efeito, da dignidade da pessoa; e, como em Jesus há somente uma pessoa, a pessoa do Verbo, tudo o que ele opera e tudo o que ele sofre participa da infinita dignidade dessa pessoa. Quando ele sofre, em seu corpo ou em sua alma, o Verbo torna suas todas essas dores, eleva-as à altura da sua dignidade, diviniza-as. É por isso que as dores de Cristo têm, aos olhos de Deus, um valor infinito, e que a menor delas bastaria para reparar a infinita ofensa que o pecado infligiu à majestade divina.
Mas Jesus também quer divinizar, em certa medida, os sofrimentos de seu corpo místico, de Maria, sua mãe, e dos homens, seus irmãos.
Tendo associado Maria, sua santíssima Mãe, à obra redentora, como já explicamos5, ele a associou, por isso mesmo, à sua imolação: não somente viveu, mas agiu e sofreu em Maria. Para dar a essa imolação um valor maior, ele faz suas as dores de sua Mãe, une-as às suas próprias dores e oferece tudo ao seu Pai pela salvação da humanidade. Dessa forma ele eleva, enobrece, e, por assim dizer, diviniza os sofrimentos de Maria, unindo-os aos seus. Associa sua Mãe à sua obra redentora, dá-lhe a honra e o consolo de trabalhar com ele, de uma forma secundária, sem dúvida, mas ainda assim muito real e muito eficaz para a mais divina de todas as obras, a da santificação das almas.
Essa honra, ele a quis conferir também a todos os cristãos, embora em menor grau. Segundo São Paulo, todos nós somos chamados, como membros de Cristo, a completar em nós mesmos a Paixão do Salvador Jesus (Cl 1, 24), e, em consequência, a sua obra redentora. É claro que essa Paixão é, em si mesma, não apenas completa, mas abundante e superabundante. Mas, sendo Jesus a cabeça de um corpo místico do qual nós somos os membros, a Paixão desse Cristo místico se completa a cada dia pela de seus membros, nos quais ele vem sofrer, e somente estará terminada quando o último dos eleitos tiver sofrido a sua parte das dores do Cristo.
Ora, vindo sofrer em nós, o divino Redentor faz suas as nossas dores, enobrece-as e as diviniza em certa medida, fazendo-nos assim participar, como Maria, em sua obra redentora, ainda que em menor grau. Cabe a nós colaborar generosamente com ele, aceitando com amor as cruzes que Ele houver por bem enviar-nos, não somente para nossa própria santificação, mas também para a de nossos irmãos. A dor adquire assim um sentido, e nos tornamos então, verdadeiramente, colaboradores do divino Salvador na obra de salvação das almas. Tendo parti­cipado de seus sofrimentos na terra, participaremos um dia de sua glória, e assim a obra de nossa divinização estará completa. 

FONTE: http://www.cultor.com.br/2017/01/o-sentido-do-sofrimento.html

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